Três pacientes medicados com hidroxicloroquina inalável morrem no RS; tratamento foi elogiado por Bolsonaro

Redação Notícias
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O hospital afirmou que a técnica era ministrada pela médica Eliane Scherer e vem contribuindo para a piora da saúde dos infectados com a Covid-19 (Foto: AP Photos)
O hospital afirmou que a técnica era ministrada pela médica Eliane Scherer e vem contribuindo para a piora da saúde dos infectados com a Covid-19 (Foto: AP Photos)
  • Três pacientes nebulizados com hidroxicloroquina diluída em soro morreram no RS

  • Tratamento foi defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido)

  • Médica responsável é investigada por contrariar orientações do hospital

Três pacientes com Covid-19 medicados com hidroxicloroquina inalável morreram em Camaquã, no Rio Grande do Sul, entre a útlima segunda-feira (22) e esta quarta-feira (24). O tratamento experimental, que é feito por meio da nebulização da droga diluída em soro fisiológico, foi defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em uma live na semana passada.

De acordo com o portal gaúcho GZH, o Hopistal Nossa Senhora Aparecida, onde os pacientes estavam internados, ainda não confirma que as mortes têm conexão direta com o tratamento alternativo. No entanto, os enfermos, que tinham estados clínicos graves e estáveis, morreram após o início da nebulização. 

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"Não verificamos que a nebulização esteja contribuindo para melhorar o desfecho dos pacientes. Os indícios sugerem que está contribuindo para a piora porque todos os casos (de óbito) apresentaram reações adversas após o procedimento", disse Tiago Bonilha de Souza, médico e diretor-técnico do hospital ao GZH.

Ainda segundo o jornal, o hospital afirmou que a técnica era ministrada pela médica Eliane Scherer e vem contribuindo para a piora da saúde dos infectados com a Covid-19. Scherer estava utilizando o procedimento experimental e sem comprovação científica em pacientes da emergência.

A médica não era funcionária do hospital, mas contratada da Promed, empresa que intermedeia serviços médicos em clínicas e hospitais. Ela atuava no local desde março de 2020. 

Pelo contrato, segundo obtido pela Folha de S. Paulo, ela deveria atuar apenas no serviço de pronto-socorro do hospital. No entanto, a médica estava aplicando nebulização de hidroxicloroquina em pacientes internados na UTI e nos leitos clínicos — Scherer não tinha autorização para ingressar ou atuar nesses ambientes.

Na segunda-feira (22), o Hospital Nossa Senhora Aparecida, de Camaquã, solicitou ao Ministério Público estadual e ao Conselho Regional de Medicina (Cremers) que investiguem a conduta profissional da médica Eliane Scherer, que até semana passada atuava como intensivista na instituição.

Médica assumiu tratamento integral do paciente

Segundo o jornal, um dos casos de óbito é o de um homem cuja família assinou o termo de conciliação. Ou seja, havia um desejo de tratamento com a médica e o hospital, entendendo que não poderia impedir, propôs a assinatura do documento em que se eximia de responsabilidade por eventuais consequências. 

O paciente estava sob cuidados da equipe regular do hospital até as 18h de segunda-feira (22). Mas, a partir das 19h, Eliane assumiu o seu tratamento integral.

Unconscious and intubated Covid-19 patients are treated in Sapopemba Hospital's ICU, in the same neighborhood of Sao Paulo, on June 21, 2020. According ta a study published in June 21st, Brazil's public hospitals, like Sapopemba, had almost 40% death rates from the new coronavirus, the double from private hospitals. Sapopemba is one of the neighborhhods in Sao Paulo with highest number of deaths from Covid-19 (Photo by Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
De acordo com o jornal, o homem morreu na terça-feira (23), às 9h30min, apresentando falta de ar e queda de saturação de oxigênio no sangue pouco mais de 14 horas após o início das nebulizações (Foto: Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)

O paciente estava em leito clínico, seu quadro era considerado estável, sem necessidade de entubação ou UTI até aquele momento. De acordo com o jornal, o homem morreu na terça-feira (23), às 9h30min, apresentando falta de ar e queda de saturação de oxigênio no sangue pouco mais de 14 horas após o início das nebulizações.

Eliane Scherer não colocou Covid-19 no atestado de óbito

"No atestado de óbito, a doutora Eliane não colocou a covid-19 como causa. Citou outras, mas não a covid. Ter informado isso era obrigatório, até pelas restrições no velório e enterro, e já havia teste positivo. Orientamos a nossa equipe e a família a proceder com os critérios de óbito por covid", contou Maurício Costa Rodrigues, assessor jurídico do Hospital Nossa Senhora Aparecida ao jornal.

