Trump e republicanos atacam bancada ultraconservadora

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disparou na quinta-feira (30) mais um de seus tuítes para criticar o grupo ultraconservador republicano que inviabilizou a reforma do sistema de saúde, por entender que o projeto ainda era estatizante demais.

Nas palavras de Trump, a ala linha-dura da Câmara "vai ferir a agenda republicana", e se não ela "entrar logo no time teremos que lutar contra eles e os democratas em 2018" -uma referência às eleições parlamentares do ano que vem.

O chamado Caucus da Liberdade nasceu em janeiro de 2005 para defender na Câmara uma agenda ligada ao ideário de libertários e conservadores da extrema-direita que ecoa as posições do Tea Party. Na época eram 9 deputados, hoje são mais de 30.

Trump não está sozinho em sua ofensiva. Setores majoritários do establishment do partido e da opinião pública conservadora têm torpedeado o grupo por colocar princípios ideológicos radicais à frente dos princípios de realidade que o jogo político requer.

O "Wall Street Journal", por exemplo, manifestou-se diversas vezes -antes, durante e depois do recuo na votação do projeto para substituir a lei de saúde de Barack Obama. Em editoriais, acusou a ala ultra-conservadora de "insistir no impossível", desprezar ganhos incrementais e desperdiçar a chance de aprovar uma versão do chamado Obamacare mais próxima da visão do partido.

"Se o Caucus da Liberdade pensa que um projeto mais conservador emergirá se este falhar, ele tem mais ilusões do que a campanha de Hillary Clinton", escreveu o "WSJ" pouco antes da votação. Na opinião do jornal, a perspectiva anunciada por Trump de tentar negociar mudanças na lei com os democratas, por incerta que seja, pode fazer o projeto derrotado parecer um "paraíso do livre mercado".

Nesta sexta (31), foi a vez de Adam Kinzinger, deputado republicano do Estado de Illinois, entrar na briga com um artigo publicado no jornal "The New York Times". Kizinger faz um relato das negociações de última hora conduzidas pelos deputados do partido, com o próprio Trump, para tentar atrair os votos necessários.

Concessões foram feitas em pontos importantes, e quando tudo parecia encaminhado para a aprovação do projeto constatou-se que o Caucus da Liberdade não daria mais seu apoio.

O artigo compara a maioria do partido ao personagem Charlie Brown, à espera dos convidados que deveriam chegar para sua festa -enquanto o Caucus da Liberdade comportava-se como Lucy, a garota que sempre puxa a bola na hora em que Charlie vai chutar.

O movimento de Trump e do establishment conservador reflete uma característica da política americana, que é cada lado seguir suas convicções mas ceder em direção ao centro quando é preciso ser pragmático, atrair votos da oposição e contemplar o eleitor médio.

Essa tendência tem sido questionada pela emergência de alas extremistas, caso do Tea Party e também da esquerda democrata mais intransigente.

Nos seus primeiros meses de governo, a ideia de que Trump seria uma espécie de ditador -"um novo Hitler" como chegaram a dizer alguns- já esbarrou em decisões judiciais e em embates parlamentares. O sistema de freios e contrapesos, que muitos consideravam ameaçado, por ora está dando mostras de que continua a funcionar.