Tunísia tem dificuldade para enterrar migrantes mortos no Mediterrâneo

Por Kaouther LARBI
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Funcionários do governo tunisiano transportam o cadáver de um migrante, em 16 de julho de 2019 após um naufrágio, perto da cidade de Zarzis, no sudeste da Tunísia

Um odor fétido é sentido dezenas de metros em volta do necrotério do hospital de Gabes, no sul da Tunísia, a cuja costa chegam os cadáveres dos migrantes afogados no Mediterrâneo que se acumulam à espera de ser enterrados com dignidade.

Enquanto as operações de resgate foram dificultadas nos últimos meses no Mediterrâneo, uma série de naufrágios mortais ocorreram desde maio. O último causou mais de 80 mortes em 1 de julho.

Só os relatos de alguns sobreviventes, que com frequência partem da Líbia com a esperança de chegar à Europa, fazem com que seja possível conhecer as circunstâncias dos naufrágios.

Nas últimas semanas, mais de 80 corpos foram resgatados em águas tunisianas, entre a cidade portuária de Zarzis e a ilha turística de Djerba, no sul do país, a dezenas de quilômetros da fronteira com a Líbia.

Todos esses corpos foram enviados para o hospital de Gabes, o único da região capaz de extrair amostras de DNA.

Por "humanidade" e sob pressão da sociedade, as autoridades começaram a extrair de forma mais sistemática o DNA dos migrantes não identificados, indica à AFP o diretor do hospital, Hechmi Lakhrech.

Estas amostras representam a única esperança de que os familiares possam algum dia encontrá-los.

Em um pequeno necrotério refrigerado, os cadáveres estão no chão, enquanto os funcionários trabalham com o rosto protegido com uma máscara ou com um simples pano.

- "Sobrecarregado" -

Desde 6 de julho, o hospital recebeu 84 corpos, quando a "capacidade desta morgue é de no máximo 30 corpos", lamenta Lakhrech.

O serviço está "sobrecarregado" ante este fluxo súbito e a falta de coordenação, explica, quando outros necrotérios da região poderiam ter acolhido temporariamente os cadáveres.

A falta de equipamento e de pessoal - há apenas dois médicos legistas e dois assistentes - não contribui para que haja um bom atendimento, aponta. Os serviços públicos de saúde têm dificuldades para responder às expectativas dos tunisianos, especialmente no sul do país.

Após a análise médico-legal, os corpos só podem sair do necrotério quando tiver sido encontrado um local de enterro, uma tarefa complicada, explica o governador de Gabes, Mongi Thameur.

Representantes locais da sociedade civil rejeitam que esse migrantes sejam enterrados nos cemitérios municipais.

"Alguns temem que seus corpos tenham cólera, outros se negam a enterrar pessoas cuja religião é desconhecida em cemitérios muçulmanos", indica Thameur.

- "Problema fenomenal" -

Em frente ao hospital, debaixo de um sol forte, 14 sacos mortuários brancos cuidadosamente etiquetados são carregados em um caminhão que normalmente é utilizado para transportar escombros e lixo.

Os cadáveres regressarão finalmente a Zarzis, situada a mais de duas horas por estrada. Lá, um cemitério improvisado que recebia há anos migrantes afogados está agora cheio e um novo cemitério está em processo de construção.

Operários e funcionários municipais, que se ocupam desses enterros após seu expediente, vêm ajudar nesse dia.

Após três horas de preparativos, os 14 corpos são enterrados junto a outros 47 em um cemitério situado sob as janelas de um abrigo que recebe os migrantes sobreviventes.

E embora a construção do cemitério ainda não tenha terminado, um de cada cinco túmulos já está ocupado.

Em cada sepultura, uma simples placa indica o número que identifica o DNA e a data do enterro.

"Em 12 de julho, tiramos 45 corpos em um só dia! Este problema se torna um assunto fenomenal", alerta Faouzi Khenissi, vice-prefeito de Zarzis.

Ante as críticas da imprensa sobre a utilização de caminhões destinados ao lixo para transportar os cadáveres dos migrantes, o funcionário lança um chamado de ajuda. "Não temos os meios necessários para fazer melhor!", conclui.