Outro paciente do tratamento experimental que faleceu fez a primeira inalação da hidroxicloroquina na sexta-feira (19), enquanto estava em leito clínico, embora seu quadro já fosse considerado grave, com entubação e ventilação mecânica, aguardando liberação de UTI. 

De acordo com o jornal, após o tratamento com a nebulização, o quadro do enfermo seguiu piorando e ele acabou internado na UTI. Após apresentar taquicardia, o homem morreu na madrugada desta quarta-feira (24).

Justiça emitiu liminar autorizando tratamento

O terceiro caso envolve uma mulher que fez uma nebulização de hidroxicloroquina com a médica no domingo (21). Ela também já estava em situação considerada mais grave, entubada, em ventilação mecânica e aguardando leito de UTI. 

Ainda no domingo, segundo o jornal, a Justiça emitiu uma decisão liminar autorizando a médica a fazer o tratamento experimental na paciente, desde que ela assumisse a assistência integral, e não apenas fizesse as nebulizações e deixasse o restante dos procedimentos com outros médicos.

ARCHIVO - Esta fotografía del lunes 6 de abril de 2020 muestra pastillas de la medicina hidroxicloroquina en Las Vegas. (AP Foto/John Locher, archivo)
ARCHIVO - Esta fotografía del lunes 6 de abril de 2020 muestra pastillas de la medicina hidroxicloroquina en Las Vegas. (AP Foto/John Locher, archivo)

Após ser comunicada pela direção do hospital do despacho, Scherer informou que não teria condições de assumir o paciente de forma integral, o que está registrado no processo judicial. 

Na segunda-feira (22), um dia após ter feito a sessão de nebulização, a paciente morreu. Ela também apresentou taquicardia antes do óbito, informou a direção-técnica do hospital.

Procedimento não tem aval dos protocolos de saúde

O procedimento não tem aval dos protocolos de saúde do hospital nem do fabricante do produto, o que coloca em risco a segurança dos pacientes. Segundo a assessoria jurídica do hospital, a médica “descumpria protocolos [de segurança] de forma contumaz”, o que provocou o pedido para que fosse desligada do corpo de profissionais que atende a instituição.

Nebulização de hidroxicloroquina defendidas por Bolsonaro

As nebulizações de hidroxicloroquina diluída ganharam repercussão na última sexta-feira (19), quando o presidente Bolsonaro pediu para participar ao vivo do programa de uma rádio de Camaquã para elogiar o tratamento experimental e defender a médica Eliane Scherer, que já estava desligada do hospital, embora seguisse atuando na ala privada da instituição.

“Os médicos têm o direito, ou o dever, no momento em que falta medicamento específico para aquilo, com comprovação científica, ele pode usar o que chama de off label, fora da bula. Mas no Brasil virou um tabu, praticamente é criminoso quem fala disso”, afirmou Bolsonaro na ocasião.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou nesta sexta-feira (16) estudo que confirma a ineficácia dos remédios remdesivir e cloroquina/hidroxicloroquina para o tratamento do novo coronavírus
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou nesta sexta-feira (16) estudo que confirma a ineficácia dos remédios remdesivir e cloroquina/hidroxicloroquina para o tratamento do novo coronavírus

“Sabemos que a vacina é um custo bilionário para o mundo todo. E parece que grupos interessados em investir apenas na vacina é que deixam de lado a questão do tratamento preventivo que existe e também o tratamento logo após a contração da doença”, disse.

A médica disse que não inventou a prescrição da hidroxicloroquina inalável e que a técnica consta da literatura médica. “É para o bem dos pacientes. Não ganho nada com isso, cada cápsula custa muito barato para o tratamento”, disse. Scherer é dona de um centro de ecografia em Camaquã.

Vereador fez nebulização e disse que 'salvou sua vida'

Durante entrevista na rádio, Bolsonaro ainda fez referências positivas ao caso de um vereador da cidade de Dom Feliciano que buscou atendimento em Camaquã após apresentar sintomas da Covid-19. 

Eliane havia feito nele a nebulização com hidroxicloroquina e, após a alta, tanto a médica quanto o parlamentar passaram a afirmar que o tratamento experimental havia salvo sua vida.

A equipe do hospital disse ao GHZ que a afirmação é insustentável, ressaltando que o caso dele era estável, sem necessidade de entubação ou internação em UTI. Além disso, informaram que o paciente havia feito outras medicações, como corticoides e antibióticos, e fisioterapia.