Turcos no Brasil buscam se blindar diante do risco de serem extraditados

FLÁVIA MANTOVANI
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO - SP - 08.05.2019 - Ali Sipahi deixa o prédio da Justiça Federal em São Paulo. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin decidiu soltar o turco naturalizado brasileiro Ali Sipahi, preso preventivamente no início de abril após pedido de extradição do governo de seu país . (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO - SP - 08.05.2019 - Ali Sipahi deixa o prédio da Justiça Federal em São Paulo. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin decidiu soltar o turco naturalizado brasileiro Ali Sipahi, preso preventivamente no início de abril após pedido de extradição do governo de seu país . (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No dia 30 de março deste ano, o turco naturalizado brasileiro Mustafa Goktepe, 41, embarcou para os Estados Unidos a trabalho, levando uma mala com roupas para os dez dias em que planejava ficar. Dois meses e meio depois, ele continua por lá, sem saber quando poderá voltar. Presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT) e dono de um restaurante em São Paulo, Goktepe desistiu de retornar no dia previsto, 9 de abril, após seu sócio, Ali Sipahi, ter sido preso após um pedido de extradição do governo turco contra ele. Sipahi foi solto pela Justiça após pouco mais de um mês e aguarda o julgamento em liberdade. Na quinta (13), advogados de Goktepe ingressaram com um pedido de habeas corpus preventivo no Supremo Tribunal Federal. A intenção é obter um salvo-conduto que garanta que, caso seja alvo de um processo semelhante, não seja preso preventivamente, antes do julgamento. Isso lhe permitiria voltar e rever a mulher, que é brasileira, e as filhas de 7 e 2 anos, que continuam em São Paulo. Sipahi e Goktepe são membros do Hizmet, movimento fundado pelo clérigo muçulmano Fethullah Gülen, desafeto do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Desde uma tentativa frustrada de golpe ocorrida em 2016, que Erdogan atribuiu a Gülen, o presidente vem empreendendo um expurgo dentro e fora do país contra integrantes do Hizmet, acusando-os de serem terroristas --embora não haja registros de atos desse tipo cometidos pelo movimento. Dirigentes do CCBT apuraram que a Turquia abriu ao menos dez processos de extradição contra turcos no Brasil --a comunidade tem cerca de 300 pessoas, entre adultos e crianças. Como essas ações correm em sigilo, não é possível saber se chegaram ao país ou em que estágio estão. "Se prenderam o Ali, que não tinha tanta visibilidade, imagine eu, que sempre dei entrevistas, escrevi artigos e promovi eventos", afirma Goktepe. "Tenho quase certeza de que existe processo no meu nome. Não posso correr o risco de ser preso quando voltar." Goktepe é descrito no jornal governista turco Sabah como "o imã brasileiro do Feto" --o governo de Erdogan só se refere ao Hizmet com essa abreviação, de "organização terrorista de Fetullah". "Mustafa está no Brasil há 16 anos. É casado, empresário, totalmente inserido na comunidade brasileira e nada teve que desabonasse sua conduta", afirma o advogado dele, Antonio Alberto do Vale Cerqueira. No pedido, Cerqueira dá exemplo de países europeus como França, Alemanha e Inglaterra, que vêm negando repetidamente pedidos de extradição da Turquia contra membros do Hizmet. "É fato notório na comunidade internacional que a Turquia tem sistematicamente violado direitos humanos e perseguido cidadãos no mundo todo que nada têm de criminosos", afirma. O habeas corpus preventivo é um instrumento para garantir antecipadamente o direito de ir e vir de uma pessoa que se sente ameaçada. Segundo o advogado, outros turcos no Brasil que se sentem ameaçados podem entrar com pedido semelhante. Em outra tentativa de proteger os imigrantes, o CCBT começou a enviar, nesta sexta-feira (14), emails para autoridades brasileiras no Executivo e no Legislativo. De acordo com Goktepe, desde a piora da ofensiva de Erdogan em 2016, mais de 25 famílias turcas deixaram o Brasil em direção à Europa e à América do Norte, com medo de serem alvo de pedidos de prisão e extradição. Após a prisão de Sipahi, ao menos sete famílias saíram, diz. Uma delas foi a de A. R., universitária de 23 anos que deixou o Brasil nesta semana junto com parentes. Por razões de segurança, ela pediu que sua identidade e o nome do país onde está não sejam publicados. "Foi a decisão mais difícil da minha vida. Não era o que a gente queria", diz. A família havia deixado a Turquia em 2016 após reiteradas visitas da polícia à casa onde viviam. "Estava bem adaptada ao Brasil. Deixei a faculdade no último ano, amigos que são como família para mim. Mas ficamos preocupados com o que poderia nos acontecer." Outro turco que vive em São Paulo e veio para o Brasil fugindo da perseguição é Yakup Sagar, 53. Porta-voz do Hizmet em sua cidade, ele deixou para trás seus negócios --tinha uma fábrica de camisas com 200 funcionários-- e abriu uma pequena loja de roupas no bairro do Brás, na região central da cidade. Quatro dias depois de sua partida, 84 empresários de sua cidade foram presos acusados de terrorismo, relata. " No mês passado, ele viu uma cópia de um pedido de extradição contra ele em uma reportagem de um jornalista turco exilado na Suécia. "Fiquei surpreso", diz. Segundo o documento, uma das evidências usadas contra ele é o fato de ter sido assinante do Zaman, jornal que chegou a ter quase 1 milhão de exemplares diários e que foi fechado por Erdogan devido a suas ligações com o Hizmet. Sagar defende o caráter pacífico do Hizmet. "É um movimento focado na educação. Não sou terrorista, nunca peguei em armas." Ele diz que não pretende sair do Brasil. "Não tenho condições, acabo de iniciar minha empresa. E também confio na Justiça brasileira", diz. O julgamento do pedido de extradição de Ali Sipahi está marcado para o próximo dia 25. A embaixada da Turquia fez uma petição para acompanhar a sessão. A Defensoria Pública da União, a organização de direitos humanos Conectas e o próprio CCBT também solicitaram fazer um acompanhamento. Em contatos anteriores com a reportagem, a embaixada da Turquia no Brasil enviou uma nota reafirmando que as evidências reunidas até agora apontam Güllen como mentor da tentativa de golpe de 2016. "O chamado movimento 'Hizmet' é, na verdade, um nome utilizado para disfarçar as atividades da organização criminosa e terrorista FETÖ. A FETÖ, cujo líder é Fetullah Gülen, é uma organização clandestina sem precedentes em termos de alcance global, ambições e métodos. A FETÖ é uma séria ameaça para a Turquia, assim como para outros países", diz o texto. Segundo o comunicado, o Hizmet "se disfarçou como um movimento de educação" para se infiltrar no governo e "gradualmente se transformou em uma estrutura operacional sigilosa com o objetivo de transformar a sociedade, assumindo o controle do Estado turco". "Fetullah Gülen é o líder de uma organização secreta, altamente hierárquica e antidemocrática (o chamado movimento Hizmet) que tentou o mais violento ataque terrorista da história turca na noite de 15 de julho de 2016", afirma o texto.