Trinetos de d. Pedro 2º divergem sobre Bolsonaro e retorno da monarquia

FERNANDA CANOFRE
***ARQUIVO***BRASILIA, DF, 14.11.2019: O presidente Jair Bolsonaro participa de evento (Diálogo com o Conselho Empresarial do BRICS) com os presidentes dos países do BRICS, Cyril Ramaphosa (Africa do Sul), Narendra Modi (Primeiro Ministro da Índia), Vladmir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China) durante reunião de cúpula do grupo, no Palácio do Itamaraty. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Aos 78 anos, dom Bertrand de Orleans e Bragança viaja o Brasil, do Pará ao Rio Grande do Sul, em encontros com grupos pró-monarquia, participa de eventos que debatem da Amazônia ao aborto defendendo posições conservadoras e grava vídeos para seu canal no YouTube, criado em agosto, que conta com 16 mil inscritos.

D. João Henrique de Orleans e Bragança, 65, um de seus primos, fotógrafo e empresário, também faz palestras, mas é mais conhecido pelos jantares que promove em Paraty (RJ) em época de Flip, a festa literária realizada anualmente na cidade.

Os encontros reúnem artistas, escritores e jornalistas na casa perto do mar, construída por volta de 1850, o "sobrado do príncipe".

Passados 130 anos do 15 de novembro de 1889, quando o marechal Deodoro da Fonseca foi ao campo de Santana, no Rio de Janeiro, proclamar a República, os dois trinetos do último imperador do Brasil têm visões diferentes sobre a monarquia e o atual governo.

Enquanto d. Bertrand diz que sua família sempre foi monarquista e que soube desde cedo que República é utopia e nunca deu certo em lugar algum, d. João conta que aprendeu em casa que os dois sistemas funcionam bem e os países têm que se adaptar histórica e culturalmente a eles.

D. Joãozinho, como é conhecido, é neto do filho mais velho da princesa Isabel e do conde d'Eu, d. Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança. Em 1908, o avô abdicou da coroa que a família não tinha havia 19 anos para se casar com Elizabeth Dobrzenicz, quarta filha de um conde, sem título nobre para um príncipe.

A renúncia, cuja validade é objeto de discussão, colocou na linha de sucessão o segundo filho da princesa, d. Luiz, avô de d. Bertrand. Os descendentes dele lideram o movimento pró-monarquia hoje e as atividades da chamada Casa Imperial. D. Bertrand seria o segundo na linha de sucessão, atrás do irmão d. Luiz.

No final da década de 1980, enquanto o Brasil saía da ditadura militar e discutia a sexta Constituição desde o fim do Império, os irmãos trabalharam juntos para convencer os constituintes a derrubarem a República como cláusula pétrea, o que permitiria a organização de um movimento monárquico.

A mudança no texto possibilitou a convocação de um plebiscito, em 1993, no qual 43,8 milhões de brasileiros preferiram a república e 6,7 milhões escolheram a monarquia. O presidencialismo também venceu o parlamentarismo, por 55,6% a 25% entre os cerca de 66 milhões de votos.

"Não foi uma derrota, foi uma primeira vitória porque, antes do plebiscito, a perspectiva para retomar a monarquia no Brasil era vista como um sonho de uma noite de verão de alguns saudosistas", diz d. Bertrand.

Ele conta que "nunca o movimento monárquico foi tão vivo" como agora. Diz que, junto aos irmãos, se divide em agendas para conseguir atender a todos os convites de reuniões organizadas por monarquistas.

Ligado à TFP (Tradição, Família e Propriedade), associação católica conservadora, d. Bertrand tem feito uma cruzada contra a "psicose ambientalista".

Participou de reuniões críticas ao Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco no Vaticano, e denunciou a tentativa de "golpe socialista" que seria o objetivo do encontro católico. Esteve na Cpac, a conferência conservadora importada dos EUA realizada por bolsonaristas em São Paulo no mês passado.

No evento, lembrou que quando viajou à Europa nos anos 1990, as duas perguntas que mais ouvia eram sobre o genocídio indígena e sobre queimarmos o "pulmão do mundo", a Amazônia.

