Turquia e EUA prometem trabalhar juntos na Síria para superar crise

Por Francesco Fontemaggi y Raziye Akkoc
O secretário de Estado americano, Rex Tillerson (E), e o chanceler turco, Mevlut Cavusoglu, após a reunião em Ancara

Turquia e Estados Unidos concordaram nesta sexta-feira em trabalhar juntos na Síria, após semanas de tensão pelas últimas operações de Ancara além de suas fronteiras.

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, e o ministro turco das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu, afirmaram após uma reunião em Ancara que as partes estabeleceram grupos de trabalho para solucionar as questões que prejudicam as relações bilaterais.

Sem revelar muitos detalhes sobre como alcançar a meta, os dois indicaram que resolver a disputa ao redor da localidade de Manbij, norte da Síria, é uma prioridade.

"Não vamos continuar agindo cada um por sua conta, com os Estados Unidos fazendo uma coisa e a Turquia fazendo outra", disse Tillerson após o encontro.

"Trabalharemos juntos. Temos bons mecanismos sobre como podemos conseguir isso. Há muito trabalho a fazer", completou.

Cavusoglu disse que Turquia e Estados Unidos concordam sobre a necessidade de "voltar a normalizar" a relação e admitiu que os vínculos estavam em uma situação "quase crítica".

Uma das principais tarefas de Tillerson na viagem a Ancara é apaziguar a irritação da Turquia com a política dos Estados Unidos na Síria, uma questão que provocou a maior crise bilateral desde a guerra do Iraque, em 2003.

A Turquia iniciou em 20 de janeiro uma ofensiva militar no território de Afrin, norte da Síria, contra as Unidades de Proteção Popular (YPG), uma milícia curda que Ancara considera "terrorista", mas que para Washington é um aliado importante na luta contra o grupo Estado Islâmico (EI).

Os turcos ameaçavam ainda avançar em direção a Manbij, quase 100 km ao leste, onde tropas americanas estão posicionadas próximas às forças das YPG. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, chegou inclusive a aumentar a aposta ao pedir que os Estados Unidos abandonassem Manbij, o que elevou o temor de um confronto entre aliados.

Washington advertiu que a operação da Turquia contra as YPG na região de Afrin poderia significar uma distração para a luta contra os extremistas.

Para Ancara, as YPG são um braço do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), que tanto Estados Unidos como União Europeia também consideram "terrorista".

Tillerson pediu a Ancara "contenção em sua operação" e insistiu que Turquia e Estados Unidos "têm os mesmos objetivos na Síria".

- 'Prioridade' -

Para alguns analistas, o atual nível de tensão é similar ao de 2003, quando a Turquia se negou a permitir que as tropas americanas operassem a partir de seu território na guerra do Iraque, ou inclusive ao registrado após a invasão do Chipre pela Turquia, em 1974.

Tillerson destacou nesta sexta-feira que resolver as tensões entre Turquia e Estados Unidos ao redor de Manbij é uma "prioridade".

"Vamos priorizar Manbij em nossos esforços conjuntos", prometeu.

O grupo EI controlava a área de Manbij até que os extremistas foram expulsos pelas YPG. Tillerson considera fundamental que a localidade não retorne ao poder dos jihadistas.

Os dois países também expressaram oposição veemente a qualquer tentativa de "criar fatos consumados" ou "mudanças demográficas" na Síria, segundo um comunicado conjunto que destaca o compromisso com a integridade territorial da Síria.

As divergências sobre a Síria representam apenas um dos temas que prejudicam as relações entre Turquia e Estados Unidos.

Os vínculos foram abalados em um primeiro momento após a tentativa de golpe de Estado na Turquia em 2016, quando o governo dos Estados Unidos se negou a extraditar Fethullah Gülen, o pregador que mora na Pensilvânia acusado por Ancara de estar por trás do ocorrido.

Tillerson também pediu a libertação das pessoas que foram detidas na repressão após a tentativa de golpe e manifestou preocupação com o estado de emergência.