Trineto de dom Pedro II promete 'lutar contra' transformação do Museu Nacional em centro de memória da família imperial

Ludmilla de Lima
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A proposta que circula no governo Bolsonaro de transformar o Museu Nacional num centro turístico dedicado à família imperial foi repudiada por João de Orléans e Bragança, trineto de Dom Pedro II. Fotógrafo e empresário, ele é primo do deputado federal Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PSL), envolvido na articulação dessa ideia, que, de acordo com reportagem do jornal "Folha de São Paulo", era liderada por Ernesto Araújo, até ontem ministro das Relações Exteriores. Dom Joãozinho, como é conhecido, lembrou da dedicação de sua família ao museu, fundado por Dom João VI em 1818, ao chamar o plano encabeçado por entusiastas da monarquia de "totalmente fora do lugar".

Em 2022, a instituição científica mais antiga do Brasil - palco de um incêndio em setembro de 2018, que destruiu grande parte do seu acervo e também do edifício ‑ completará 130 anos no Palácio da Quinta da Boa Vista.

‑A minha família ao longo dos séculos se dedicou a aumentar esse acervo, que é também patrimônio do mundo, valorizando a nossa identidade. Dom Pedro I e Dom Pedro II se empenharam muito em manter essa instituição. Não tem nexo nenhum essa mudança de finalidade. Vou lutar contra - afirma Joãozinho.

Após revelado o plano de depejo, o fotógrafo enviou um e-mail ao diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, registrando seu "total repúdio" ao projeto e oferecendo apoio na recuperação e manutenção da instituição. Ontem, ele criticou os idealizadores desse centro voltado à memória da família imperial no palácio onde viveram Dom João VI, Dom Pedro I e Dom Pedro II, além das imperatrizes Leopoldina e Teresa Cristina, que "adoravam a ciência".

- Imagino que seja ideia de setores do Ministério das Relações Exteriores sem a mínima noção do que representa esse museu - acusa Joãozinho, lembrando de coleções e itens adquiridos por seus antepassados, como múmias, objetos de arte etrusca e o meteorito Bendegó. -Querem uma homenagem à minha família, mas o que devemos fazer é uma homenagem ao Brasil. Minha família sempre lutou pelo Brasil, pela nossa diversidade cultural, étnica, e geográfica. Esse que é o verdadeiro dever da nossa família.

Em entrevista à "Folha de São Paulo", o deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança defendeu a tese de que o edifício do museu perdeu suas referências históricas. “Ao invés de expor, de se tornar um ambiente público para valorizar a história brasileira —a nossa história nesse território— passou a valorizar um cometa, um meteorito, pedras de descobrimento arqueológico. Nada contra isso”, disse ao jornal, defendendo como "missão principal" do palácio “representar a história do Brasil”. Ele tinha Ernesto Araújo, que pediu ontem demissão do cargo de ministro das Relações Exteriores, como aliado nessa causa. O deputado foi procurado ontem pelo GLOBO, mas não atendeu as ligações.

As discussões sobre a mudança de finalidade do palácio do Museu Nacional - que pertence à UFRJ - envolveriam o Ministério da Educação (MEC), a quem a universidade está subordinada, e também o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em nota, ontem, o MEC disse que "desconhece qualquer tratativa no intuito de transformar o Museu Nacional da UFRJ em um palácio", concluindo que respeita a "autonomia didática, científica e administrativa prevista na Constituição Federal" da universidade. O Iphan em Brasília não respondeu os questionamentos do GLOBO. Já a superintendência do instituto no Rio classificou, via assessoria de imprensa, o plano de "especulação". O Iphan no estado tem à frente desde o ano passado Olav Schrader, ligado ao Movimento Brasil Real, pró-monarquia.

O diretor do Museu Nacional se disse surpreendido com a proposta, chamada de "notícia desagradável". A instituição hoje tenta se reerguer das cinzas. No momento, está em processo de licitação de restauro da fachada, aprovado pelo Iphan. Toda a reforma do palácio é orçada em R$ 380 milhões, sendo que há promessas de doação de 65% dos recursos. Entre os colaboradores, estão BNDES, Bradesco, Instituto Cultural Vale e Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Kellner diz não acreditar num recuo desses apoios, mas demonstra preocupação com o Iphan, responsável por dar o aval e fiscalizar todas as intervenções no edifício histórico e que, por isso, pode criar barreiras aos projetos em andamento.

- O Museu Nacional espera que o Iphan volte a ser parceiro da instituição como foi logo após a tragédia do incêndio - afirma o diretor, acrescentando que está aberto a conversas com monarquistas sobre o palácio. - Ninguém vai tirar o palácio do Museu Nacional. Seria uma violência para com o museu. O que a gente quer é ser um museu de história natural e antropologia sustentável e acessível, promover a valorização do patrimônio científico e cultural e, pelo olhar da ciência, convidar as pessoas a refletirem sobre o mundo que nos cerca.
Em nota divulgada no sábado, a UFRJ considerou como "invenções estapafúrdias e fantasiosas" a ideia de transformar o museu em palácio imperial. "A grosseira intenção presumida configuraria não só ato descabido, mas também tirânico contra a autonomia universitária, garantida pela Constituição Federal, contra a comunidade científica brasileira e internacional, contra a sociedade", diz a universidade no comunicado.

O Connselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ) postou nas redes nota criticando a tentativa. "Esperamos que a autonomia universitária e o projeto Museu Nacional Vive sejam respeitados". A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Academia Brasileira de Letras (ABL) também se manifestaram contra, numa nota de repúdio conjunta assinada pelos presidentes Luiz Davidovich (ABC) e Marco Lucchesi (ABL). "Urge restaurar o Museu Nacional , o maior museu de história natural e antropologia do Brasil, que desde a sua fundação tem contribuído para a promoção do progresso social e econômico do país através da difusão da educação, da cultura e da ciência".