Twitter apaga publicação de ministro de Bolsonaro com vídeo de paciente nebulizado com cloroquina

Redação Notícias
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Jair Bolsonaro's chief of staff Onyx Lorenzoni cries as he is moved by the words of Gustavo Montezano, the newly-named president of Brazil's Development Bank, during Montezano swearing-in ceremony of at the Planalto presidential palace, in Brasilia, Brazil, Tuesday, July 16, 2019. (AP Photo/Eraldo Peres)
Na postagem, o ministro do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) divulgou um vídeo de uma mulher recebendo nebulização de hidroxicloroquina como tratamento para Covid-19 em Manaus, no Amazonas (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)
  • O Twitter excluiu uma publicação do ministro da Secretaria-geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, por violar regras da rede social

  • Na postagem, o ministro divulgou um vídeo de uma mulher recebendo nebulização de hidroxicloroquina como tratamento para Covid-19; ela morreu 18 dias antes da publicação

  • Até o último domingo, antes de ser deletado, o vídeo tinha sido visualizado mais de 130 mil vezes

O Twitter excluiu, nesta quarta-feira (14), uma publicação do ministro da Secretaria-geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, por violar regras da rede social. 

Na postagem, o ministro do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) divulgou um vídeo de uma mulher recebendo nebulização de hidroxicloroquina como tratamento para Covid-19 em Manaus, no Amazonas.

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A mulher que aparece nas imagens é Jucicleia de Sousa Lira, de 33 anos, morta há 18 dias antes da publicação.

Jucicleia recebeu o tratamento que não tem comprovação científica em casos de coronavírus e também não é indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O vídeo foi gravado pela médica Michelle Chechter, que está afastada do cargo e também é alvo de investigação da Polícia, e compartilhado em 20 de março pelo ministro. 

“Decisão da médica em conjunto com a paciente: de 0 a 10 melhorou 8”, afirmava Lorenzoni na publicação. Até o último domingo, antes de ser deletado, o vídeo tinha sido visualizado 132,5 mil vezes.

Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, Jucicleia só piorou depois de receber a nebulização. Até que no início de março, a técnica em radiologia faleceu 27 dias após o nascimento do primeiro filho — o hospital informou à família que a causa foi infecção generalizada em decorrência da Covid-19.

Quem é a responsável pelo tratamento

A ginecologista e obstetra paulistana Michelle Chechter foi a responsável pela nebulização da hidroxicloroquina. Ela atuou na capital amazonense com o marido, o também médico Gustavo Maximiliano Dutra. A paulistana foi a autora das imagens da sessão da paciente recebendo o tratamento.

O viúvo garante não ter sido avisado, durante as conversas no hospital com a doutora Chechter, sobre a nebulização ou o vídeo.

Ele só descobriu que a esposa havia assinado uma autorização ao ser informado pela Folha, em 8 de abril. São três parágrafos curtos com quatro erros gramaticais e de grafia. No documento, a paciente dá aval ao tratamento e autoriza o uso do depoimento gravado na UTI, além do relato do casa em uma revista científica.

A doutora foi procurada pelo jornal no Centro Médico Mazzei, em São Paulo, onde trabalha. A resposta veio por meio de uma mensagem de uma funcionária que afirmou: "Dra Michelle disse para deixar assim mesmo porque no momento ela está sem tempo”.

O caso veio à tona após divulgação da Folha de S. Paulo, que revelou que uma médica ministrava, sem qualquer respaldo legal, o procedimento a pacientes da maternidade do Instituto da Mulher Dona Lindu (Foto: Reprodução)
O caso veio à tona após divulgação da Folha de S. Paulo, que revelou que uma médica ministrava, sem qualquer respaldo legal, o procedimento a pacientes da maternidade do Instituto da Mulher Dona Lindu (Foto: Reprodução)

Polícia investiga morte

A Policia Civil e o Ministério Público do Amazonas investigam a morte de uma paciente com Covid-19, ocorrida em Manaus, que recebeu tratamento com nebulização de hidroxicloroquina, procedimento que não tem eficácia comprovada contra a doença. A informações é do G1.

O caso veio à tona após divulgação da Folha de S. Paulo, que revelou que uma médica ministrava, sem qualquer respaldo legal, o procedimento a pacientes da maternidade do Instituto da Mulher Dona Lindu (IMDL).

