No auge da pandemia, Brasil tem 314 mil mortos e uma pergunta: vem golpe por aí?

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Brazil's President Jair Bolsonaro tries to put his mask on during a ceremony to announce investments for the Aguas Brasileiras Program (program brazilian water) at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, March 22, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino     TPX IMAGES OF THE DAY
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Do autogolpe à entrega, pela governabilidade, de mãos e dedos ao centrão, cabe um pouco de tudo nas hipóteses, quase todas meramente especulativas, sobre o que queria afinal Jair Bolsonaro ao promover um saldão em seu ministério na segunda-feira 29.

Ao longo do dia, a única mensagem que fazia algum sentido nos grupos de jornalistas e analistas de WhatsApp era um áudio-meme do Galvão Bueno colhido ainda os 7 a 1: “ninguém sabe o que faz, ninguém sabe pra onde vai, ninguém sabe onde pula, ninguém sabe pra onde olha”.

A confusão da plateia e atores era explicável.

Com um presidente em guerra com a imprensa profissional, ninguém sequer cogitou a possibilidade de Bolsonaro chamar uma coletiva e vir a público esclarecer as razões para mudanças. O antigo porta-voz, general Otávio Rêgo Barros, já não está entre nós.

Tudo se agrava à medida que o governo, com seus novos e velhos ministros, dá corpo e rosto à confusão mental de seu comandante-em-chefe.

Daí a penca de possibilidades de ponta a ponta, em uma dança de cadeiras que mais parecia apresentação de quadrilha no pátio da escola. “Olha o golpe! É mentira”.

Das quedas, a única esperada era a do chanceler Ernesto Araújo, o cartão de visitas internacional que estava na berlinda desde que o grosso do empresariado, engessado pelo alargamento da fossa sanitária e econômica, começou a perceber que talvez, só talvez, não era uma boa ideia ter na ponta da negociação com países fabricantes de tecnologias e insumos, como a vacina, um representante que chamava o patógeno de “comunavírus”.

Caído Ernesto, a leitura mais óbvia e corrente era a de que Bolsonaro havia cedido à pressão. Como cedera com Eduardo Pazuello, Abraham Weintraub, Ricardo Vélez, Marcelo Álvaro Antônio e outros auxiliares mais conhecidos por patacoadas do que pela excelência técnica.

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Só que, logo depois, foi a vez de Fernando Azevedo e Silva, então ministro da Defesa, pegar o rumo da roça. A primeira notícia é que ele havia pedido para sair. Sinal de descontentamento com a abertura lenta, gradual e insegura do governo ao apetite do centrão.

Mas a nota do ministro demitido deixou um rastilho de dúvidas e pólvora no ar. Na curta mensagem, dizia ter cumprido a sua missão: conseguira preservar as Forças Armadas como instituições de Estado.

Foi a brecha para todo tipo de especulação a respeito de uma possível atualização, para a versão 2021, de um software golpista instalado em março de 1964.

Nos bastidores, já corria a notícia de que os chefes das Forças Armadas entregariam os cargos, num sinal que tanto poderia significar o rompimento do governo com o generalato quanto a cessão do lugar para militares menos altivos e mais alinhados aos planos bolsonaristas. Mas quais?

A barra forçada de aliados próximos do capitão em transformar um potencial terrorista na Bahia em herói e estimular a sublevação de militares aquartelados Brasil afora era não uma pulga, mas um rinoceronte atrás da orelha de quem observa a história sob a dinâmica cíclica das grandes farsas e tragédias.

Mais margem para especulações: Bolsonaro não estava satisfeito com a suposta neutralidade de seu chefe da Defesa na queda-de-braço entre golpistas e mantenedores da ordem democrática. E, nessa briga, o lado do presidente que prestigia atos com pedidos de intervenção e se refere às fileiras como “seu Exército” estava escancarado. Era como pedir ao auxiliar para tirar a farda do caminho que ele queria passar com o seu golpismo.

As hipóteses de rompimento pediam cautela. Tanto a Casa Civil quanto a Defesa seguiriam ocupadas por um generais, aparentemente mais leais ao capitão. Em curso está o agravamento da crise com gestores municipais e estaduais. No dia em que as trocas de ministros foram anunciadas, os jornais destacavam ameaças recebidas por ao menos dois governadores. Um deles, João Doria (PSDB-SP), vai morar no Palácio dos Bandeirantes por um tempo para evitar exposição.

Os sinais estão por todos os lados. O problema é que eles são contraditórios.

Já no fim do dia, vem a notícia de que a Secretaria de Governo da Presidência seria ocupada por uma deputada e profissional do ramo. A escolha de Flávia Arruda (PL-DF), mulher do lendário José Roberto Arruda, ex-governador preso e investigado por corrupção, foi logo interpretada como uma tentativa de amainar os ânimos do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que já ameaçava receitar remédios amargos contra o governo em queda de popularidade na condução da pandemia. Lira ganhou a cabeça de Araújo, como queriam também os senadores, uníssonos, e de brinde levou a articulação política. Estava bom para todos os lados?

A verdade é que ninguém sabe.

O governo que mostrava o muque no começo da tarde à noite esticava o braço ao centrão. Mas, ao menos até a semana passada o centrão queria mesmo era o Ministério da Saúde e agora não há sinais de saciação enquanto não ganhar a porteira fechada dos bois gordos da Esplanada. Não é o caso da Secretaria de Governo, embora esta faça a ponte com outras rubricas.

Menos de um ano após rifar Sergio Moro para supostamente interferir sem embaraço na Polícia Federal e proteger sua família e amigos, Bolsonaro aproveitou a troca de mostruário e tirou André Mendonça do Ministério da Justiça. Colocou em seu lugar o delegado Anderson Torres, logo citado como um quadro mais afinado ao bolsonarismo. Se é não se sabe, mas será difícil competir com a adulação canina do antecessor, que caçava e mandava caçar até quem ousasse associar o chefe supremo aos pequis roídos no interior do Tocantins. Como prêmio, o advogado extraoficial do presidente voltou à Advocacia Geral da União, um cargo mais adequado para os defensores da causa bolsonarista.

Numa das muitas hipóteses para tantas trocas e sinalizações contraditórias, arrisco uma. Bolsonaro, contrariado pela pressão sobre Araújo e sem respaldo do comando das Forças Armadas, engajadas em manter as instituições de Estado, e não de seu governo, recuou para atacar.

Na próxima, quando alguém falar em público sobre remédios amargos e seu chanceler, símbolo do extremismo bolsonarista, for desmoralizado em audiências no Senado, Bolsonaro talvez não queira encontrar uma barreira de contenção disuasiva com pontes nas Forças Armadas. Quer uma correia de transmissão direta para seus delírios persecutórios.

A aventada renúncia dos comandos militares pode sinalizar tanto um afastamento como a remoção dessa barreira e o caminho livre para coisa bem pior.

Só não há consenso, entre os espectadores, civis e militares, se por trás do saldão há estratégia ou apenas ecos de uma mente confusa e perturbada. Há quem veja no movimento os dedos de um estrategista. Há quem veja o tremor de um líder enfraquecido e emparedado.

Entre uma projeção e outra sobra apenas a materialidade de 314 mil compatriotas alvejados pela Covid-19 e um país em luto acima de todos.

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