Tudo por uma onda: histórias dos surfistas que fazem a fama de Itacoatiara mundo afora

O dia ainda está escuro. Da Praia de Itacoatiara ouve-se o estrondo das ondas mais pesadas do Brasil quebrando sobre a areia. Alguns surfistas e bodyboarders estão alinhados, olhando para o mar. Ali, eles pensam que podem pegar uma das melhores ondas de suas vidas, ou serem espancados pela força da água até o limite dos pulmões. Eles também sabem que basta que um diga “Vamo”, ou mesmo comece a andar em direção à água, que o ímpeto de surfar um mar enorme vai vencer o medo.

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Muitos dias começam desse jeito para um grupo de pessoas que se destacam entre as milhares que frequentam a Praia de Itacoatiara. Eles são os locais: assim os praticantes do esporte chamam aqueles que surfam frequentemente no mesmo lugar. Entre eles há jovens que estão desafiando os limites do esporte, como Gabriel Sampaio, de 26 anos; e Kalani Lattanzi, de 28; há os veteranos, como Dudu Pedra, de 42 anos; Gutemberg Goulart, de 50; e Beg Rosemberg, também de 50; e ainda os ídolos, que chegaram à elite competitiva do esporte e se destacaram no Circuito Mundial de Surfe, o WCT, como Ricardo Tatuí, de 55 anos; e Guilherme Herdy, de 48. Além de Bruno Santos, de 39 anos, campeão do Billabong Pro Teahupoo, no Taiti, em 2008, sempre citado como local, mas atualmente morando na Indonésia.

No mundo do surfe, o localismo é muitas vezes associado à violência, às brigas entre surfistas que sempre frequentam uma praia para impedir que forasteiros disputem as ondas no mesmo ponto. Em Itacoatiara, o localismo se impõe pela coragem e habilidade dentro d’água. A fama também decorre da sobrevivência a alguma situação de risco extremo. Esses casos servem ainda para realçar a reputação de Itacoatiara no mundo como um lugar de ondas desafiadoras.

Uma dessas histórias, que levaram o nome da praia e de um de seus locais à mídia especializada do mundo todo, aconteceu com o veterano Beg Rosemberg na Laje do Shock. A laje é um conjunto da pedras no fundo da água que forma as ondas mais perigosas de Itacoatiara. Para pegá-las, o surfista tem que ser puxado para dentro delas por jet ski.

Em abril de 2021, Beg pilotava sua moto aquática para colocar um ex-aluno de surfe dentro da onda, mas um momento de hesitação quase foi fatal:

— Na hora em que fui botar o cara na onda, ele estava do lado errado do jet. Fiquei olhando para trás por alguns segundos e nisso já cheguei na bancada. Aí a onda me levou — conta Beg, que ficou alguns minutos sendo empurrado pelas ondas depois da queda e só conseguiu sair da espuma porque Gabriel Sampaio o resgatou em outro jet ski.

Outra história que é lembrada por vários locais ficou conhecida como o “perrengue do Dia das Mães”. Ela aconteceu no segundo domingo de maio de 2011 e seus personagens são Kalani Lattanzi, Dudu Pedra e um improvável helicóptero.

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— O Dia das Mães é muito falado porque tinha muita gente dentro d’água. O mar estava bem grande. O Kalani era bem novo. Eu, como um dos mais velhos no lugar, surfei por uma hora e meia e fiquei no mar esperando o pessoal sair. Do nada, ouvi um grito. Não conseguia ver porque tinha muita ondulação. Mas quando passou a onda, eu vi o Kalani sem prancha. Aí ofereci minha prancha para ele sair; a dele o mar levou. Mas ele falou que estava muito cansado. Eu tirei a camisa e fiquei rodando ela no ar para os salva-vidas verem da praia e chamarem o helicóptero — conta Dudu.

Depois do passeio inesperado de helicóptero, Kalani explicou aos colegas o que aconteceu:

— Dei mole. Desci numa onda e já perto da areia a correnteza me pegou e jogou para o fundo. Nadei contra, fiquei cansado.

