Turquia quer firmar zona de segurança na Síria antes do fim da trégua

Por Raziye AKKOC con Delil SOULEIMAN a Tal Tamr
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Soldado da milícia curda síria das YPG, no alto de um tanque na cidade de Tal Tamr, em 20 de outubro de 2019

A Turquia anunciou, nesta segunda-feira (21), que implementará uma "zona de segurança" de 120 quilômetros de extensão no nordeste da Síria, enquanto as forças curdas terminam sua retirada, ao fim de uma trégua que expira amanhã, às 16h (em Brasília).

O presidente Recep Tayyip Erdogan insiste na criação de uma zona de 444 quilômetros de extensão no território sírio, mas a primeira fase deste projeto permitiria concretizar apenas cerca de 25% desta distância.

O plano inicial de Ancara se viu obstaculizado pela intervenção do Exército sírio, mobilizado para ajudar as forças curdas, em alguns setores que devem ser cobertos pela "zona de segurança".

Fontes militares turcas indicaram que a implementação de uma zona limitada a 120 quilômetros, "em um primeiro momento", começará na terça à noite, se terminar a retirada da milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG), em virtude de uma trégua negociada na semana passada por Turquia e Estados Unidos.

A ofensiva de Ancara contra as YPG começou em 9 de outubro, no nordeste da Síria. Encontra-se em suspenso desde quinta-feira, em virtude da trégua. Os dois países haviam declarado que este cessar-fogo duraria "120 horas".

Depois de vacilar nos dois primeiros dias, agora a trégua parece se manter, apesar de alguns incidentes esporádicos.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos afirmou que quatro combatentes das forças curdas morreram nesta segunda, em um ataque contra seu veículo, perto da cidade de Ain Isa, ao sul de Tal Abyad.

Segundo um correspondente da AFP em Ras al-Ain, aviões de reconhecimento turcos sobrevoavam hoje a cidade. Nesta localidade, os aliados sírios de Ancara, reagrupados no Exército Sírio Livre, tentam reforçar o efetivo.

"Vocês acreditam nisso? Todo o Ocidente se pôs ao lado dos terroristas e nos atacam todos juntos. Entre eles, os países da Otan e os países da União Europeia. Todos", reclamou Erdogan, em um discurso em Istambul, nesta segunda.

- Bases militares -

Esta trégua começou na quinta-feira, às 22h (hora turca), e terminará na terça-feira, às 22h, disseram fontes militares turcas. "Quando se completarem as 120 horas, se restarem terroristas, vamos neutralizá-los", acrescentaram as mesmas fontes.

"Se a retirada se completar, a operação militar vai terminar", disse hoje o ministro turco da Defesa, Hulusi Akar.

Inicialmente, a "zona de segurança" se estenderá entre a cidade de Tal Abyad, tomada pelas forças turcas no começo da ofensiva, e a de Ras al-Ain, da qual os últimos combatentes se retiraram no domingo.

Para ampliá-la, a Turquia deverá obter um acordo com a Rússia, aliada do governo Bashar al-Assad. As forças de Damasco foram enviadas para vários setores no nordeste da Síria, após o lançamento da ofensiva.

Nesta "zona de segurança", a Turquia pretende instalar refugiados sírios que vivem em seu território. Hoje, o ministro turco da Defesa informou que pelo menos "dois milhões de refugiados" serão realocados.

A questão deverá ser tratada na conversa que Erdogan terá na terça, em Sochi, com o presidente russo, Vladimir Putin, cujas tropas no terreno lutam para impedir qualquer confronto entre turcos e sírios.

"Vamos discutir a situação na Síria e, se Deus quiser, tomaremos as medidas necessárias", declarou Erdogan.

O presidente francês, Emmanuel Macron, conversou por telefone nesta segunda com Putin e reiterou "a importância de que se prolongue o cessar-fogo" e de uma solução "diplomática" para a crise.

O Irã, outro aliado-chave do regime de Damasco, tachou de inaceitável qualquer iniciativa da Turquia para estabelecer bases militares na Síria.

Na sexta, Erdogan havia afirmado que serão estabelecidos 12 postos de observação na futura "zona de segurança".

- Incidentes esporádicos -

Depois de ter cambaleado nos dois primeiros dias, a trégua parece se manter, apesar de alguns incidentes esporádicos.

Segundo um correspondente da AFP em Ras al Ain, aviões de reconhecimento turcos sobrevoavam nesta segunda-feira a cidade, onde aliados sírios de Ancara, reagrupados no Exército Sírio Livre (ESL), tentam fazer chegar reforços.

A ofensiva tensionou as relações entre a Turquia e Ocidente, que destaca o papel crucial que as YPG desempenham na luta contra o EI.

"Podem acreditar nisso? Todo o Ocidente ficou do lado dos terroristas e nos atacam juntos. Entre eles, os países da Otan e os países da União Europeia. Todos", declarou Erdogan em um discurso em Istambul.

A Turquia também pretende instalar na "zona de segurança" 3,6 milhões de refugiados sírios que vivem em seu território.

O ministro da Defesa da Turquia afirmou nesta segunda-feira que Ancara contemplava realojar "dois milhões de refugiados".

A ofensiva turca foi lançada depois que soldados americanos se retiraram de setores fronteiriços em 7 de outubro. No dia 13, os Estados Unidos anunciaram a retirada de 1.000 militares deslocados no norte e no leste da Síria.

Nesta segunda, Donald Trump disse que um pequeno número de soldados americanos permanecem na Síria, em "uma parte totalmente diferente" do nordeste do país, que a maioria dos soldados abandonou, conforme o previsto.

Segundo o OSDH, morreram 114 civis e 300.000 foram deslocados por esta operação. Os combates e os bombardeios mataram 256 membros das FDS e 196 combatentes pró-turcos.