Trump busca reforçar laços com base eleitoral ao lançar campanha à reeleição na Flórida

MARINA DIAS
**ARQUIVO** NOVA YORK, EUA, 26.09.2018: O presidente dos EUA, Donald Trump, na 73ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York (EUA). (Foto: William Volcov/Brazil Photo Press/Folhapress)

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Donald Trump fez um cálculo minucioso ao escolher a Flórida como destino para lançar sua campanha à reeleição. O presidente dos Estados Unidos vai a Orlando nesta terça-feira (18) reforçar os laços com sua base eleitoral e garantir que seu discurso -principalmente anti-imigração- motive mais uma vez os eleitores que votaram para elegê-lo na disputa de 2016. Quatro anos após ter descido as escadas rolantes da Trump Tower em Nova York para anunciar que concorreria à Casa Branca pela primeira vez, o republicano mostrará que o Salão Oval não o transformou em um líder mais moderado. Pelo contrário. Seu comportamento transgressor foi capaz de mudar a forma de conduzir a maior economia do mundo. Em comício ao lado da primeira-dama Melania Trump e do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, Trump deve insistir na narrativa que o fez vencer a democrata Hillary Clinton em 2016, com ataques à política tradicional, aos imigrantes e a acordos comerciais considerados por ele desvantajosos aos americanos.  A essa retórica, serão somados os bons números da economia dos EUA, que hoje mostram crescimento acima de 3% e índices de desemprego historicamente baixos no país. O objetivo é falar diretamente ao eleitorado trumpista: homens brancos, pobres e menos escolarizados.  Na Flórida -estado com 29 dos 538 votos do colégio eleitoral que escolhe o presidente-, o perfil do eleitor abarca também outro grupo-chave para o presidente: latinos, principalmente refugiados cubanos e venezuelanos, esses com mais dinheiro e críticos ao regime de Nicolás Maduro. Até outubro do próximo ano, Trump deve replicar o modelo de campanha que venceu as últimas três eleições presidenciais americanas: foco na conquista de eleitores não tradicionais, ou seja, aqueles que não sairiam de casa para votar no dia da eleição, já que o voto não é obrigatório nos EUA.  No caso do ex-presidente Barack Obama, em 2006 e 2010, por exemplo, esse nicho era formado por negros e jovens. A outra forma de tentar chegar à Casa Branca é o método mais antigo, que está sendo aplicado hoje pelo ex-vice-presidente dos EUA Joe Biden. O favorito no Partido Democrata entendeu que é preciso fazer concessões para vencer as primárias -são 23 nomes na corrida para ser o representante da oposição em 2020- e, depois disso, adotar moderação para ampliar o eleitorado nas eleições gerais.  Habitualmente centrista, Biden tem feito acenos à esquerda na tentativa de se consolidar como o nome do partido contra Trump. Em um paralelo ilustrativo, foi essa a estratégia do candidato do PT ao Planalto, Fernando Haddad, na eleição brasileira do ano passado.  Primeiro, o petista falou para a base social e sindical histórica da sigla, colando sua imagem à do ex-presidente Lula. No segundo turno, afastou-se do padrinho político e fez gestos em direção a empresários e investidores, mas acabou derrotado por Jair Bolsonaro. Trump classifica os democratas de socialistas radicais -devido à ala progressista em ascensão no partido. Analistas afirmam que o presidente vai precisar fazer acenos para além dos grupos que já o apoiam se quiser se reeleger. Apesar do cenário econômico favorável, que impulsiona a reeleição de quem está no cargo, Trump não lidera as pesquisas, e sua desaprovação vem crescendo em estados importantes nos quais ele venceu em 2016, como Pensilvânia, Michigan e Wisconsin. Enquanto tenta aproveitar a janela e avançar nos chamados estados-pêndulos, sem tradição democrata ou republicana, a oposição se divide quanto à possibilidade de abrir um processo de impeachment contra o presidente. Pré-candidatos à esquerda defendem a ideia, como Bernie Sanders, Kamala Harris e Elizabeth Warren, mas a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, e outros líderes democratas têm adotado cautela sobre o tema.  Baseado nas investigações da influência da Rússia nas últimas eleições presidenciais americanas, o impeachment, avaliam, poderia trazer desgaste eleitoral desnecessário para a oposição. A seu estilo, Trump já tem o prontuário sobre o assunto: quando os democratas o atacam, diz o presidente, está atacando o seu eleitor.  É a prova de que o reforço com sua base eleitoral vai ditar o caminho que precisa percorrer até outubro de 2020.