A história ficou na memória dos locais não só pelo fato, mas por ter acontecido com Kalani. Ele, que é surfista, bodyboarder e bodysurfer — quem pratica surfe de peito — é constantemente descrito pelos outros como um extraterrestre.

— Kalani é de outro planeta. É a única explicação. O cara é muito forte fisicamente e psicologicamente. Em todo lugar do mundo o conhecem por ser o cara que eleva o nível das coisas. Ele surfou Nazaré (praia em Portugal conhecida por ter as maiores ondas já surfadas no mundo) de peito, num dia em que estava gigante. Ele entrou nadando pela praia ao lado, um barco viu, achou que ele estivesse em perigo e foi até ele para ajudar. Aí ele falou: “Não, não precisa, estou indo ali surfar de peito” — conta Gabriel Sampaio. — Ele também surfou de peito um tubo gigante em Jaws, no Havaí. O Kelly Slater (11 vezes campeão mundial de surfe e considerado o melhor de todos os tempos) falou que foi a coisa mais impressionante que já viu na vida.

Por sorte de Kalani, quem estava no mar por perto naquele Dia das Mães era Dudu Pedra. Bodyboarder, ele é conhecido entre os surfistas como o mais casca-grossa de todos. Quando há diversos surfistas no mar, é no posicionamento de Dudu que os outros prestam atenção para saber onde estão as melhores ondas. Ele conhece a praia como ninguém.

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Dudu é mais que local em Itacoatiara; ele se considera um nativo. Seu avô Felício Francisco foi um dos fundadores do bairro, na década de 1940, e participou do loteamento dos terrenos da região. Foi num deles que a família se estabeleceu e onde Dudu nasceu e foi criado. Quando se casou, construiu uma casa junto à dos pais, no mesmo lote, e lá vive. Hoje, não tem mar grande em que Dudu não esteja surfando. Ele e Gutemberg Goulart, outro veterano, são referências quando se fala em ondas gigantes no Brasil e no mundo. Gutemberg é descrito pelos colegas como um devoto do surfe.

— Ele é um dos caras que mais se entregaram para o esporte. Não importa se está frio, se o mar está ruim, se ele está preparado fisicamente ou não. Ele vai para a água. Ele não está nem aí se vai cair da onda ou se vai acertar a manobra; tem que estar dentro da água de qualquer jeito. Ele é o surfista de alma. Já teve bons resultados em campeonatos internacionais, mas sempre por amor ao esporte. Não estava na mídia nem tinha grandes patrocínios — conta Gabriel.

Nomes lendários

Mas não são só os acidentes que fazem a fama desses surfistas locais mundo afora. Em maio do ano passado, Gabriel surfou uma onda de cerca de sete metros na Laje do Shock. Segundo Alexei Wanick, de 49 anos, organizador do campeonato de ondas grandes Itacoatiara Big Wave, foi a maior onda já surfada no lugar: — O Gabriel hoje é reconhecido em Nazaré pelo que faz em Itacoatiara.

Antes de Gabriel, esse orgulho de levar o nome de Itacoatiara para o mundo foi vivido por três dos mais bem- sucedidos surfistas de competição da história do Brasil no esporte. Deles, Bruno Santos hoje mora na Indonésia, mas Ricardo Tatuí e Guilherme Herdy ainda vivem em Niterói e estão sempre no mar. Tatuí é citado pelos outros locais como o ídolo de infância. Ele competiu por três anos no WCT e foi campeão da etapa de Biarritz, na França, em 1994. Para isso, teve que vencer Kelly Slater, que havia conquistado seu primeiro título mundial em 1992, acabou repetindo o feito em 1994 e em mais nove temporadas. Já Herdy permaneceu por mais tempo no circuito mundial, entre 1995 e 2006.

— A gente ficou 11 anos torcendo pelo cara no topo do mundo. Isso marcou toda uma geração — afirma Rosemberg.