Trump GRITA e vira spam diante de Biden, mais eficiente na campanha por email

PAULO PASSOS
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pela etiqueta da internet, palavras escritas com letras maiúsculas representam falas em tom de voz alto ou gritos. O presidente dos EUA, Donald Trump, é famoso por usar o recurso nas redes sociais. Em outra plataforma, a de disparos de emails a eleitores, o comportamento do republicano não é diferente. "Vamos GANHAR essa disputa", "PRAZO FINAL: HOJE À NOITE" e, claro, "FAÇA A AMÉRICA GRANDE OUTRA VEZ" são apenas alguns exemplos de títulos de mensagens enviadas pelo candidato à reeleição. Emails são utilizados em larga escala por políticos nos EUA. Com uma base consolidada de apoiadores da eleição de quatro anos atrás, Trump saiu na frente em relação ao seu adversário, o democrata Joe Biden, no início dessa disputa. Mais de 15 milhões de pessoas assinaram o cadastro para receber emails da campanha do presidente, o dobro do registrado pela candidatura democrata. Em número de disparos, Trump também supera o rival. Mandou em média 17 mensagens por dia em outubro, ante 5,7 de Biden, de acordo com dados do Sendview, site especializado em dados de marketing digital. O envio de emails é um dos canais usados para impulsionar a arrecadação de campanha, assim como mensagens de SMS, anúncios na televisão e nas redes sociais, além da ação de voluntários na rua. As mensagens digitais, por computador ou telefone, são mais eficientes por facilitarem o processo. Com alguns cliques é possível doar rapidamente. Nesse cenário, a estratégia agressiva de Trump para convencer eleitores por email parece ter sido menos eficiente. Desde abril, 2,7 milhões de apoiadores fizeram contribuições à candidatura de Trump. Já o rival recebeu aportes de 4,9 milhões de pessoas e soma mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) arrecadado até o dia 25 de outubro. Já o republicano conseguiu US$ 734 milhões (R$ 4,1 bilhões). Os dados são do New York Times. Diferentes empresas de monitoramento de email comerciais apontam que as mensagens da campanha republicana caem com mais frequência na caixa de spam, destinada a mensagens indesejadas. Segundo a plataforma de análise de dados SparkPost, os emails de Biden acabam sendo mais abertos pelos destinatários. A diferença é de 40% a favor do democrata, de acordo com o analista John Landsman. Uma explicação para uma margem tão alta é que não são apenas as pessoas que autorizaram o envio dos emails que recebem os comunicados dos candidatos. Muitas campanhas compram listas com endereços eletrônicos para envio de mensagens --na maioria das vezes indesejadas para quem recebe. O uso desse tipo de prática foi regulado para fins comerciais nos EUA. A Federal Trade Commission, orgão de proteção dos consumidores, veta o envio de emails com ofertas a pessoas que não aprovaram o envio. No caso de propaganda política, porém, a regra não vale. A interpretação corrente é de que, se a norma fosse aplicada na eleição, haveria descumprimento da primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que garante liberdade de expressão. "Essa lei só se aplica a mensagens comerciais. As mensagens políticas não podem ser classificadas assim, mesmo as de pedido de doação. Não há uma proposta comercial nesse caso", afirma Hugh Brady, professor de direito constitucional da Universidade do Texas em Austin. A reportagem assinou o serviço para receber emails dos dois candidatos na última semana de campanha. Ao ler as mensagens dos adversários é fácil identificar características do perfil de cada um -- ou, melhor, da imagem que tentam passar para o eleitor. Biden aposta num tom sóbrio e informal. Dirige-se aos eleitores com "folks" (pessoal) e evita citações e ataques ao adversário. O candidato não é o único a assinar as mensagens enviadas. Há textos assinados por colaboradores da campanha e por figurões de seu partido, incluindo o ex-presidente Barack Obama e ex-rivais na disputa pela nomeação democrata para concorrer à Casa Branca, como Bernie Sanders e Elizabeth Warren, todos endossando o ex-vice e pedindo doações para ele. "Preciso ser honesto, as doações caíram" é o assunto de um dos emails do democrata em que pede ajuda financeira aos apoiadores. Em outro, quase se desculpa por mandar uma mensagem às 22h, no horário de Washington. "Se você for ler um email hoje à noite, espero que seja esse." Enquanto isso, a campanha de Trump apela para um tom mais agressivo já no título do email. "ALERTA ELEITORAL", "Joe Biden é um político corrupto", "China Joe" e "America, I love you". Nos textos, o republicano segue o tom que o levou à vitória na eleição de 2016, com ataques ao que define como política tradicional. "Eu não me pareço com um político típico de Washington, pois eu NÃO sou um político", escreve o presidente, que acusa o rival de ser lobista da China e um "exemplo de corrupção". Trump recorre menos a endossos de políticos. Sua campanha até envia emails assinados por outros republicanos, mas, além dele, quem mais subscreve textos são seu filho Donald Jr. e a nora Lara Trump. Com estilos distintos, os adversários se igualaram em um ponto na campanha digital. Ambos fizeram chegar a eleitores mensagens comentando debates que ainda nem haviam ocorrido. Em 29 de setembro, três horas antes de enfrentar Biden, Trump disse que tinha acabado de sair do debate e que "mostrou ao povo americano que SEMPRE irá lutar para colocar a América em primeiro lugar". Ainda em 2019, enquanto disputava as primárias democratas, Biden cometeu gafe semelhante. "Deixei vocês orgulhosos?", questionou em email. A mensagem chegou seis horas antes de o debate ocorrer.