Tsunami de dados sobre clima mal consegue varrer propaganda e fraudes

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SANTO ANTÔNIO DO PINHAL, PR (FOLHAPRESS) - No que respeita à percepção pública da crise climática, a comunicação enfrenta situação similar à que cerca a pandemia de Covid-19: o acúmulo de medições a confirmar o aquecimento parece insuficiente para desacreditar uma minoria de céticos com poder para causar muito dano.

Em todo começo de ano aparecem relatórios de instituições científicas e multilaterais dando conta de que a temperatura da atmosfera da Terra está muito acima da média histórica. As manchetes criam uma sensação de déjà-vu: 2021 foi o sexto ano mais quente já registrado desde 1880.

Dezenas de milhares de termômetros em estações meteorológicas, boias automatizadas no oceano e navios indicam que a atmosfera está 1,5°C acima da média do século 20. Se o parâmetro for 1880, quando se tornou confiável a amostragem planetária de temperatura, o incremento mensurado fica em 1,1°C.

Duas dúzias de satélites confirmam observações feitas na superfície. Supercomputadores da Nasa e da Noaa (agências americanas do espaço, dos oceanos e da atmosfera) calculam a contribuição de cada fator para o aquecimento -alterações de órbita, atividade solar, cinzas de vulcões etc.- e concluem: só a atividade humana explica a magnitude do fenômeno.

O ano passado empatou com 2018 na sexta posição. Os últimos oito anos figuram como os oito mais quentes. A concentração de CO2 (principal gás do efeito estufa) na atmosfera sobe sem parar desde a década de 1960. A simples repetição tira o caráter de novidade da informação, quando deveria suscitar alarme.

É o mesmo efeito das chuvas de verão no Sudeste brasileiro. Como voltam todos os anos para causar destruição, engendram a convicção de que se trata de ocorrências cíclicas, que recaem na margem de variabilidade natural do clima.

Trata-se de equívoco perigoso. O constante retorno de enchentes, deslizamentos, mortes, estiagens graves e incêndios florestais mascara, para o público, o fato de períodos chuvosos se tornarem mais chuvosos e os períodos secos, mais secos. Com mais energia agregada ao sistema atmosférico, acumulam-se os eventos extremos.

Demonstrações abstratas oferecidas pela melhor ciência, que confirmam as previsões da climatologia, demoram a se espelhar na experiência cotidiana das populações. Quando as estatísticas se tornarem robustas o suficiente para convencer o comum das pessoas, poderá ser tarde demais.

Contra a urgente conscientização da ameaça do clima trabalham ideologias da negação. A seu serviço se põe o oportunismo de pseudocientistas.

Como a tropa de Jair Bolsonaro no governo milita contra direitos indígenas e quilombolas, proprietários rurais viciados em terra barata, grilagem e pecuária expansionista se mostram predispostos a comprar no mesmo pacote o negacionismo diante da mudança climática (para não falar de vacinas).

Grandes fazendeiros pagam para assistir a palestras de um professor aposentado de meteorologia que nega os dados de satélites e computadores da Nasa. Seus argumentos fazem tanto sucesso quanto bandeiras do Brasil, na porteira das propriedades, e atentados de saúde pública do presidente e de seu séquito de charlatães, na medicina.

Talvez alguns dos sojicultores que estão perdendo sua safra na seca a assolar o Sul do país mudem de ideia, assim como alguns militantes antivacina podem se render diante da morte por Covid de um membro da família. Talvez.

Se e quando mudarem de ideia, entretanto, poderá ser inócuo. Contra o coronavírus há máscaras, distanciamento, vacinas e a possibilidade de adaptá-las para combater novas cepas, mas com a crise climática são outros 500.

Metade do CO2 emitido hoje na queima de combustíveis fósseis e florestas permanece mais de um século na atmosfera, bloqueando a dissipação de energia solar de volta ao espaço. A meia-vida do metano produzido na digestão de bovinos e em campos alagados de arroz é de mais de dez anos.

A convenção da ONU sobre mudança climática foi adotada na Rio-92. Desde então, emissões de carbono só aumentaram, embora seja imprescindível cortá-las pela metade nos próximos dez anos e eliminá-las até 2050 para cumprir a meta de conter o aquecimento em 1,5°C, como se decidiu há seis anos no Acordo de Paris.

O retrospecto de quase três décadas de negociações internacionais sobre a crise do clima faz temer pelo pior. E a resiliência de ideias negacionistas no Brasil comprova o fracasso das instituições, academia e imprensa à frente, em pautar o debate nacional com fatos e evidências.

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