Tratamentos a laser para pele negra atendem público negligenciado pelo mercado

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 06.04.2016 - Retrato do ex-jogador Pelé. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 06.04.2016 - Retrato do ex-jogador Pelé. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Populares, os tratamentos estéticos a laser, como depilação, não são oferecidos para pessoas negras na maioria das clínicas.

Esses procedimentos podem gerar manchas e queimaduras na pele negra, que tem maior concentração de melanina. Por não terem equipamentos adequados ou profissionais especializados, boa parte dos estabelecimentos não atende essa população.

Inconformada com a limitação tecnológica e a falta de informação, a esteticista Zarah Flor da Silva Rizzo, 37, começou a testar a tecnologia em si mesma, ajustando a programações da máquina, até criar o próprio protocolo, em 2015.

Hoje, ela é dona da clínica de estética que leva seu nome, na Bela Vista, em São Paulo. Criado por e para pessoas negras, o espaço é um dos poucos na cidade a oferecer serviços para esse público, que corresponde a 90% dos clientes.

Segundo a empreendedora, a depilação a laser é o carro-chefe do negócio. O tratamento dura de 10 a 12 sessões, que custam de R$ 85 (buço) a R$ 399 (perna) cada.

A clínica também oferece limpeza de pele, microagulhamento e botox, além de acompanhamento nutricional, design de sobrancelhas, procedimentos para gordura localizada, entre outros.

A dermatologista Katleen da Cruz Conceição, referência no tratamento da pele negra, explica que a melanina atrai a ação do laser. Em pretos e pardos, o aparelho não consegue distinguir a pele do pelo, por isso pode acabar causando ferimentos. Em peles brancas, o efeito da tecnologia é concentrado no pelo.

A médica é membro da Skin of Color Society, sociedade norteamericana voltada ao conhecimento sobre a pele de cor na dermatologia, e também começou seus estudos testando em si mesma.

Hoje, ela atende seus pacientes em São Paulo, na Clínica Vanité, e no Rio de Janeiro, pelo Grupo Paula Bellotti. Segundo ela, já existem tecnologias para o tratamento da pele negra, mas o preço das máquinas é muito alto.

"Um laser que eu gosto bastante é o de picossegundo, [que emite pulsos de laser na velocidade de picossegundo]. Ele custa entorno de R$ 1 milhão, fora a manutenção", diz.

A médica conta que seus pacientes a procuram, principalmente, por causa de doenças de pele. Essa parcela da população tem uma maior tendência a alergias, alopécia —relacionada à queda de cabelo— e vasinhos nas pernas, por exemplo.

Para Conceição, a falta de informação e tecnologia acessível para o tratamento tem raízes no racismo. "Acreditam que a população negra não tem poder aquisitivo [para pagar tratamentos]", diz.

Foi esse pensamento que Zarah buscou combater. "Eu queria uma clínica com mais profissionais iguais a mim." A empresa conta com cinco esteticistas contratadas e outros dez especialistas parceiros. De todos os funcionários, apenas um é branco.

"Procuro apoiar o Movimento Black Money e consumo só produtos de pessoas negras." Segundo ela, seu negócio se tornou um ambiente de acolhimento. "É difícil você encontrar um profissional negro na área da saúde. Quando as pessoas veem, ficam emocionadas", afirma.

Em 2020, ela investiu mais de R$ 20 mil para expandir o negócio. A clientela foi aumentando e há um mês a empresária se mudou para um espaço maior, com oito salas de atendimento e 15 colaboradores. Só em 2021, a clínica faturou mais de R$440 mil, e neste ano já ultrapassou os R$ 490.

Já o dermatologista André Moreira, 33, se uniu a duas sócias brancas para criar a ADA (Alfa Dermatologia Avançada), em Brasília, em 2019. Na contramão das harmonizações faciais, a empresa oferece tratamentos voltados às particularidades do indivíduo.

A clínica tem um setor especializado em pele preta coordenado pelo dermatologista. Para ele, a falta de investimento nesse público demonstra falta de conhecimento do mercado.

"Nós somos a maioria do Brasil. Temos pessoas pretas ricas, pobres e na chamada classe média. Várias estão dispostas a investir em cuidados estéticos."

Em 2021, o médico atendeu mais de 900 pessoas. Delas, 60% eram negras, segundo ele. Uma consulta na clínica, que faturou em torno de R$ 3 milhões em 2021, custa em média R$ 350.

O investimento inicial foi de R$ 300 mil, fora os custos com equipamentos como laser, produtos injetáveis e treinamento da equipe.