Trump diz que está tomando hidroxicloroquina há uma semana e meia

WASHINGTON   — O presidente dos EUA, Donald Trump afirmou nesta segunda-feira que "vem tomando uma pílula de hidroxicloroquina" diariamente, há uma semana e meia, mesmo sem sintomas da Covid-19 e contrariando as recomendações das autoridades sanitárias do país. A declaração foi feita a um grupo de repórteres na Casa Branca.

— Perguntei a um médico da Casa Branca o que ele pensava. Me perguntou se eu queria tomar, eu disse que sim. Muitos profissionais de saúde da linha de frente estão tomando hidroxicloroquina. Eu não usei porque, bem, as pessoas diria que eu sou dono da empresa [fabricante] — afirmou, dizendo não ter apresentado efeitos colaterais do medicamento. — Veja os médicos e enfermeiras. Muitos estão usando isso. De forma preventiva.

Trump declarou ainda que não foi exposto ao novo coronavírus, e que é testado a cada dois dias, "sempre com resultados negativos" para a infecção. Ele não revelou o nome do médico da Casa Branca que ofereceu o medicamento ou de onde recebeu informações sobre o uso da hidroxicloroquina por profissionais da saúde.

No início da pandemia, Donald Trump afirmava que a hidroxicloroquina era o medicamento mais promissor para enfrentar a doença, e passou a defender o seu uso, mesmo amparado em poucos e questionados estudos científicos sobre sua eficácias. Ao longo do tempo, novos estudos mostraram que a droga, usada para o tratamento de doenças como a malária e o lúpus, não trazia benefícios no tratamento da Covid-19.

Em março, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de medicamentos nos EUA, emitiu recomendação para que as pessoas não usassem a hidroxicloroquina e a cloroquina a por conta própria e fora do ambiente hospitalar, como reconheceu ter feito Donald Trump. Segundo a FDA, há relatos de doenças cardíacas relacionadas ao uso das substâncias.

A agência ainda fez um apelo aos profissionais de saúde para que levem em consideração os riscos envolvidos, e relembra que, até o momento não há provas concretas de que as drogas sejam efetivas para evitar ou combater a Covid-19. Também há fortes divergências dentro da força-tarefa do governo federal para a pandemia, especialmente na figura do epidemiologista Anthony Fauci, alvo constante dos ataques presidenciais. Um cientista que chefiava equipes em um órgão do governo que trabalhava em uma vacina foi demitido em abril justamente por se opor ao uso da hidroxicloroquina nos termos em que o presidente defendia. Rick Bright, diretor da Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico do Departamento de Saúde, foi realocado para um cargo inferior no Institutos Nacionais de Saúde.

A série de estudos mostrando não haver eficácia comprovada parecia ter demovido o presidente da ideia de promover a hidroxicloroquina e a cloroquina como drogas potencialmente salvadoras. Tanto que as menções aos seus nomes, frequentes em março e abril, praticamente sumiram dos discursos e entrevistas, mesmo por parte de seus apoiadores nos EUA. Ao mesmo tempo, o presidente Jair Bolsonaro, um aliado de Trump, seguiu defendendo o uso das substâncias, mesmo contra as recomendações de técnicos e de dois agora ex-ministros da saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.