Como 'tratoraço' joga terra no discurso anticorrupção do governo

Trator trabalhando na obra transnordestina no sertão do ceará
Foto: Getty Images

“É um mensalão disfarçado de emendas parlamentares”.

A declaração foi dada pelo economista Gil Castelo Branco, da ONG Contas Abertas, ao repercutir a notícia, publicada no domingo em O Estado de S.Paulo, segundo a qual o governo Bolsonaro criou uma espécie de orçamento paralelo de R$ 3 bilhões para ampliar sua base de apoio no Congresso.

Documentos obtidos pelo repórter Breno Pires mostra que, desde o ano passado, deputados e senadores governistas atropelaram as leis orçamentárias para obter os recursos direto da fonte e direcioná-los aos seus redutos. No drible, não é o titular do ministério, o detentor do orçamento, que aponta para onde vai o dinheiro, o que facilitaria o acompanhamento dos órgãos de controla. São os próprios parlamentares que definem o destino —em valores acima das emendas obrigatórias. O drible na transparência, claro, não chega a quem não defende o governo.

Nas contas do Estadão, um dos beneficiados, o ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP), manejou R$ 277 milhões só no Ministério do Desenvolvimento Regional. Ele levaria 34 anos para ver tanto dinheiro se estivesse na fila dos parlamentares comuns, que por ano só podem direcionar R$ 8 milhões.

Parte dos recursos foi usada para comprar equipamentos agrícolas. Há suspeita de sobrepreço. Em um dos casos, foram direcionados recursos para a aquisição de tratores por R$ 4 milhões. O preço de “tabela” do governo para esses equipamentos era de R$ 2,8 milhões.

Desde a publicação, a expressão “tratoraço” virou um dos assuntos mais comentados no Twitter —onde, até o fechamento deste post, governistas e seus robôs ainda não haviam emplacado a sua versão dos fatos para justificar o abocanhamento patriótico do dinheiro público.

Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, em janeiro de 2019, sob a sombra do escândalo das rachadinhas, suspeita de que parte dos salários de funcionários dos gabinetes parlamentares da família era retida com a ajuda de Fabrício Queiroz. Aquele que foi encontrado na casa de campo do advogado da família em Atibaia e agora, solto, engrossa os protestos do tipo “eu autorizo, presidente”.

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Recentemente, a Controladoria Geral da República matou no ninho uma história estranhíssima a respeito de aquisição de laptops pelo Ministério da Educação. Uma das escolas beneficiadas, no interior de Minas, receberia mais de 115 equipamentos por aluno. Nunca ninguém veio a público explicar como isso foi acontecer.

O novo foco de incêndio dá uma trilha para entender a conversão e a defesa apaixonada, aparentemente gratuita e desinteressada, dos integrantes do centrão ao governo na CPI da Pandemia.

Se abrir outras trilhas, os senadores poderão entender também de onde vem e quem ganhou com a paixão militante de governistas por um medicamento sem eficácia que contou até com a estrutura do Itamaraty para inundar, com dinheiro público, hospitais e postos de saúde.

O tratoraço tem tudo para jogar areia na fantasia dos gladiadores anticorrupção, a última miragem que os convertidos ao bolsonarismo, já desiludidos com a competência técnica da equipe, o ideal liberal, a aliança com a Lava Jato e a independência dos órgãos de investigação, ainda se apegavam antes de abandonar o barco de vez.

Quando gritavam “eu autorizo, presidente”, não imaginavam que estavam dando carta branca para manejos heterodoxos do orçamento. Haja pano para esconder o que, em outros tempos, era chamado de toma-lá-dá-cá.

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