Transporte público lotado aumenta a circulação do coronavírus pela cidade, alertam especialistas

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Primeiro dia das novas regras para passageiros em pé nos ônibus e BRTs teve coletivos lotados

Durante essa quinta-feira, primeiro dia com novas regras de funcionamento do transporte público, O GLOBO constatou que, apesar das novas determinações, ônibus e BRTs continuaram a rodar com pessoas aglomeradas. O cenário típico da rotina dos cariocas, mas grave em tempos de pandemia, preocupa especialistas. Ainda mais porque a curva da doença se estabilizou no Rio, mas com números muito elevados.

Para o epidemiologista Paulo Nadanovsky, da Fiocruz, nesse cenário, o progresso da flexibilização e, consequentemente, maior fluxo de pessoa, os transportes públicos possam vir a se tornar um foco de contágio.

— A forma de contenção era evitar a saída de casa, agora, que estamos flexibilizando isso, o único meio de conteção restante é chamar a atenção das pessoas para que usem máscara e evitem aglomerar, o que é importante, mas não era o suficiente nem na situação domiciliar.

Na teoria, os transportes deveriam respeitar o média de duas pessoas em pé, por metro quadrado; além disso, ônibus regulares teriam que circular apenas com 12 pessoas em pé, enquanto os BRTs poderiam ter uma faixa entre 24 a 30 passageiros fora dos assentos.

— Acho que várias dessas medidas são totalmente irrealistas. É totalmente irreal pensar que é possível manter dois metros de distância, entrando em um transporte público, com várias outras pessoas que também precisam respeitar seus horários. Em qualquer cidade grande não tem como manter essa distância nos horários de pico — argumenta o médico.

— A questão da máscara é uma tentativa, mas uma incógnita ainda. Como o risco de efeitos adversos é muito pequeno, estamos tentando e acreditando que ela tenha algum efeito razoável para evitar o contágio, mas não sabemos direito. Com mais aglomerações nos transportes, não vejo muita possibilidade da transmissão não aumentar. Nesse momento, acho que é um negócio super temoroso, porque estamos com números de mortes ainda muito altos.

A circulação de pessoas pela cidade implica na circulação do vírus pela cidade, explica a professora de epidemiologia da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Gulnar Azevedo. Ela também pontua que as etapas da flexibilização antecederam demais um patamar com números seguros. E, de acordo com ela, para esse sistema de retomada dos transportes públicos ser seguro é necessário que ele ocorra dentro de um plano integrado com outras camadas governamentais, não só econômicas, mas, também, sociais.

— As pessoas estão usando mais o transporte público porque retomaram o comércio e precisam trabalhar. Quem trabalha no comércio na Zona Sul e no Centro do Rio, provavelmente, não mora nesses lugares, então ela se movimenta porque precisa trabalhar. Por isso deve se garantir o apoio a pequenas, médias e micro empresas. Toda a estruturação da economia com o que pode ser feito na saúde, com a coordenação do transporte. É essa descordenação que está nos impedindo de baixar essa curva para um patamar seguro, possível de liberar nossas atividades — explica a especialista.

— [Essa retomada intensa no transporte] Não é muito promissora porque são medidas que não ocorrem de forma integrada. O desafio para o Brasil é muito maior por conta da desigualdade. Teríamos que prover condição para que as pessoas cumprissem em suas residências o isolamento dos casos suspeitos. Ou seja, essa medida tem que vir junto com a medida de proteção social e de apoio. A medida do ônibus tem que ser articulada com outras medidas, como auxílio emergencial e proteção social — defende Gulnar.

Nesse aspecto, os dois epidemiologistas esbarram na necessidade de intensificação do rastreamento da Covid-19, independentemente da quantidade testes. Um mapeamento de pessoas infectadas e com quem tiveram contato, que, por sua vez, integraria uma política com coordenação de diretrizes entre poderes.

— Em uma situação ideal, em relação a essas atividades essenciais, como a demanda pelo transporte público, esses setores deveriam ser um foco muito grande de rastreamento de infectados. Seria necessário um acompanhamento com agentes de saúde para fazer identificação de pessoas que já tiveram ou estão tendo contato com o vírus e fazer quarentena, já que não tem teste. Estou vendo a gente flexibilizar a possibilidade de sair e formar mais aglomerações, sem ter, em contrapartida, alguma outra forma de conter a transmissão do vírus — diz Paulo Nadanovsky.

— Minha expectativa é ruim, acho que, em três ou quatro semanas, ocorrerá um aumento no número de casos e mortes, infelizmente. Os países que flexibilizaram fizeram isso em um momento que o nível de transmissão já tinha caído muito em relação ao que já tinha sido atingido. Os únicos países que estão se arriscando a flexibilização sem um sistema de rastreamento e com um número elevado de mortes é o Brasil e os Estados Unidos — lamenta o médico.

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