"Com relação ao genocídio dos índios, eu respondia: não houve genocídio dos índios. No Brasil, as classes, os povos foram se misturando. Nós tivemos miscigenação", afirmou. "Nós não temos problemas raciais. Graças à caridade cristã que inspirava nossos primeiros colonizadores."

Sobre os incêndios na floresta, disse que ela "nunca foi pulmão do mundo" e que há um recrudescimento contra a soberania brasileira na região porque "agora foi eleito um chefe de Estado que corajosamente foi na contramão da agenda socializante da seita vermelha".

D. Bertrand foi às ruas apoiar o impeachment da petista Dilma Rousseff. Segundo ele, porque o PT tinha "uma agenda de destruição do Brasil" e iria impor a "tirania vermelha" pelo socialismo.

Ele é tio do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP), alinhado a Jair Bolsonaro e vice-líder do PSL na Câmara dos Deputados --o pai dele renunciou ao direito de sucessão.

"Nós vemos o atual governo como a última reação contra o PT. Estão fazendo uma série de reformas que nós consideramos indispensáveis", afirma d. Bertrand.

O primo, d. Joãozinho, discorda. "O governo Bolsonaro tem sérios indícios de autoritarismo. Isso me preocupa muito, porque o que vai nos conduzir a qualquer melhora social, a mais educação, menos desigualdade é democracia. Não tem outra maneira."

Ele diz que o alinhamento à direita na família é de uma minoria, mas uma minoria que fala mais alto. Por isso tem se posicionado sobre a postura histórica dos Orleans e Bragança --sua bisavó, princesa Isabel, acolhia escravos fugidos e visitava o Quilombo das Camélias, no Leblon, lembra ele.

D. João é parte do ramo de Petrópolis, enquanto os primos são conhecidos como ramo de Vassouras. Os pró-monarquistas rejeitam a definição, dizem que é invenção da imprensa desde a época do plebiscito e que só existe um ramo, o dinástico.

Convidado pelo então governador do Rio Leonel Brizola para se filiar ao PDT, rejeitou alegando que sua família tem obrigatoriamente posição suprapartidária. O convite veio quando d. João doou um terreno para construir uma escola que hoje leva o nome de seu trisavô, d. Pedro 2º.

O último imperador ocupa uma das paredes do sobrado em Paraty, em um quadro onde posou vestindo um poncho, em Uruguaiana (RS).

D. João evoca o antepassado para dizer que é um democrata e que defende a Constituição acima de tudo. Se a lei não fala em monarquia, afirma, ela é que vale. À Folha de S.Paulo em 2008 se definiu como republicano. 

"Não existe antagonismo entre República e Monarquia, isso é mito", declara ele hoje. "As monarquias da Escandinávia são muito mais republicanas do que várias repúblicas do mundo. O que vale? As liberdades, as instituições, a preservação de direitos, cidadania."

Ele também diverge dos primos sobre a questão de direito à sucessão, não porque seu avô abdicou, mas porque diz que existe apenas uma tradição e sem estar na lei, ela não conta. "Eles seriam titulares se a Constituição assim definisse."

Na época do plebiscito, d. João esteve entre os descendentes da família imperial que fizeram um manifesto à nação defendendo que soberano é o povo brasileiro -o primo não assinou. Ele votou pelo parlamentarismo, "que dá mais eficiência e menos traumas", mas diz que hoje não acha que o país esteja preparado para o sistema. Teria que mudar aos poucos, começando pelo voto distrital.

Os dois primos concordam que o golpe que instaurou a República veio sem legitimidade e que o novo governo temia a popularidade de d. Pedro 2º, por isso o exílio imposto à família. Mas para por aí.

D. Bertrand defende a volta da Monarquia como retorno a tempos felizes e única solução. "Hoje não se encontra um brasileiro que diga de boca cheia que a República deu certo."

D. João, não. "A coisa pública não foi respeitada nesses 130 anos", diz ele. "Não deu certo, mas vamos fazer com que dê."