Turquia lança ofensiva contra milícia curda na Síria

Por Delil SOULEIMAN avec Luana Sarmini-Buonaccorsi à Akçakale
Fumaça domina a paisagem após bombardeios turcos à cidade síria de Ras al-Ain, controlada por curdos

A Turquia iniciou nesta quarta-feira (9) uma operação militar no nordeste da Síria, uma ofensiva que desperta o receio da comunidade internacional e que tem como alvos combatentes curdos considerados por Ancara um grupo terrorista.

Regiões próximas à Turquia, especialmente os setores de Tal Abyad e Ras al Ain, foram bombardeadas pela aviação e artilharia turca.

O Ministério da Defesa turco anunciou à noite que militares turcos e seus reforços sírios penetraram no país vizinho, marcando o início da fase terrestre da operação.

"As forças aéreas e a artilharia atingiram até agora 181 alvos pertencentes ao grupo terrorista", detalhou o ministério no Twitter por volta das 18h00 de Brasília.

As Forças Democráticas Sírias (FDS), uma aliança de combatentes curdos e árabes dominada pelas Unidades de Proteção Popular (YPG) curdas, afirmaram nesta quarta-feira que tinham "freado" a ofensiva curda, cujo objetivo é afastar as YPG da fronteira.

Ao menos 16 integrantes das FDS morreram nas primeiras horas da ofensiva, informou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), que acrescentou que "milhares de deslocados" fugiam de áreas bombardeadas.

A ofensiva provocou uma avalanche de críticas internacionais. O Conselho de Segurança da ONU se reunirá na quinta-feira em caráter de urgência.

A Liga Árabe também anunciou na noite desta quarta uma reunião de emergência para o sábado, 12 de outubro, a ser realizada no Cairo, para abordar a situação.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, considerou que a operação em Ancara era uma "má ideia" e disse esperar que seu contraparte turco, Recep Tayyip Erdogan, atue de forma "racional" e o "mais humana possível".

No entanto, foi a retirada das tropas americanas das regiões fronteiriças na Síria no começo da semana que abriu o caminho para a ofensiva contra as milícias das YPG.

Dois senadores norte-americanos, o republicano Lindsey Graham e seu colega democrata Chris Van Hollen, anunciaram a iniciativa de aplicar duras sanções à Turquia, caso o país não retire seu exército da Síria.

Este projeto imporia ao governo Trump congelar bens nos Estados Unidos dos principais dirigentes turcos, incluindo o presidente Erdogan, imporia sanções a qualquer entidade estrangeira que venda armas a Ancara e visaria também o setor energético turco.

O senador Graham, um peso-pesado dos republicanos e ligado a Trump, acusou o presidente de ter "abandonado vergonhosamente os curdos" e disse ser favorável a que "Erdogan pague muito caro".

Em Ras al Ain, um jornalista da AFP ouviu uma explosão forte e viu uma coluna de fumaça perto da fronteira, enquanto aviões estavam sobrevoando o setor. Também houve disparos de artilharia na cidade, forçando dezenas de civis a fugir em motocicletas, carros e a pé, levando seus pertences.

Segundo o jornalista, efetivos das FDS, equipados com lança-foguetes, foram posicionados na área.

- "Mobilização geral" -

A mídia turca reportou que oito projéteis lançados pelo YPG caíram nas cidades fronteiriças turcas de Akçakale e Nusaybin, sem relatar vítimas.

Essa ofensiva é a terceira que a Turquia realiza na Síria desde 2016. Ela abre uma nova frente neste conflito que já deixou mais de 370.000 mortos e milhões de deslocados desde 2011.

"As forças armadas turcas e o exército nacional sírio (rebeldes sírios apoiados por Ancara) começaram a operação 'Fonte de paz' no norte da Síria", anunciou Erdogan no Twitter.

A operação deve permitir a criação de uma "zona de segurança" destinada a separar a fronteira da Turquia das posições curdas e a acolher refugiados, disse.

O Ministério da Defesa turco disse que vítimas civis seriam evitadas.

A Turquia considera as YPG, aliados dos ocidentais em sua luta contra os jihadistas do Estado Islâmico, como um grupo "terrorista", devido a seus vínculos com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que está realizando uma guerra de guerrilha contra a Turquia.

Poucas horas antes do início da ofensiva, os curdos da Síria decretaram uma mobilização geral de três dias e pediram resistência dos moradores em relação à Turquia.

No texto, o povo curdo foi exortado a "avançar em direção à área de fronteira" para garantir "resistência" e os Estados Unidos e toda a comunidade internacional foram responsabilizados pela "catástrofe humanitária".

- "Ressurgimento do EI" -

A comunidade internacional condenou esta operação militar, que poderia dar lugar ao ressurgimento do Estado Islâmico (EI) na região e gera incertezas com relação à sorte de jihadistas presos controlados pelas YPG.

A França condenou "fortemente" a incursão turca. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, exigiu que Ancara abandonasse a ofensiva. A Alemanha afirmou que a operação poderá "causar o ressurgimento" do EI, e o Reino Unido expressou sua "grave preocupação".

Antes do início da ofensiva, o presidente russo Vladimir Putin pediu em vão ao seu colega turco que refletisse. O Egito julgou esse "ataque inaceitável" e Riad condenou essa "agressão" da Turquia na Síria.

Em Damasco, o governo sírio anunciou quarta-feira que frustrará qualquer ataque turco ao seu território "por todos os meios legítimos" e também denunciou o reforço militar na fronteira.