TrateCov: Suposta 'invasão" só foi identificada uma semana após plataforma que incentivava uso de cloroquina sair do ar

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BRASÍLIA — O Ministério da Saúde só identificou a suposta "invasão hacker" no aplicativo TrateCov uma semana após o sistema ter sido retirado do ar, o que contradiz a versão apresentado à CPI da Covid pelo ex-ministro Eduardo Pazuello. De acordo com documentos obtidos pelo GLOBO, a possível disponibilização não autorizada da plataforma foi "encontrada" apenas na madrugada de 28 de janeiro. O sistema, porém, foi retirado do ar sete dias antes, quando foi noticiado o uso da plataforma para recomendar o uso da cloroquina.

A notícia de que o medicamento era indicado até para bebês foi divulgada na imprensa no dia 20 de janeiro. No dia seguinte, após críticas de entidades como a Conselho Federal de Medicina (CFM), ele foi retirado do ar. Na época, a justificativa oficial da pasta para a retirada foi que o sistema havia sido ativado "indevidamente". Em seu depoimento à CPI da Covid, Pazuello afirmou que o aplicativo saiu do ar por ter sido "hackeado".

— No dia em que nós descobrimos que ele foi hackeado, eu mandei tirar do ar imediatamente _ declarou o ex-ministro à CPI.

Pazuello afirmou aos senadores que também fora feito imediatamente um boletim de ocorrência, mas isso só ocorreu no dia 11 de fevereiro.

Em depoimento à Polícia Federal, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello deu outra versão. Disse que o aplicativo foi "imediatamente tirado do ar ao ser identificada uma falha". E prossegue dizendo "que a falha consistia em indicação no uso da hidroxicloroquina, diante de sintomas que não tinham relação com a Covid". Ele não menciona uma suposta invasão.

No dia 28 de janeiro, o diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde, Vinicius Nunes Azevedo, enviou um e-mail à secretária Mayra Pinheiro no qual disse que "na madrugada do dia 28/1/2021 foi identificada uma possível disponibilização não autorizada da Plataforma Digital TrateCOV Brasil". Foi ele quem lavrou um boletim de ocorrência.

À Polícia Civil do Distrito Federal, Vinicius relatou que procurou o termo "TrateCov Brasil" no Google às 04h20 da madrugada do dia 28 de janeiro. Então encontrou um post no blog Manual do Usuário, cujo título era "TrateCov, do Ministério da Saúde, só indica remédios ineficazes contra a Covid-19", segundo trecho do boletim.

Na reportagem, denunciando que a plataforma do Ministério da Saúde recomendava a cloroquina de forma irrestrita, havia um link para o código fonte do aplicativo, retirado diretamente do site onde ele estava hospedado pelo ministério.

O código fonte foi copiado por um jornalista e publicado de forma aberta para provar que estava dentro da plataforma a recomendação do medicamento. O ocorrido não configura uma invasão, já que não é possível adulterar um aplicativo apenas lendo ou copiando um código fonte.

"Importante ressaltar que o TrateCov Brasil encontra-se fora do ar e com o desenvolvimento e disponibilização suspensas por ordem judicial", diz o relato do boletim de ocorrência.

Em lista apresentada pelo Ministério da Saúde como possíveis evidências da invasão está uma publicação feita no Twitter pelo jornalista que testou a plataforma. Durante depoimento à CPI, ele foi acusado nominalmente por Mayra Pinheiro como responsável pela "extração indevida" de dados.

Apesar de Eduardo Pazuello negar ter lançado do aplicativo, e-mails trocados por integrantes do Ministério da Saúde mostram que ele planejou o lançamento do aplicativo em Manaus na semana do colapso no sistema de saúde da capital amazonense. Em um deles, o servidor Eduardo Mariath pede agilidade no desenvolvimento do site "para o survey que será lançado na segunda-feira (11 de janeiro) em Manaus pelo Ministro".

Durante depoimento da secretária de Gestão do Trabalho, Mayra Pinheiro, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), perguntou por que o ministério tirou o aplicativo do ar, já que a secretária argumenta que a ferramenta poderia salvar vidas.

— Se não foi hackeado e não foi modificada a orientação ou determinação (do tratamento precoce), por que foi retirado do ar? — questionou Aziz.

Mayra Pinheiro respondeu que a suspensão foi necessária para fazer a investigação sobre a extração de dados. Os documentos que mostram que a suposta "invasão" foi detectada apenas uma semana depois, porém, contradizem essa versão.

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