Tratados como relíquias, instrumentos brasileiros antigos movimentam mercado informal de luthiers, músicos e colecionadores

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Depois de quase dez anos dando aulas em pré-vestibulares, o professor de Física Thales Zagalia decidiu mudar de carreira quando foi demitido. Ele fez um curso para se tornar luthier — profissional que fabrica ou repara instrumentos de corda — e abriu um ateliê em casa, no Grajaú. Além de atender pedidos de conserto, Zagalia garimpa instrumentos antigos para comprar, reformar e vender, nesta ordem. Uma tendência entre aficionados do meio que não é nova, mas ganhou fôlego recente, segundo colecionadores, músicos e afins.

— Vivo disso há dois anos e o retorno é muito bom. A Giannini foi a empresa brasileira com maior estrutura em termos de guitarra. Tem modelos antigos muito bons. Mas minha parada é mais com violão, é com o que eu mais gosto de trabalhar. Os violões da Di Giorgio são os mais procurados. Os das décadas de 1960, principalmente, têm uma construção muito boa e uma sonoridade incrível. São muito reconhecidos e têm valor histórico. Muitos dos grandes discos da música popular brasileira foram gravados com um Di Giorgio. — ele conta.

O nome do negócio do luthier, Flor de Jacarandá, remete à madeira largamente usada em instrumentos musicais antigos pela sonoridade incomparável. O comércio do jacarandá, no entanto, está proibido desde 1992 por conta da ameaça de extinção do Jacarandá-da-Baía, árvore nativa brasileira. Entre outros fatores, isso faz com que instrumentos de décadas passadas, sobretudo de 1960 e 1970, quando a produção também era mais artesanal, sejam alçados ao status de relíquia.

Fã-clube

Os violões Di Giorgio estavam nas mãos de nove em cada dez nomes da geração de artistas que fundou a bossa nova, entre tantos outros músicos dos mais variados gêneros. Por sua vez, a Giannini produziu guitarras e baixos elétricos que seguem atraindo compradores (podem custar por volta de R$ 2 mil), muito pela similaridade desses produtos com modelos estrangeiros, como os das americanas Fender e Gibson (que custam, os mais tradicionais, cerca de R$ 8 mil).

É o caso de Cristian Dias, multi-instrumentista que já trabalhou com artistas como Lobão, Mahmundi e Illy, e integra a banda Astro Venga. Ele comprou uma guitarra Giannini modelo Supersonic dos anos 1980 há cerca de dez anos, sem levar muita fé, incentivado pelo valor atraente, bem abaixo de uma sonhada guitarra americana. A surpresa positiva foi tamanha que ele virou fã da marca nacional.

— Paguei em torno de R$ 500 na época. Eu dava muita aula, circulava muito. Seria um instrumento para o dia a dia. Mas me surpreendi muito. Gostei bastante do som. Decidi usar em ensaios, foi na época que eu entrei para o Astro Venga. Caiu perfeitamente pra tocar na rua. Comecei a pesquisar e gostar principalmente dos modelos dos anos 1960 e 1970 — diz o músico, que mais tarde adquiriu outros modelos da Giannini, como uma guitarra Apollo dos anos 1960 que ele tem até hoje. — No início, era um pulo do gato, pouca gente sabia. Mas isso foi popularizando.

O publicitário Luiz Fernando Boranga, de 39 anos, morador de Sorocaba, enxergou o “pulo do gato” há 12 anos, quando começou a comprar e vender violões antigos. Hoje, mantém a loja virtual Violão do Brasil no Instagram, negociando modelos cobiçados como “Fora série”, “Autor”, “Romeo” e “Tárrega” — o último ganhou fama por ser xodó de João Gilberto. Um “Fora série” dos anos 1960 em excelente estado pode chegar a R$ 20 mil.

— A demanda aumentou muito, o garimpo está mais difícil. Tenho clientes que estão na terceira compra comigo, foram picados pelo bichinho do violão vintage — conta o publicitário.

Muitos violões Di Giorgio da década de 1960 passaram pelas mãos do veterano luthier Mário Alves. Ele também lembra da importância de outras marcas nacionais, como Do Souto e Del Vecchio (ambas em atividade) e faz um aviso a quem quer achar um modelo daquela época para chamar de seu.

— Quando eu comecei a trabalhar com luteria, no eixo Ipanema - Leblon, percebi que ali, naquela região, você encontrava muito violão Di Giorgio dos anos 1963, 1964, 1965... Era onde reinava a Bossa Nova, onde a noite fervia. Para quem quer adquirir um, eu só digo uma coisa: corra, porque muita gente vem para cá atrás desses modelos: franceses, ingleses, italianos, o mundo todo — alerta Alves.

A história da fundação da Giannini e da Di Giorgio tem enredo de novela de época. Dizem que foi por certo brio, aguçado por um desafio, que o jovem imigrante italiano Tranquillo Giannini (1876-1952) se aventurou a fazer seu primeiro violão na São Paulo do final do século XIX, aonde havia chegado em meados de 1890, aos 20 anos. Habilidoso no trato com a madeira, ele teria recebido de um músico a missão de consertar um violão e cravou: “Se eu fizer um, vai ficar melhor que esse aqui.” O músico duvidou, e Giannini embarcou na aposta, dando o pontapé para o que se tornaria uma das maiores empresas de instrumentos do Brasil.

Tudo em casa

Sua mulher à época da fundação, em 1900, da “Grande Fábrica de Instrumentos de Cordas de Tranquillo Giannini”, a também imigrante Rosina Di Giorgio, virou contadora do negócio. E viu uma oportunidade de trazer para o Brasil seus três filhos do primeiro casamento que ainda estavam em Roma. Assim, desembarcaram em Santos e foram trabalhar na fábrica Anselmo, Giulio e Romeo Di Giorgio. O último, entretanto, criaria sua própria oficina logo em seguida, em 1908, visando a uma produção mais artesanal e rebuscada. As duas empresas, Giannini e Di Giorgio, atravessaram, em atividade ininterrupta, mais de um século de história que se confunde com a própria trajetória da música popular brasileira.

—Tem mais gente querendo comprar, trocar, restaurar. Acho que pandemia fez as pessoas tirarem os instrumentos do armário — diz Reinaldo Di Giorgio Jr, atual presidente da empresa, neto do fundador e filho de Reinaldo Di Giorgio, figura responsável pela popularização da marca no Brasil e do mundo. — Meu pai era um publicitário nato, soube aproveitar o momento da Bossa Nova muito bem. Temos uma carta do Tom Jobim para o papai da época em que ele começou a tocar nos Estados Unidos, era um pedido para agilizar a fabricação porque tinha muita gente querendo aquele violão — conta Reinaldo.

Para Flávio Giannini, sobrinho-neto de Tranquillo e atual diretor comercial da empresa que leva seu sobrenome, a procura por instrumentos da marca tem um apelo nostálgico.

— Quem tem modelos antigos, até hoje não se desfaz e, quem por ventura vendeu, busca até hoje adquirir novamente. São procurados pelo timbre e pela qualidade, mas também pela nostalgia de ter estes instrumentos que fizeram a história da Giannini e a história de muitos músicos. Elas representavam a conquista de um sonho, uma realização.

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