Trecho Niterói-Manilha da BR-101 registra um roubo de carga a cada quatro dias

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RIO — Perto dos fins de semana e feriados, os engarrafamentos já fazem parte da paisagem. Rodovia usada para chegar à Região dos Lagos nos dias de descanso, a Niterói-Manilha também é o trecho mais visado pelos criminosos em toda a extensão da BR-101 no Estado do Rio. De janeiro a setembro, foram registrados 62 roubos de carga na região, o que representa um caso a cada quatro dias e uma alta de 67,5% em relação ao mesmo período de 2020, quando houve 37 ocorrências. Os dados são da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Na parte que se estende do Barreto, em Niterói, até Manilha, em Itaboraí, os alvos não são apenas caminhoneiros, mas também motoristas de carros de passeio, que podem ser vítimas de arrastões a qualquer hora do dia: 343 carros e motos foram roubados nesse trecho no período, alta de 148,5% em relação aos 138 registros de 2020, ainda segundo a PRF.

Esse aumento nos indicadores de violência é explicado uma vez que o tráfego de veículos na via foi reduzido em 2020, em decorrência da pandemia de Covid-19. O cenário, no entanto, agora, acende o sinal de alerta para um possível retorno aos alarmantes índices verificados de janeiro a setembro de 2019: 89 subtrações de carga e 460 roubos de veículo. Um levantamento da empresa de segurança MoviSafe apontou a Niterói-Manilha como a recordista em roubos de veículos dentre todas as rodovias do país em 2019.

Nos 23 quilômetros da rodovia, o trecho preferido dos bandidos margeia a cidade de São Gonçalo: a fuga para comunidades no município é facilitada em quatro pontos estratégicos, distribuídos por dez quilômetros, do bairro de Itaúna à divisa com Itaboraí.

Morto com uma pedrada

Um dos acessos fica no trecho dos quilômetros 302 e 301, em Guaxindiba, e é usado por criminosos que fogem para a comunidade do Brejal. No último dia 12, um arrastão no local, na pista sentido Manilha, causou pânico na estrada: de cima de uma passarela, criminosos atiravam pedras para forçar veículos a pararem e, assim, roubá-los. Um entregador de aplicativo foi atingido por uma delas e, mesmo de capacete, não resistiu.

O motorista aposentado Denecy Monteiro da Silva, de 57 anos, trabalhava com delivery de comida para completar a renda. Ao final de mais um expediente, passou na casa da filha, em São Gonçalo, para deixar a mochila de transporte das encomendas, como fazia sempre, e seguiu rumo a Guapimirim, onde morava, passando pela BR-101 em parte do percurso.

— Da passarela, jogaram uma pedra e foi certeira na cabeça dele. Ele estava de capacete, o equipamento rachou e ele se foi na hora. Não teve socorro, não teve nada — lembrou Mariana Dantas da Silva, filha da vítima, em entrevista à TV Globo, antes de concluir: — Fizeram isso só para levar a moto.

Carlos Roberto Abreu Siqueira é caminhoneiro há três décadas e transita pela rodovia federal que está concedida para a iniciativa privada para transportar cargas de tijolo. Nos últimos cinco anos, foi obrigado a parar a viagem incontáveis vezes para evitar ser roubado ao avistar arrastões.

— Essa região não era perigosa como é hoje, o problema se agravou de um tempo para cá. Por sorte, as vezes que percebi que os carros à frente estavam parando por causa de arrastão, consegui encostar num posto de gasolina ou num recuo distante. Eles fecham a BR e levam dois, três carros. Aquele pedaço entre o Jardim Catarina e os acessos ao Salgueiro ficou muito violento. Ali é o foco — relata o morador de Guadalupe.

Morador da Barra da Tijuca, o contador Maurício Lyra costuma aproveitar feriados na casa que tem em Cabo Frio. Para chegar lá, atravessa a Niterói-Manilha, mas evita horários de pico para não enfrentar engarrafamentos e, consequentemente, ser pego de surpresa num arrastão.

— O que a gente vê de notícia de assalto na região não é brincadeira. Passo por lá porque é a única opção viável, mas sempre alerta e até um pouco inseguro com o que pode acontecer, até porque costumo ir com minha mulher e filha. Minha preocupação maior não é o engarrafamento, mas o que pode acontecer comigo enquanto estou parado — diz Lyra.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, entre janeiro e setembro, a área atendida pelo 7º BPM (São Gonçalo) — unidade responsável pelo maior trecho da Niterói-Manilha — teve 773 roubos de carga, número 20,2% maior do que os 643 no mesmo período de 2020, e que também corresponde a 23% das 3.353 ocorrências dessa natureza em todo o Estado do Rio. Essa quantidade representa, contudo, uma redução de 29,5% em relação a 2019, antes da pandemia, quando ocorreram 1.101 casos.

Policiamento reforçado

Nos últimos meses, os índices de roubo de carga vêm caindo em São Gonçalo: 107 em junho, 97 em julho, 75 em agosto e 60 em setembro. O coronel Sylvio Guerra, comandante do 4º Comando de Policiamento de Área (CPA), que compreende o 7º BPM, o 12º (Niterói) e o 35º (Itaboraí), diz que, hoje, todos os pontos de fuga da Niterói-Manilha utilizados por bandidos estão fechados pela PM.

— Estamos reduzindo o roubo de veículos e de cargas em relação a 2019, referência que usamos uma vez que 2020 foi um ano atípico. Temos policiamento 24 horas do Recom (Rondas Especiais e Controle de Multidão) e dos batalhões das três cidades. O posicionamento de viaturas em todas as rotas de fuga tem surtido efeito e, quando necessário, pedimos reforço à PRF — conclui Guerra.

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