Ao G1, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) determinou abertura de uma sindicância e afastamento da médica que realizou o tratamento. Segundo o órgão, a nebulização de cloroquina não faz parte dos protocolos da rede estadual de saúde no combate à pandemia do novo coronavírus.

A profissional de saúde ainda registrou o momento em que uma das pacientes é submetida ao tratamento. A delegada Deborah Souza, titular do 15º Distrito Integrado de Polícia (DIP) afirma, segundo o G1, ter recebido a denúncia do Comitê de Violência Obstétrica do Amazonas e da ONG Humaniza.

Segundo o denunciado pela ONG, ao menos três mulheres grávidas teriam morrido após receber o tratamento experimental.

"Nós estamos investigando as circunstâncias em que aconteceu a morte dela, abrimos inquérito policial e, após a conclusão do inquérito, nós levaremos o caso à Justiça para tomar as providências cabíveis", afirma a delegada.

Segundo a agente, médicos envolvidos no caso serão intimados a prestar esclarecimentos sobre a situação.

"Dependendo de como as circunstâncias se desenvolverem, e se for constatado uma negligência, uma imprudência, uma imperícia, esses médicos podem ser enquadrados no crime de homicídio culposo", afirmou.

Relembre o caso

Após passar por um parto de emergência em meados de fevereiro, Jucicleia de Sousa Lira, 33 anos, seguiu lutando contra a Covid-19 no IMDL (Instituto da Mulher e Maternidade Dona Lindu), hospital público estadual em Manaus. Cleisson Oliveira, 30 anos, pai da criança, já apreensivo com a situação da esposa levou um susto ao vê-la recebendo um tratamento inusitado.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, que apurou e noticiou a história, Cleisson recebeu imagens da esposa durante uma sessão de nebulização de hidroxicloroquina, procedimento que não tem eficácia comprovada no combate à Covid-19.

A OMS ressalta ainda que o tratamento experimental baseado no medicamento ineficaz contra o novo coronavírus pode gerar reações adversas.

Segundo traz o jornal, Jucicleia só piorou depois de receber a nebulização, até que no início de março, a técnica em radiologia faleceu 27 dias após o nascimento do primeiro filho. De acordo com a Folha de S. Paulo, o hospital informou à família que a causa foi infecção generalizada em decorrência da Covid-19.

A nebulização da hidroxicloroquina já é um tratamento suspeito de ter causado mortes na Região Sul do país. Recentemente, o método foi exaltado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em uma das suas lives semanais.

Brazil's President Jair Bolsonaro, right, talks with his Chief of Staff Onyx Lorenzoni during a cabinet presentation ceremony at the presidential palace in Brasilia, Brazil, Wednesday, Jan. 2, 2019. (AP Photo/Eraldo Peres)
Twitter apaga publicação de ministro de Bolsonaro com vídeo de paciente nebulizado com cloroquina (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

"Protocolo" ucraniano

O “protocolo” adotado em Manaus foi criado pelo médico ucraniano-americano Vladimir Zelenko. Ele ganhou fama após o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, tentar emplacar o uso da cloroquina como fármaco eficiente contra a Covid-19.

Em abril de 2020, o ucraniano se tornou alvo de uma investigação por suspeita de ter mentido ao afirmar que seu estudo havia recebido o respaldo da FDA, a agência norte-americana que regula medicamentos.

A aplicação da nebulização, que consiste na inalação de comprimidos de cloroquina triturados e diluídos, a médica paulistana ignorou todas as boas práticas, de acordo com o infectologista Francisco Ivanildo de Oliveira, gerente médico do Sabará Hospital Infantil, ouvido pela Folha de S. Paulo.

Uma das principais irregularidades é a ausência de aprovação prévia por um comitê de ética em pesquisa, algo que a lei exige no Brasil. Outra falha grave é que a paciente não foi informada dos riscos no momento de assinar o consentimento, conforme prega as normas nacionais do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Segundo apuração da Folha, apenas outra paciente, que também havia acabo de dar a luz, deu aval para passar por uma nebulização. Ela sobreviveu, mas recebeu alta quase dois meses após ter passado pelo procedimentos.

O jornal diz ainda que recebeu ao menos três relatos de pacientes que receberam o tratamento mesmo sem terem concedido autorização. Todos morreram, inclusive uma paciente de 32 anos, grávida de cinco meses, internada com Covid-19.