Pesquisadores criticam plano da Embratur de permitir cruzeiros e naufrágios em Noronha

Gustavo Schmitt e Guilherme Caetano

SÃO PAULO — Biólogos, oceanógrafos e pesquisadores reagiram contra o plano da Embratur de liberar Fernando de Noronha para rotas de cruzeiros marítimos e afundar navios para formar recifes artificiais e assim atrair mais turistas para mergulho nas praias do arquipélago. O grupo de ambientalistas, ligado à Universidade Ferderal de Pernambuco (UFPE), divulgou nesta terça-feira uma carta aberta à sociedade em que apontam riscos de graves prejuízos ao meio ambiente, caso essas medidas do governo sejam implementadas.

A iniciativa é liderada pelos pesquisadores do projeto conservação recifal da UFPE, que monitora os corais, e que acredita que os recifes artificiais atraem uma espécie invasora, o chamado coral-sol, considerado uma praga e um risco à biodiversidade. Na prática, a espécie se multiplica rapidamente e rouba alimento das demais, que acabam diminuindo até desaparecer. O documento na internet já tem o apoio de mais de 40 ambientalistas brasileiros de diversas universidades nacionais e estrangeiras.

Procurada, a Embratur ainda não se manifestou sobre a carta dos ambientalistas. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o presidente da Embratur, Gilson Machado, e o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), já haviam anunciado que a Marinha liberou 12 pontos para naufrágios artificiais em Noronha, além de terem "destravado" os cruzeiros para turistas no arquipélago. Gilson Machado costuma defender que, ao estimular a criação de abrigos de peixes, atrairá mergulhadores e turistas.

O plano do governo propõe o afundamento de 1,2 mil estruturas artificiais no litoral do Brasil, incluindo vagões, aeronaves, embarcações de diversos tamanhos, estátuas gigantes e até viaturas blindadas.

Biólogo e mestre em oceanografia, Pedro Henrique Pereira, afirma que o plano do governo vai na contramão do que estudos sobre o tema recomendam. Ele afirma que a preocupação aumenta em Fernando de Noronha, onde a biodiversidade é uma das mais preservadas do país.

— Essa ação facilita a introdução de espécies invasoras que causam inúmeros impactos às espécies nativas e aos ecossistemas naturais. Em Pernambuco, o coral-sol foi avistado nos naufrágios recentemente afundados, após os anos 2000, e vem se multiplicando em alta velocidade, de acordo com registros realizados este ano. Esses novos registros alertam para o enorme perigo da proliferação desse invasor para outros naufrágios e, consequentemente, para os recifes de corais da costa pernambucana e de Fenando de Noronha, além de outros locais da costa brasileira - afirma o coordenador do projeto conservação recital.

O biólogo chama atenção para o perigo de cruzeiros aportarem em Noronha. Ele lembra que o arquipélago tem biodiversidade preservada e não tem estrutura para suportar esse tipo de turismo, que classifica como "predatório".

— Noronha é um ambiente ecologicamente frágil, onde as espécies marinhas vivem em harmonia com a natureza. A chegada desses cruzeiros vai ameaçar completamente esse equilíbrio. Esses navios poluem muito com dejetos de alimentos, esgoto, plástico. Além disso, vai ter a presença humana que vai afugentar algumas espécies. A gente quer que essa discussão seja ampla e aberta com a sociedade e com os pesquisadores, para que sejam tomadas com subsídio científico e conhecimento, e não da cabeça dessas pessoas, de qualquer maneira — diz Pereira.

Gilson Machado é alinhado com Bolsonaro em suas propostas para o meio ambiente.

Essa não é a primeira polêmica em que o presidente da Embratur se envolve na área ambiental. Em agosto do ano passado, num evento de turismo em Miami, ele brincou sobre a atuação de agentes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a preocupação deles com as aves de Fernando de Noronha.

— Tava funcionando lá a (usina) eólica, até o dia que um passarinho inventou de bater na hélice e morrer. Foi então proibida a utilização de energia eólica em Noronha. Se a peste desse passarinho não consegue ver uma hélice, ele não deve nem se reproduzir, porque ele é burro — declarou a uma plateia aos risos.

A fala lhe rendeu um processo por danos morais e coletivos movido pela Associação de Servidores Ambientais (Ascema), que reúne funcionários do ICMBio, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Fundação Nacional do Índio (Funai).

Sanfoneiro, ex-apresentador de um programa de turismo numa rádio e dono de uma pousada na praia alagoana de São Miguel dos Milagres, Gilson Machado tem metas ousadas para o turismo brasileiro. Uma de suas propostas é dobrar o número de turistas no país, para 12 milhões por ano.

Já entrou em rota de colisão com o ICMBio, que é responsável por fiscalizar unidades de conservação do país. Em 2016, sua pousada foi multada por descumprir uma notificação que exigia a retirada de bangalôs e tendas na praia à noite. A exigência está prevista no Plano de Manejo do local e tem o objetivo de proteger a desova de tartarugas. Ele foi autuado em R$ 3,5 mil. O presidente da Embratur que recorre da infração, atribui o caso a um erro dos fiscais.

Machado fez, segundo duas fontes ouvidas pelo GLOBO, pressão sobre o ICMBio para que a região de sua pousada fosse beneficiada com o naufrágio de algum destes navios. Ele nega:

— Nego com veemência. Isso daí é boato. Os navios estavam com o casco deteriorado e não aguentariam a viagem de Tamandaré até São Miguel dos Milagres — responde.