Triste recorde: número de mortes cresceu 29,3% em Niterói em 2020

Leonardo Sodré
·3 minuto de leitura

NITERÓI — A perda de vidas para a Covid-19 deixou um vazio em muitas famílias de Niterói e elevou o patamar de mortes na cidade a índices jamais vistos. O número de óbitos registrados pelos cartórios do município em 2020 (7.173) foi 29,3% maior que o do ano anterior, superando muitas vezes a média histórica local de variação anual de mortes, que, até então, era de 1,97% .

Dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), que contabiliza os registros de óbitos em cartórios de todo o país, mostram que durante a pandemia o número de mortes causadas por doenças respiratórias em Niterói subiu 67,8%, saltando de 2.288 casos em 2019 para 3.841 no ano passado. Os registros relacionados a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) passaram de três para 35, e os de causas indeterminadas, de sete para 35.

Desde o início da série histórica das Estatísticas Vitais de óbitos do Registro Civil, em 1999, o número de mortes nunca apresentou índices tão altos em Niterói, cidade que acompanhou uma tendência nacional. No entanto, o aumento percentual de óbitos no município de 2019 para 2020 (29,3%) foi maior que o do estado (19%) e o do país (8,3%).

Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, o médico infectologista Alberto Chebabo diz que a pandemia teve impacto direto e indireto sobre o elevado número de mortes.

— Além de a maior parte dos casos que não foram declarados como tal serem de Covid-19, a taxa de mortalidade de outras doenças também cresceu por falta de atendimento a pessoas que tiveram cirurgias suspensas ou não conseguiram diagnóstico por medo de ir até o hospital — exemplifica. — No fim, não deixa de ser um impacto da pandemia, porque a pessoa não morreu de Covid, mas morreu devido à pandemia.

Os registros de óbitos apontam que, em Niterói, 143 pessoas morreram de causas respiratórias em casa no ano passado, número 20,1% maior que em 2019 (119). Destes, apenas 25 casos foram confirmados por médicos como decorrentes de Covid-19. O presidente da Arpen-RJ, Humberto Costa, conta que a maior parte dos registros de óbitos na cidade ocorreu no segundo semestre.

— No fim do ano passado, quando houve maior flexibilização das atividades, os óbitos dispararam. Não só por conta de casos de coronavírus, mas pelo quadro de superlotação do sistema de saúde — diz.

Impacto da flexibilização

Para a médica Lígia Bahia, professora da UFRJ , a flexibilização do isolamento social no segundo semestre do ano passado está mesmo relacionada à alta de mortes.

— Apesar de a cidade de Niterói ter adotado, antes, estratégias de isolamento, os maiores patamares no fim do ano mostram que essas medidas precisavam ter sido mantidas. É uma pena, porque Niterói poderia ter segurado mais, já que desde o início da pandemia não foi uma cidade negacionista. Mas, depois, acompanhou o movimento de maior flexibilização, o que impactou nesse número — avalia.

A prefeitura diz que desde a divulgação dos primeiros casos de Covid-19 na China, no fim de 2019, a cidade se preparou para enfrentar a pandemia, formando um grupo de trabalho para acompanhar a evolução da doença em janeiro de 2020. Em março, instituiu um gabinete de crise, integrado por várias secretarias. De lá para cá, implantou ações como o arrendamento do Hospital Municipal Oceânico para atendimento de pacientes com a doença, adotou medidas de isolamento social e tornou o uso de máscaras obrigatório, distribuindo dois milhões de unidades para famílias atendidas pelo Programa Médico de Família, que também receberam 80 mil kits de limpeza e higiene. Segundo a prefeitura, não estão sendo “poupados esforços em busca de imunização da população”.

Sobre os registros nos cartórios, a prefeitura diz que neles estão incluídos óbitos suspeitos e confirmados de Covid-19 de moradores de Niterói e de outros municípios que foram atendidos na cidade e que a Secretaria municipal de Saúde só contabiliza casos da doença entre os munícipes. Até a última quinta-feira, a prefeitura havia registrado 27.862 casos confirmados de contágio pelo novo coronavírus e 749 óbitos.

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)