Trump promete 'transição ordenada' após dia de caos, mas volta a fazer acusações falsas de fraude

O Globo
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WASHINGTON — Após um dos dias mais tensos da História dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump finalmente reconheceu que irá deixar a Casa Branca no dia 20 de janeiro, prometendo realizar uma transição de poder "ordenada" para o presidente eleito Joe Biden. O anúncio veio horas após o Congresso certificar a vitória de Biden, a última etapa antes da posse, e em meio a questionamentos bipartidários sobre a capacidade que Trump teria de completar os 13 dias de mandato que lhe restam.

“Por mais que eu discorde totalmente do resultado da eleição, e os fatos me corroborem, haverá uma transição de poder ordenada no dia 20 de janeiro”, disse em comunicado.

Apesar de reconhecer que Biden tomará posse, o presidente voltou a repetir as alegações falsas de fraude que, há meses, põem em xeque a lisura do sistema eleitoral, as normas democráticas e insufla seus eleitores.

“Eu sempre disse que continuaríamos a lutar para garantir que apenas votos legais fossem contados. Por mais que isso represente o fim do melhor primeiro mandato da História presidencial, é apenas o início da nossa luta para Fazer a América Grande Novamente", completou.

O comunicado do presidente, que se recusa a reconhecer sua derrota e coordena uma fracassada ofensiva para revertê-la, vem um dia após seus apoiadores invadirem o Capitólio, provocando a paralisação temporária da sessão do Congresso para contar os votos do Colégio Eleitoral que acabaram por oficializar a vitória de Biden nesta madrugada.

Segundo a polícia da capital, ao menos quatro pessoas morreram — uma mulher baleada e outras três, por emergências médicas não detalhadas — após extremistas destruírem destruírem móveis, equipamentos e obrigarem os congressistas a interromper suas atividades. Washington declarou toque de recolher até o dia 21 e reforçou seu policiamento.

Trump havia discursado antes da invasão ao Capitólio para seus apoiadores por mais de uma hora afirmando que “jamais” reconheceria a derrota e pressionando os parlamentares a ignorarem votos legais para lhe dar a vitória. Em um vídeo no meio da tarde, o presidente pediu que os extremistas fossem para a casa, mas disse que os amava e que eram muito especiais.

A gravação e uma série de tuítes feitos por Trump, que previamente havia ajudado a convocar para o ato e disse para seus aliados "agirem loucamente", lhe renderam bloqueios temporários no Twitter, no Facebook e no Instagram. Todos os quatro ex-presidente vivos — Jimmy Carter, Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama — condenaram a violência, chamando-a de "vergonhosa" e "tragédia".

Segundo diversos veículos da imprensa americana, integrantes do próprio governo questionam se Trump teria condições de continuar a governar depois do que foi visto ontem em Washington. Alguns integrantes de seu Gabinete, segundo fontes dentro do Partido Republicano, teriam realizado conversas preliminares para removê-lo do poder por meio da 25ª emenda.

Ratificada em 1967, a medida cria um mecanismo legal para a continuidade do poder quando um presidente morrer ou estiver incapacitado de governar. Seu artigo 4º, nunca utlizado até hoje, estabelece regras para quando o presidente estiver incapacitado de “ocupar os poderes e realizar as funções” de seu cargo.

Em uma nota conjunta, todos os democratas da Comissão de Justiça da Câmara fizeram um apelo para que o vice-presidente, Mike Pence, ative a cláusula, afirmando que Trump "não está mentalmente são e continua incapaz de processar e aceitar o resultado da eleição" para além de ter demonstrado repetidas vezes ser incapaz de proteger a democracia".

O jornal Washington Post, em seu editorial, também o fez, afirmando que "a cada segundo que ele mantém os vastos poderes da presidência, é uma ameaça para a ordem pública e para a segurança nacional".

Para que a 25 emenda fosse ativada, o vice-presidente e metade do Gabinete presidencial precisariam declarar que Trump está incapacitado de governar, removendo-o do poder. Neste caso, o presidente poderia a qualquer momento afirmar que está pronto para reassumir o cargo. Isto faria com que o Congresso votasse ou não sua continuidade, sendo necessário dois terços dos votos em ambas as casa para que fosse determinado incapaz.

Não está claro em que pé estão as conversas para que isto aconteça ou se Pence pretende endossá-las. Há ainda quem fale em um novo processo de impeachment, mas provavelmente não haverá tempo hábil para que os procedimentos avancem, já que Trump deixará o poder em 13 dias.

Pence foi um dos que rompeu com o presidente na reta final, mesmo após endossar e participar de outros avanços alarmantes às normas democraticas nos últimos quatro anos. Resistindo às pressões de Trump para que interviesse na certificação, o vice-presidente presidiu a sessão de modo protocolar e condenou veementemente a violência.

Das séries de objeções que republicanos pretendiam fazer à certificação em vários estados, apenas duas foram de fato realizadas: na Pensilvânia e no Arizona, ambas derrotadas.

Integrantes do governo também abandonaram o navio após os episódios de quarta-feira, como o vice-conselheiro de segurança Nacional, Matt Pottinger; a secretária social da Casa Branca, Anna Cristina Niceta; e a chefe de Gabinete da primeira dama e ex-diretora de comunicações, Stephanie Grisham.

Segundo a imprensa americana, o conselheiro de Segurança Nacional, Robert O'Brien, e o chefe de Gabinete adjunto, Chris Liddell, estão considerando renunciar de seus cargos. A secretária de Transportes, Elaine Chao, também estaria ponderando abandonar o governo. Ela é casada com o senador Mitch McConnell, líder republicano no Senado, que após anos endossando o presidente, foi direto ao falar sobre os eventos de quarta-feira:

— Eles tentaram perturbar nossa democracia — afirmou, referindo-se ao que classificou como uma "insurreição fracassada". — Eles falharam.