Turbulência na pandemia: Bolsonaro comemora pausa em testes da CoronaVac e acirra polarização

Cristina Fibe
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Pablo Jacob / Agência O Globo
Pablo Jacob / Agência O Globo

RIO- A primeira declaração pública do presidente Jair Bolsonaro após o anúncio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na noite de anteontem, de que suspendeu os testes da vacina CoronaVac, uma das mais promissoras do mundo para o combate à Covid-19, foi em tom de comemoração: “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”.

A guerra do presidente não é contra a pandemia, mas contra um potencial adversário nas eleições de 2022: o governador de São Paulo, João Doria.

O tucano aposta todas as fichas na vacina de origem chinesa, desenvolvida pelo laboratório Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan. Já o governo federal fechou acordo de compra com a AstraZeneca, que investe nas pesquisas do imunizante de Universidade de Oxford. Ambas estão na fase três dos ensaios clínicos, o último estágio para comprovar (ou não) a eficácia e a segurança da vacina.

Finalizados os estudos, qualquer vacina precisará do aval da Anvisa, órgão federal, para chegar à população. Uma pausa como a ocorrida agora nos testes da CoronaVac não impede a sua aprovação, mas pode atrasá-la.

Na manhã de ontem, Bolsonaro celebrou a interrupção fazendo menção à morte do voluntário que motivou a Anvisa a interromper os ensaios clínicos. Horas depois, porém, se confirmaria que o óbito, por suicídio ou overdose, não teve nenhuma relação com a CoronaVac, e os estudos deverão ser retomados assim que a Anvisa der o seu aval.

“Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, escreveu, em uma rede social.

Mais tarde, o presidente retomou discurso feito desde a chegada da pandemia ao país, minimizando os riscos do novo coronavírus:

— Tudo agora é pandemia, tem que acabar com esse negócio. Lamento os mortos, lamento. Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer. Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas. Olha que prato cheio para a imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás — disse Bolsonaro, durante evento no Palácio do Planalto.

A Covid-19 matou, até ontem, 162.842 brasileiros, segundo dados das secretarias estaduais de Saúde, compilados pelo consórcio de veículos de imprensa. Mesmo em meio à falta de dados em ao menos três estados (MG, SP e RJ), o país registrou ontem 204 óbitos pela doença. Os infectados já passam de 5,7 milhões. O presidente chamou a pandemia de “superdimensionada”.

As declarações geraram incerteza sobre o andamento das vacinas e reações nos mundos político e científico.

STF quer explicação

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu um prazo de 48 horas para a Anvisa prestar informações sobre os critérios utilizados na análise dos estudos e experimentos da CoronaVac. Ele também mandou a Anvisa informar o estágio de aprovação dessa e das demais vacinas contra a doença sendo testadas no Brasil.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), escreveu em suas redes sociais que, “entre pólvora, maricas e o risco à hiperinflação, temos mais de 160 mil mortos no país, uma economia frágil e um estado às escuras. Em nome da Câmara dos Deputados, reafirmo o nosso compromisso com a vacina, a independência dos órgãos reguladores e com a responsabilidade fiscal”.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apresentou requerimento para que o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, e o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, prestem esclarecimentos na comissão especial que acompanha ações de combate ao novo coronavírus no país. Para Randolfe, a Anvisa pode ter sido instrumentalizada para cumprir “caprichos” de Bolsonaro.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, também se manifestou. Em suas redes sociais, afirmou que a politização da vacina não vai curar a doença: “É lamentável o que está acontecendo: politização da vacina que nos livrará do coronavírus. A decência e a saúde exigem prato limpo: dado o que disse o Butantan, que a Avisa se explique. E logo. Revela a motivação política. É o exterminador do futuro.”

Para a microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência e colunista de O GLOBO, o “estrago” causado pela fala de Bolsonaro é “difícil de mensurar”.

— Ele gera desinformação sobre vacinas como um todo. Com isso, a população fica desnorteada e pode começar a duvidar do processo cientifico por trás do desenvolvimento das vacinas.

O médico José David Urbaez, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que a interrupção dos ensaios clínicos faz parte do “roteiro de todo teste de vacina e medicamento, não tem nada de estranho ou conspiratório”. O modo como o episódio transcorreu, porém, é indício de uso político da situação:

— Isso gera o pior que você pode gerar para uma vacina, que é a desconfiança.

(Com Gustavo Maia, Gabriel Shinohara, Daniel Gullino, Bruno Alfano, André de Souza e Rafael Garcia, em Brasília e SP)