Trump adota cautela sobre compra de armas russas pela Turquia

IGOR GIELOW
*ARQUIVO* WASHINGTON, EUA, 19.03.2019: O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no salão da Casa Branca, em Washington. (Foto: Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O presidente dos EUA, Donald Trump, evitou nesta terça (16) criticar diretamente a compra de sistemas antiaéreos russos S-400 pelo governo da Turquia, um aliado da Otan (aliança militar ocidental).

Em seu primeiro comentário público sobre a entrega das armas, que começou sexta (12), Trump disse: "Estamos trabalhando nisso, vamos ver o que acontece. Devido ao fato de que a Turquia comprou um míssil russo, nós não somos autorizados a vendê-los bilhões de dólares em aeronaves. Não é uma situação justa", afirmou a repórteres que cobrem a Casa Branca.

Mais cedo, em audiência no Senado, seu secretário interino de Defesa havia sido mais enfático. Mark Esper disse que a Turquia não poderia esperar ter caças F-35 norte-americanos e o S-400 ao mesmo tempo. Ele, que ainda espera sua aprovação pelo Congresso, é o secretário do Exército da gestão Trump.

Não sem motivo, o presidente exerceu mais cautela. Há considerações econômicas, já que a Turquia tem 280 aviões de combate para substituir nos próximos anos. Além disso, os EUA não querem alienar o segundo maior exército da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar liderada por Washington), embora a rota estabelecida seja de colisão.

Isso porque uma lei americana de 2017 determina a aplicação de sanções econômicas contra países que façam compras militares importantes da Rússia.

Os S-400, talvez os mais avançados sistemas antiaéreos de longa distância do mundo hoje, custaram cerca de US$ 2,5 bilhões (pouco menos de R$ 10 bilhões) aos turcos.

A preocupação citada por Esper diz respeito ao plano turco de comprar o mais sofisticado caça americano, o F-35. A entrega dos primeiros exemplares foi congelada pelos EUA na esteira da confirmação da compra dos sistemas russos, mas a situação é mais complexa: a Turquia é parceira de lançamento do avião, que tem partes de sua fuselagem e turbina feitas no país.

Tecnicamente, os militares americanos se preocupam com o fato de que o S-400 é um sistema desenhado, entre outras coisas, para derrubar aviões com tecnologia furtiva ao radar como o F-35 -os famosos "aviões invisíveis", que na realidade não são tão invisíveis assim.

O temor é ter F-35 turcos voando em espaço controlado pelo S-400. Assim, técnicos russos que darão apoio à manutenção e operação do sistema antiaéreo teriam, em tese, acesso a dados de performance do avião americano coletados pelos radares do armamento. Além disso, a Otan tem como pilar de sua ação a interoperabilidade de suas Forças Armadas, o que pressupõe que sistemas diversos "conversem" entre si pelo padrão da aliança.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, diz que não há risco para os F-35 e que os sistemas estarão todos instalados em abril de 2020.

Com capacidade de atingir alvos a até 400 km de distância, o S-400 é o melhor de sua categoria no mundo, diz relatório da consultoria americana Stratfor.

Ela ressalva, contudo, que um batalhão com oito lançadores (cada um com quatro tubos para mísseis) pode ser destruído em um ataque concentrado de mísseis se não estiver apoiado por outros sistemas antiaéreos.

Mas o nó principal é estratégico mesmo, já que Ancara está cada vez mais próximo da Moscou do presidente Vladimir Putin, que marcou um gol político contra seus adversários ocidentais ao emplacar a venda.

Os países forjaram uma aliança para lidar com a guerra civil síria, na qual Moscou interveio decisivamente em favor da ditadura de Bashar al-Assad em 2015. É um acerto frágil ainda, mas que tem se desenvolvido e começa a incomodar bastante os americanos.

Trump tenta ganhar tempo. No encontro do G20 em Osaka, no mês passado, ele comentou que a "culpa não é de Erdogan" no episódio, citando anos de protelação ocidental em fornecer baterias antiaéreas eficazes para o único membro islâmico e no Oriente Médio da Otan.

Na fala desta quinta (16), ele voltou a culpar a gestão do democrata Barack Obama (2009-2017) por ter falhado em vender sistemas Patriot, que não são comparáveis em poderio aos S-400, aos turcos.

O que ele não falou foi sobre sua negativa em extraditar o clérigo islâmico que Erdogan acusa de ter organizado uma tentativa de golpe contra si em 2016. Ou sobre a recusa sistemática da União Europeia de absorver um país muçulmano ao longo dos anos. Todos esses são motivos centrais para os turcos.

O presidente americano terá de fazer uma escolha difícil, como a relutância em sua fala indica. Sanções parecem inevitáveis, além do veto ao F-35 com cores turcas, mas isso significará atacar um aliado central dos EUA numa das regiões mais voláteis do mundo.

Analistas especulam até se Ancara poderia deixar a Otan, como a França fez durante anos no passado.

Putin, por sua vez, emprega o pragmatismo que lhe é típico, aproveitando mais uma falha diplomática americana no Oriente Médio.

Sua aliança com Erdogan, com quem divide o conceito de um regime de homem forte, é tática: ambos os países têm interesses es tratégicos diferentes sobre como influenciar o Oriente Médio e a Ásia Central. Por ora, é o que basta ao Kremlin.