Turquia promete revelar toda a verdade sobre assassinato de jornalista no consulado saudita

Por Fulya OZERKAN con Rene SLAMA en Dubai
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Sherine Tadros, diretora do escritório em Nova York da Anistia Internacional, em uma entrevista coletiva na ONU em 18 de outubro de 2018, com uma foto ao fundo do jornalista saudita Jamal Khashoggi

A Turquia prometeu neste domingo revelar a "verdade nua e crua" sobre a morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado em 2 de outubro no consulado da Arábia Saudita em Istambul, depois que Riad admitiu o óbito.

"Estamos à procura de justiça aqui e isso será revelado em toda a sua verdade nua e crua, não através de alguns passos comuns, mas em toda a sua verdade nua e crua", disse o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que prometeu uma declaração sobre o tema na terça-feira.

O reino saudita admitiu no sábado que Khashoggi, colunista do jornal The Washington Post e crítico do regime de Riad, foi assassinado dentro do consulado. Durante duas semanas, o governo do país negou a morte e afirmou que o jornalista havia deixado o consulado.

Riad anunciou a demissão de cinco altos funcionários e a detenção de outros 18 como resultado de uma investigação preliminar.

Neste domingo, o ministro saudita das Relações Exteriores saudita, Adel al-Jubeir, afirmou ao canal americano Fox News que o governo não sabe onde está o corpo.

Al-Jubeir disse que os líderes sauditas acreditavam inicialmente que Khashoggi havia deixado o consulado em Istambul, onde foi visto pela última vez em 2 de outubro.

Mas depois dos "relatórios que recebíamos da Turquia", as autoridades sauditas começaram uma investigação que determinou que o jornalista foi assassinado na representação diplomática.

"Não sabemos, em termos de detalhes, como aconteceu. Não sabemos oide está o corpo", disse o chanceler.

A relação entre Washington e Riad "resistirá" a esta questão, disse o chefe da diplomacia saudita na entrevista à Fox News em Riad, antes completar que o príncipe Mohamed Bin Salman não havia sido informado sobre a operação, não autorizada pelo regime.

"As pessoas que fizeram isto, fizeram fora do alcance de sua autoridade. Obviamente, um grande erro foi cometido e o que agravou o erro foi a tentativa de acobertar", disse o diplomata.

"Isto é inaceitável em qualquer governo. Infelizmente, estas coisas acontecem. Queremos garantir que os responsáveis sejam punidos e queremos assegurar que temos procedimentos estabelecidos para evitar que vote acontecer", completou.

O homicídio tem muitos aspectos nebulosos e os ocidentais pediram mais explicações.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que "houve enganos e mentiras" por parte do governo saudita, mudando sua postura de dar o benefício da dúvida a Riad, embora tenha mencionado que o príncipe herdeiro poderia não estar a par.

"Há uma possibilidade de que (o príncipe Mohammed bin Salman) tenha descoberto mais tarde. Pode ser que algo no prédio tenha dado errado", disse Trump ao jornal Washington Post.

Grã-Bretanha, França e Alemanha afirmaram em um comunicado conjunto que existe "uma necessidade urgente de esclarecimento" sobre as circunstâncias da morte "inaceitável" do jornalista.

- A história segundo os sauditas -

As autoridades sauditas admitiram no sábado que Khashoggi morreu dentro do consulado, ao qual compareceu por questões burocráticas.

"As conversas que aconteceram entre ele e as pessoas que o receberam no consulado saudita em Istambul resultaram em um confronto e uma briga de socos com o cidadão Jamal Khashoggi, o que provocou sua morte", afirmou o procurador-geral saudita, Saud al-Mojeb, segundo a agência oficial SPA.

O ministério saudita da Informação afirmou que as pessoas que interrogaram Khashoggi, que tinha 59 anos, tentaram "ocultar o que aconteceu", sem entrar em detalhes.

De acordo com fontes turcas, Khashoggi foi torturado e assassinado brutalmente por agentes sauditas que viajaram com este objetivo de Riad.

E segundo vários jornais turcos, o corpo do jornalista, colaborador do Washington Post, teria sido esquartejado.

O vice-diretor do serviço de inteligência saudita, Ahmad al-Asiri, e um importante conselheiro da corte real, Saud al Qahtani, ambos colaboradores próximos do príncipe herdeiro, foram destituídos, anunciou Riad.

Para alguns analistas ocidentais, as destituições e detenções são uma forma de apontar bodes expiatórios e de manter afastado do caso o príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman, considerado o homem forte do reino e para quem Khashoggi era um "inimigo".

- Imprensa oficial elogia -

Os principais aliados de Riad na região - Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito, Jordânia, Omã e a Autoridade Palestina - elogiaram os anúncios sauditas.

A imprensa oficial do reino celebra neste domingo as decisões e medidas adotadas pelas autoridades sauditas. "A justiça continua", os responsáveis "prestarão contas", afirma o jornal Okaz. "O reino da justiça e da firmeza", destaca o Al Riyadh.

As organizações de defesa dos direitos humanos seguem mobilizadas. A Anistia Internacional (AI) afirmou que as conclusões sauditas não são dignas de confiança e pediu uma investigação independente. A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) pediu a continuidade da pressão sobre Riad.

Além da crise de credibilidade, o escândalo internacional provocado pela morte de Khashoggi alimentou especulações de que o príncipe herdeiro poderia ser afastado do poder por membros da família real irritados com seus "abusos".

Mas entre os decretos de sábado, seu pai, o rei Salman, anunciou a formação de uma comissão ministerial dirigida por Mohamed bin Salman para reorganizar os serviços de inteligência, mostrando assim a intenção de mantê-lo como herdeiro.

Para Michael Stephens, analusta do Royal United Services Institute, esta crise é um dos "momentos mais sísmicos no Oriente Médio desde a Primavera Árabe", em 2011.