Tríplice Coroa do Cruzeiro e ano mágico de Alex completam 20 anos

Cris em ação pelo Cruzeiro pelo Brasileirão 2003, o primeiro por pontos corridos. Foto: REUTERS/Paulo Whitaker  PW
Cris em ação pelo Cruzeiro pelo Brasileirão 2003, o primeiro por pontos corridos. Foto: REUTERS/Paulo Whitaker PW

Cris sabe qual foi o momento em que um dos maiores times da história do Cruzeiro e do futebol brasileiro começou a ser formado. Foi ao sofrer uma goleada no ano anterior.

“Eu lembro que a gente levou um 4 a 1 do Santos no Brasileiro de 2002. E não vimos a cor da bola. O Vanderlei ficou muito irritado com o que aconteceu e disse que em 2003 tudo seria diferente. E foi mesmo”, recorda-se o zagueiro.

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Nascia ali o Cruzeiro campeão da tríplice coroa, uma campanha que completa 20 anos em 2023. Três títulos possíveis por causa da esperteza de Vanderlei Luxemburgo, do excesso de talentos da equipe e pelo futebol inesquecível de Alex. Foi a melhor temporada da sua carreira, quase 12 meses após ter sido ignorado por Luiz Felipe Scolari na lista de convocados para a Copa do Mundo de 2002.

A resposta dele foi comandar o Cruzeiro nas conquistas do campeonato mineiro, da Copa do Brasil e do Brasileiro. Desde o Santos de 1962 (vencedor do Paulista, Taça Brasil, Libertadores e Mundial) um clube não dominava tanto o futebol nacional.

“Depois de não ter sido convocado para a Copa, eu vivi uma fase mágica no Cruzeiro, joguei com raiva de tudo e de todos. Conquistei títulos, reencontrei minha paz até que dobrei a esquina de novo”, ele escreveu ao site The Players Tribune.

Alex comemora gol do Cruzeiro em 2003. Foto: REUTERS/Bruno Domingos
Alex comemora gol do Cruzeiro em 2003. Foto: REUTERS/Bruno Domingos

Foi uma percepção compartilhada por seus colegas de equipe.

“Alguém teria trabalho para me provar que o Alex não foi o melhor jogador do mundo em 2003. O que ele jogou naquele ano não existe. O Zidane foi escolhido pela Fifa mas acho que em 2003, o Alex jogou mais”, defende o zagueiro Edu Dracena.

O camisa 10 fez 39 gols pelo time mineiro na temporada, apesar de não atuar como atacante. Desse total, 23 foram anotados na primeira edição do torneio nacional em pontos corridos. Ele é o maior artilheiro da história do Cruzeiro em uma edição do campeonato. Alex, Deivid, Aristizábal e Mota fizeram 129 dos 179 gols marcados na temporada.

“Aquele time era uma máquina. A gente se conhecia tão bem em campo que em vários jogos entramos já com a certeza da vitória. Falaram que o Santos, campeão de 2002, era nosso maior adversário. Mas ganhamos deles na Vila e no Mineirão”, lembra Deivid.

Para enfraquecer o principal rival na briga pelo título nacional, Luxemburgo usou, além da alternância entre o 4-4-2 e o 3-5-2, a malandragem. Ele sabia que a maior deficiência do Santos era o comando de ataque. Sem um camisa 9 de verdade, dificilmente os paulistas alcançariam o Cruzeiro na liderança.

Foi por isso que o técnico entupiu seu elenco de centroavantes. Todos os nomes que a mídia colocava como possíveis contratações do Santos, o Cruzeiro se antecipava. Mesmo que não precisasse. Além de Deivid e Aristizábal, a diretoria mineira contrato Mota, Marcio Nobre e Alex Alves. O alvinegro disputou quase todo o Brasileiro com o volante Fabiano, genro de Luxemburgo, improvisado no ataque.

Luisão e Deivid comemoram gol do Cruzeiro na Copa do Brasil de 2003. Foto: REUTERS/Wasshington Alves  SM/GAC
Luisão e Deivid comemoram gol do Cruzeiro na Copa do Brasil de 2003. Foto: REUTERS/Wasshington Alves SM/GAC

Quando conseguiu reforços no mercado, foram os desconhecidos Val Baiano e Marcelo Peabiru. Eles não anotaram nenhuma vez pelo Brasileiro.

“Eu achei que ia para o Santos. Estava quase tudo certo. Mas meu empresário depois disse que o Cruzeiro tinha aparecido oferecendo bem mais e que o Vanderlei me queria no clube. Decidi ir para lá”, ressalta Alex Alves.

Os pontos corridos foram a especialidade do Cruzeiro em 2003. Mesmo estadual aconteceu nesta fórmula pouco usual para o Campeonato Mineiro, conquistado por uma rodada de antecipação.

“Fomos campeões invictos. Para dizer a verdade foi mais um treino do que qualquer outra coisa, Serviu para a gente ajeitar o time melhor e acertar detalhes”, definiu o lateral Maurinho, contratado após ser campeão brasileiro pelo Santos de 2002.

Na última rodada, na goleada por 4 a 0 sobre o Tupi, no Mineirão, Alex usou a camisa 14 em vez da 10. Era alusão ao fato de que o Cruzeiro conquistava pelo menos um título pelo 14º ano consecutivo.

Assim como o Mineiro, a Copa do Brasil também foi obtida de maneira invicta e a vítima final foi o Flamengo por 3 a 1, no Mineirão. O jogo que entrou por folclore pela estratégia de Luxemburgo para motivar o zagueiro Gladstone. Entregou-lhe uma fralda e uma camisa do Cruzeiro para ele decidir se seria homem em campo ou se continuaria ser um bebê. Na época, o defensor tinha 18 anos.

“Ninguém entendeu muito bem. Mas deu certo”, diverte-se Deivid.

Vinte anos depois, a campanha daquela equipe ainda marca a vida de quem esteve presente. Houve quem tenha atingido ali o ápice da carreira, como o lateral Leandro. Outros continuaram a vencer, mas nunca se esqueceram.

“Foi marcante. Uma equipe incrível que teve uma temporada mágica. Volta e meia as pessoas me lembram desse Cruzeiro e as lembranças são emocionantes, muito boas mesmo”, resume Edu Dracena.