Transtorno bipolar: como os exageros e as paranoias de Kanye West podem estar associados ao problema

Não estão sendo dias glamourosos na vida do rapper Kanye West, ou Ye, como ele prefere ser chamado agora. Ele perdeu 1,5 bilhão de dólares com o cancelamento de contratos com diversas marcas, como Adidas, GAP e Balenciaga. A Apple também eliminou de suas buscas a lista de músicas do cantor. Isso tudo ocorreu, de forma acertada, depois de uma série de comportamentos ofensivos do artista, incluindo polêmicas declarações antissemitas que o levaram a ser banido do Twitter e do Instagram.

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Não existe motivos que justifiquem seus atos, entretanto, o rapper, como divulgado em 2018, revelou ter sido diagnosticado com transtorno bipolar, uma condição que poderia explicar em parte suas atitudes polêmicas, sendo que a impulsividade pode ser uma das características do problema.

— A gente tem que ter muito cuidado para não estigmatizar e não discriminar nenhuma pessoa por causa dos transtornos que ela tem. Ninguém pode ser discriminado porque tem diabetes, ou porque tem hipertensão, ou porque tem transtorno bipolar. Essa é uma questão muito importante — afirmou em entrevista recente ao GLOBO o psiquiatra Fábio Gomes de Matos, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O que é o transtorno da bipolaridade

O transtorno bipolar consiste nas mudanças repentinas de humor, que se caracteriza pela alternância de períodos em que a pessoa fica mais exaltada. A mania, por exemplo, dura ao menos sete dias, enquanto a hipomania, chega em um período de quatro dias. Os de depressão são mais longos ocorrendo por até duas semanas.

Existem dois tipos de transtorno bipolar. O que determina se é do tipo 1 ou do tipo 2 é por quanto tempo dura a euforia. Entretanto, um dos modos não é vitalício, podendo o paciente apresentar diferentes tipos no decorrer da vida. Já num caso de o episódio de mania ter um intervalo de três dias, não correspondendo, portanto, às características do transtorno, o quadro torna-se controverso, mas pode ser definido como espectro bipolar, como um "transtorno bipolar subliminar" ou ciclotimia.

Incidência

Enquanto a depressão atinge de 155 a 18% da população geral, o transtorno bipolar tipo 1 é estimado em 1%, e o tipo 2, em 5%. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) considerou como preocupante o fato de que 78% das com bipolaridade são diagnosticadas erroneamente como apenas depressão, visto que cada uma delas é tratada de uma forma. Enquanto a depressão é tratada com antidepressivos, o transtorno bipolar pede por estabilizadores do humor. A permanência e consistência do tratamento é fundamental para o controle dos sintomas e da condição.

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West já falou sobre o transtorno em suas músicas e alguns sintomas, como a rapidez de pensamentos e até mesmo a paranoia pode ser observada. Em 2018, a arte do oitavo disco dele, chamado de “Ye”, ele escreveu: "Eu odeio ser bipolar / É incrível". Em outra ocasião, ele chegou a descrever o distúrbio como seu “superpoder”.

Ao falar, recentemente, por meio de postagens nas redes sociais e entrevistas que “o povo judeu é dono da voz negra... seja por meio de nós assinando com uma gravadora ou tendo um empresário judeu” e em seguida dizendo que eles são os culpados por ele estar sendo bloqueado é uma clara afirmação das paranoias criadas pelo cantor.

Na série documental "jeen-yuhs: Uma Trilogia Kanye", lançada neste ano pela Netflix, Ye comenta um pouco sobre os impactos do transtorno bipolar em sua vida, incluindo "momentos em que se sentiu suicida".

— Vocês já foram algemados e colocados em um hospital porque seu cérebro era grande demais para o seu crânio? — pergunta o rapper em dado momento do terceiro episódio.

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Tratamento

É importante ressaltar que, por conta dos exageros, e das mudanças repentinas do humor, pacientes diagnosticados com bipolaridade tendem a ser “demais”. A comer demais, beber demais, fazer coisas sem pensar demais e, por isso, sua expectativa de vida acaba sendo de 10 a 15 anos menor do que as pessoas não diagnosticadas com o transtorno.

Por isso o tratamento é muito importante, bem como a continuidade do tratamento que pode durar por toda a vida. Especialistas afirmam que não é aconselhado o paciente parar a medicação para o controle dos sintomas e os ricos de novos episódios.