TSE enfrenta lentidão em apuração e problemas na emissão do e-título

CONSTANÇA REZENDE, LARISSA GARCIA E RENATO MACHADO
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O primeiro turno das eleições municipais de 2020 foi marcado por problemas registrados na ferramenta do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) lançada com o objetivo de facilitar a vida do eleitor, lentidão da divulgação da apuração dos resultados e ataques hackers a servidores da corte. Segundo o presidente do tribunal, Luís Roberto Barroso, houve uma falha em um dos núcleos no super computador que processa a totalização dos votos. O ministro garantiu que o episódio não afeta o resultado da votação. "Não há nenhum risco de o resultado não expressar o que foi votado", afirmou, em entrevista coletiva à imprensa, por volta de 21h de domingo (15), que começou com uma hora de atraso por causa dos problemas. "Houve um atraso na totalização dos resultados por força de um problema técnico que foi o seguinte: um dos núcleos de processadores do super computador que processa a totalização falhou e foi preciso repará-lo", disse o ministro. "Espero amanhã (esta segunda) dar a explicação técnica possível", completou. "O sistema é complexo, não deveria ter acontecido, eu lamento que tenha acontecido, mas também não teve nenhuma consequência grave", disse. É a primeira eleição municipal em que os dados saem direto das seções eleitorais para serem totalizados no TSE. Isso pode ter contribuído para a demora da apuração. Segundo Barroso, essa mudança no modelo de apuração foi realizada antes de ele assumir o comando do TSE, em maio. "De fato houve uma alteração e a totalização passou a ser centralizada no TSE. Essa não foi uma decisão minha. Eu tomei posse em maio e o sistema já havia sido alterado dessa forma", afirmou. "Eu preciso dizer que desde o primeiro momento eu não tive simpatia por essa opção, mas era a opção estabelecida e foi ela que eu segui. E muito possivelmente, por ser uma novidade, pode estar na origem da instabilidade que nós sofremos" , disse. De acordo com o tribunal, os dados foram remetidos normalmente pelos TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) e recepcionados pelo banco de totalização, que estaria somando o conteúdo de forma mais lenta que o previsto. Além disso, o e-título, aplicativo que substitui o título de eleitor, localiza as seções e permite justificar a ausência, apresentou instabilidade durante o domingo, e eleitores não conseguiram acesso. O tribunal também sofreu uma tentativa de ataque em sua rede que, segundo o presidente do TSE, foi totalmente neutralizada, com a ajuda de empresas de telefonia. Segundo o tribunal, esse episódio não tem relação com a atraso na divulgação dos resultados. Barroso disse que os ataques partiram do Brasil e de outros dois países, mas foram "totalmente inócuo". "O ataque de hoje foi totalmente inócuo. Sofrer ataques não é privilégio do site do TSE, isso vale para o Supremo [Tribunal Federal], Pentágono, Nasa. Ele veio de sucessivas tentativas do Brasil, Estados Unidos e Nova Zelândia. Foi um ataque distribuído", afirmou. "O fato de receber ataques não coloque em xeque coisa alguma", completou. O ministro afirmou que a divulgação de dados de servidores foi resultado de um outro ataque, que partiu de Portugal e foi realizado em 23 de outubro "Foram vazadas informações antigas e irrelevantes sobre ministros aposentados e antigos funcionários do TSE. Foi um vazamento sem nenhuma relevância ou consequência para o processo eleitoral", afirmou. "As urnas estão em rede, portanto não são vulneráveis a esse tipo de ataque. Não há nada sobre isso que possa interferir no processo eleitoral", completou. Barroso passou o dia dando explicações sobre os problemas enfrentados. Pela manhã, chegou a atribuir o problema do acesso do aplicativo a eleitores "que deixaram para baixar em cima da hora". "O brasileiro deixou para baixar o aplicativo hoje, então foram milhões de acessos ao mesmo tempo. Pedimos que todos fizessem o download antes, mas peço que insistam", afirmou o presidente do TSE em visita ao projeto Eleições do Futuro, em Valparaíso (GO). Já durante a tarde, Barroso disse que as medidas tomadas pelo órgão para prevenir a invasão da rede contribuíram para as dificuldades registradas. Barroso justificou que, por conta da invasão da rede do STJ (Superior Tribunal de Justiça) na semana passada, o TSE resolveu desligar um de seus dois servidores da rede. A medida, que era para reforçar a segurança do sistema do tribunal, acabou sobrecarregando o segundo servidor do órgão. Segundo o ministro, a origem da investida teria sido provavelmente de fora do país e "com um grande volume de tentativas", mas não entrou em maiores detalhes. "Obviamente, houve um subdimensionamento ou problema técnico, sobretudo causado pelo desligamento de um dos servidores, uma coisa que não queria que tivesse acontecido, mas ocorreu. Tivemos uma dificuldade e vamos consertar já para o segundo turno", disse. Barroso também acrescentou não ter atribuído a responsabilidade pela instabilidade do sistema aos eleitores e que estava em contato com a empresa que produziu o aplicativo e com o Google para resolver o problema. “Responsabilidade minha eu assumo. Portanto, o sistema tinha que estar preparado para receber todos ao mesmo tempo. Mas mencionamos que nas últimas 24 horas houve 3 milhões de downloads do aplicativo." O ministro concedeu uma entrevista coletiva na noite deste domingo (15), em um evento repleto de autoridades. Participaram, além do presidente do TSE, como o vice Edson Fachin, o ministro André Mendonça (Justiça e Segurança Pública), Fernando Azevedo (Defesa), o advogado-geral da União José Levi, o procurador-geral da República Augusto Aras, diretor-geral da Polícia Federal Rolando Alexandre de Souza, Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, Renata Gil. Antes de reforçar a segurança, o TSE relatou que sofreu um ataque aos dados pessoais de servidores, que chegaram a ser divulgados. A Polícia Federal informou que está investigando o caso e que já se sabe que os dados são antigos e que o acesso ocorreu em data anterior ao dia 23 de outubro. Os problemas registrados durante o dia alimentaram boatos sobre a segurança do processo eleitoral nas redes sociais. A diretora-adjunta da Rede Internacional de Checadores de Fato, Cristina Tardáguila, que contribuiu como observadora do sistema de checagem do TSE, mostrou preocupação com a falha do aplicativo do TSE na luta contra a desinformação. "O fato de o app não ter performado de forma adequada possivelmente alimentará as teorias da conspiração que pregam a insegurança do processo eleitoral como um todo. É fundamental que o e-título esteja redondo no segundo turno", disse. Em São Paulo, zonas eleitorais tiveram fila e reclamação por causa da mudança de seções de eleitores. Eles conferiram o número no aplicativo e-título e no site do TSE, mas quando chegavam no local, viram que a seção havia sido cancelada e encontraram dificuldade para descobrir o novo número. Um exemplo foi o colégio Santo Agostinho, na Aclimação, região central da capital paulista, que recebeu os eleitores que votavam na Escola Estadual Caetano Campos, na Consolação, tradicional ponto desativado neste ano. “Ninguém sabe para onde foi a seção e não tem aviso de que ela foi excluída. O mesário não tem informação, o aplicativo não atualizou”, reclamou a dentista Priscila Conti, 28, no Colégio Salesiano, em Santana, na zona norte. “Tem que trazer a caneta, mas aglomerar [na fila para procurar a seção] pode." A capital paulista tem cerca de 8,9 milhões de eleitores aptos a votar, o maior quantitativo do país. Neste ano houve mudança em 127 locais de votação no estado, sendo 20 na capital e 17 na região metropolitana.