Tudo o que você queria saber sobre a Covid-19, mas não tinha para quem perguntar

Vacinas protegem contra a infecção? O que acontece se eu pegar a Covid-19 várias vezes? É preciso retomar as medidas de restrição? Vamos ter que conviver para sempre com vírus? A RFI Brasil entrevistou o infectologista francês Pierre Tattevin, do hospital universitário de Rennes, na Bretanha, que respondeu a essas e outras questões.

Taíssa Stivanin, da RFI

Mais de dois anos após o início da epidemia de Covid-19, já está claro que o SARS-CoV-2 veio para ficar. Ainda há muitas questões em aberto em relação aos seus efeitos sobre a saúde a médio e longo prazo. Os cientistas também ainda não sabem como as infecções e a vacinação agem sobre a imunidade celular – aquela construída ao longo da vida, em função dos micróbios que cruzamos e de nossos perfis individuais.

Já há, entretanto, algumas certezas: o SARS-CoV-2 tem um alto potencial de mutação e seus anticorpos – pelo menos os da linhagem ômicron, desaparecem rapidamente. Com o tempo, o medo em relação à doença diminuiu para muitos, mas "viver com o vírus" tornou-se mais uma necessidade do que uma escolha. “As pessoas encontraram suas próprias soluções para conviver com o SARS-CoV-2”, diz o infectologista francês. “A Covid-19 deixou de ser prioridade para uma boa parte da população”, observa. Leia a entrevista abaixo.

RFI Brasil- Quais são as possíveis consequências de contrair várias vezes a Covid-19?

Pierre Tattevin- Vários estudos foram publicados sobre esse assunto. O que faz com que uma pessoa fique mais ou menos doente ao contrair a Covid-19 é a imunidade no momento da infecção, que é variável, mas influenciada pela vacinação e as ondas de contaminação, que protegem a população. As infecções ômicron, causadas pela variante BA5, que é dominante, são menos graves em relação às cepas anteriores.

Não podemos descartar, entretanto, a possibilidade de que infecções sucessivas possam ter consequências para a saúde. Não conhecemos a Covid-19 suficientemente bem para eliminar essa hipótese, mas a verdade é que não temos a impressão de que, para a maioria das pessoas, ter pego a Covid-19 trará um impacto a longo prazo. A Covid longa existe, claro, e pode ser um pesadelo, mas não representa a maioria. A maior parte das pessoas que contraem a doença não se lembrará mais algumas semanas depois e poderá retomar sua vida de antes.

RFI- A infecção natural protege por quanto tempo?

PT - A proteção gerada pela infecção ou pela vacina não desaparece do dia para a noite. Ela enfraquece aos poucos, e mais rápido do que a gente imaginava, mas não desaparece em uma semana ou um mês. Pouco a pouco, vamos perdendo a imunidade. Depende também do aparecimento de uma nova variante. Se você pega a BA5, mas aparece outra cepa, você estará bem protegido contra a BA5 durante cerca de dois meses, mas não contra essa nova variante.

Há três parâmetros que fazem com que não possamos responder a essa questão de maneira simples. Em primeiro lugar, os mais jovens e sem outras doenças têm uma boa imunidade e estarão protegidos por mais tempo. Em segundo lugar, a imunidade vai diminuindo aos poucos. É difícil afirmar em que momento a proteção diminui ou desaparece. Em terceiro lugar, estamos protegidos da variante que nos contaminou, mas como sabemos, outras aparecem ao longo do tempo. O recado é que não devemos deixar para lá todas as precauções só porque pegamos a Covid-19 há dois meses. É preciso mantê-las, em função do seu risco individual, e não se sentir totalmente protegido porque já pegou a doença três vezes ou há pouco tempo.

RFI - Quais são as precauções que devem ser mantidas?

PT- Do lado de fora, em geral o risco é baixo. Encontros em lugares fechados entre pessoas sem fatores que predispõem a formas graves também não representam um grande problema. Se, por exemplo, eu me colocasse no lugar de uma pessoa de 40 anos, com boa saúde, mas que trabalha com pessoas que têm fatores de riscos ou mora com alguém que está fazendo uma quimioterapia para tratar um câncer, eu usaria uma máscara (Ffp2) no escritório. Mas se eu moro e trabalho com pessoas jovens e saudáveis, não há razões para manter o uso da máscara.

RFI- Por que pegamos os vírus mesmo vacinados?

PT- A vacina evita que o vírus entre profundamente no organismo e provoque uma doença grave, mas não impede que o vírus entre pelo nariz e se “instale” nas fossas nasais. Além disso, todas vacinas foram fabricadas com a cepa de Wuhan, em 2020, e funcionam menos com a ômicron. Os imunizantes não protegem 100% e nem por muito tempo contra a Covid-19, mas o reforço é importante para as pessoas com mais de 60 anos ou fatores de risco. A vacina aumenta a taxa de anticorpos e impede as formas graves.

Para o resto da população, na França, é provável que a próxima vacina disponível seja a bivalente, que protege contra a ômicron. Essa é a hipótese mais provável. A vacina estará rapidamente disponível nos Estados Unidos e em outros países: é fácil fabricar os imunizantes à base de RNA. Acredito que a campanha de vacinação na França será retomada com vacinas mais adaptadas.

RFI- As vacinas nasais podem ser uma solução para o controle da epidemia?

PT - A vacinação local, no nariz, geraria, em teoria, uma imunidade diretamente onde o vírus entra no organismo, chamada de imunidade de mucosa. Seria um grande progresso. Primeiro porque seria fácil de administrar – já existem vacinas como essa contra a gripe. Além de evitar a injeção e a toda a logística envolvida, esse imunizante permitirá gerar anticorpos exatamente onde o vírus entra. Isso protegeria o paciente da infecção e as pessoas próximas da transmissão. Esta solução traz, sem dúvida muita esperança no desenvolvimento das vacinas, e acabará sendo criada. Mas, por hora, não há nenhuma vacina desse tipo realmente eficaz contra a Covid-19.

Outro ponto importante, que traz esperança, é que nos últimos dois anos a evolução da doença tem mostrado que o vírus tem se tornado mais contagioso e menos virulento. O fim da história pode ser esse: o vírus se tornará cada vez contagioso, como o do resfriado, mas as pessoas ficarão menos doentes. É uma hipótese plausível e, neste caso, não precisaremos mais nos preocupar com ele.

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