Trump promete não intervir na campanha eleitoral britânica

Por Anna CUENCA
Donald Trump e Boris Johnson em 24 de setembro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu nesta terça-feira (3) se manter à margem da campanha eleitoral britânica, durante sua visita a Londres para uma cúpula da Otan, mas assegurou que vai encontrar Boris Johnson.

Donald Trump está em Londres para uma cúpula da Aliança Atlântica, organização que completa 70 anos. O evento incluirá reuniões dos 28 chefes de Estado e de governo no Palácio de Buckingham e em Downing Street.

O Partido Conservador de Johnson, que lidera as pesquisas para as eleições legislativas antecipadas de 12 de dezembro, tenta manter distância de um imprevisível Trump e de suas declarações, as quais podem servir de munição para a oposição.

Desta forma, na agenda da visita não consta encontro bilateral entre Trump e Johnson. Mas, ao ser perguntado por jornalistas, o americano garantiu que "sim, vou me encontrar com ele".

Pouco antes, o ministro britânico das Relações Exteriores, Dominic Raab, disse à rede BBC que "não acreditar" que Johnson fosse se reunir em separado com o presidente americano - um fato incomum, dado que esta é a primeira visita de Trump ao país desde que seu colega foi nomeado primeiro-ministro.

- "Não quero complicar" -

Durante sua viagem anterior ao Reino Unido, em junho, Trump criticou a estratégia para o Brexit da então primeira-ministra Theresa May e sugeriu o abandono das negociações do acordo de divórcio com Bruxelas.

Também atacou duramente o prefeito de Londres, o trabalhista Sadiq Khan.

Consciente de que agora seus comentários serão observados com atenção, Trump prometeu se comportar.

"Vou me manter à margem da eleição", afirmou em coletiva de imprensa em Londres, "porque esse é outro país e eu não quero complicar" as coisas.

Considerou, porém, que "Boris é muito capaz e fará um bom trabalho". Lembrou ainda que sempre foi um "fã do Brexit", a saída da UE que o primeiro-ministro espera concretizar em janeiro, se vencer as eleições.

O líder da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn, tenta há dias usar politicamente a visita de Trump contra Johnson, acusando-o de querer "vender" o serviço público de saúde britânico NHS às empresas americanas, no âmbito de um acordo de livre-comércio após o Brexit.

"A única coisa que Boris Johnson pode fazer para tranquilizar as milhares de pessoas que se manifestam hoje é interromper as negociações comerciais entre o Reino Unido e os Estados Unidos, até que Trump mude os alvos e exclua qualquer referência aos produtos farmacêuticos e dados dos pacientes", declarou nesta terça Jonathan Ashworth, responsável pelas questões de saúde no Partido Trabalhista.

Ele fez referência à manifestação convocada para esta tarde contra Trump com a participação de funcionários do NHS.

Com cartazes de "Salvem o NHS" e "Rejeitem Trump", centenas de pessoas protestaram em frente ao Palácio de Buckingham na chegada do presidente e de sua esposa Melania.

"Não acreditamos em Trump quando ele diz que o NHS não está sobre a mesa de negociação, porque é um mentiroso", disse à AFP uma das manifestantes, Sarah Boston, de 74 anos.

Entretanto, o presidente americano assegurou que não tem interesse na saúde britânica. "Não a queremos mesmo que nos seja oferecida numa bandeja de prata", garantiu.

E, surpreendentemente conciliador, negou-se a repetir suas críticas a Corbyn. Sobre as acusações de antissemitismo que pesam sobre o trabalhista, defensor de longa data da causa palestina, limitou-se a afirmar: "não sei nada sobre esse cavalheiro".

E se Corbyn se tornar primeiro-ministro?

"Posso trabalhar com qualquer um", disse.