Ucrânia acusa Rússia de atacar Odessa menos de 24 horas após acordo por grãos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As Forças Armadas da Ucrânia acusaram a Rússia de atacar com mísseis, neste sábado (23), infraestruturas da cidade portuária de Odessa, no sul do país, no que seria um golpe no acordo assinado menos de 24 horas antes para desbloquear as exportações de grãos dos portos do Mar Negro.

O pacto assinado por Moscou e Kiev, com mediação da Turquia e da ONU, é visto como crucial para conter os preços globais de alimentos e permitir que certas exportações fossem enviadas da Ucrânia.

"O inimigo atacou o porto comercial marítimo de Odessa com mísseis de cruzeiro Kalibr", escreveu Sergi Brachuk, porta-voz do governo regional, em uma nota publicada nas redes sociais. "Dois mísseis atingiram a infraestrutura do porto, enquanto outros dois foram abatidos pelas forças de defesa aérea."

A ação, no entanto, não causou danos sérios, de acordo com o Exército da Ucrânia, citado pela emissora pública Suspilne, que não relatou vítimas nem prejuízos aos locais de armazenagem de grãos. No Facebook, Oleksandr Kubrakov, ministro de Infraestrutura da Ucrânia, escreveu que o país "continuará os preparativos técnicos para o lançamento das exportações de produtos agrícolas de nossos portos".

A chancelaria ucraniana pediu às Nações Unidas e à Turquia que garantam que a Rússia cumpra os compromissos acordados e autorize a passagem no corredor de grãos. Para o porta-voz da pasta, Oleg Nikolenko, ao disparar os mísseis, o líder russo, Vladimir Putin, "cuspiu na cara do secretário-geral da ONU e do presidente turco, que fizeram esforços enormes para chegar a esse acordo".

O Kremlin não respondeu ao pedido de comentários da agência de notícias Reuters, mas o ministro de Defesa da Turquia, Hulusai Akar, afirmou que autoridades russas disseram a Ancara que Moscou "não tem nada a ver" com o ataque a Odessa e que "está acompanhando o episódio de perto".

António Guterres, chefe da ONU, "condenou inequivocamente" os relatos da ofensiva, e a Turquia disse que o fato de a ação ter ocorrido no dia seguinte à assinatura do trato traz sérias preocupações.

O bloqueio dos portos ucranianos pela frota russa do Mar Negro impediu a saída de dezenas de milhões de toneladas de grãos e de muitos navios, o que piorou os gargalos da cadeia de suprimentos global e, junto com as sanções ocidentais à Rússia, alimentou a inflação dos preços de alimentos e energia.

O acordo assinado na sexta visa a evitar a fome entre dezenas de milhões de pessoas em países mais pobres, principalmente na África, injetando mais trigo, óleo de girassol, fertilizantes e outros produtos nos mercados mundiais, inclusive para necessidades humanitárias, em parte a preços mais baixos.

Antes do ataque, autoridades da ONU haviam dito que o trato estaria totalmente em vigor em semanas, retomando as saídas de grãos de três portos para níveis pré-guerra, de 5 milhões de toneladas por mês.

Sob o pacto, oficiais ucranianos guiariam navios por canais seguros em águas minadas até três portos, incluindo Odessa, onde seriam carregados com grãos. Moscou nega a responsabilidade pela crise, culpando as sanções impostas por países do Ocidente por desacelerar suas próprias exportações de alimentos e de fertilizantes e a Ucrânia por colocar explosivos próximos a seus portos no Mar Negro.

O líder ucraniano, Volodimir Zelenski, disse na sexta que o acordo disponibilizará cerca de US$ 10 bilhões em grãos para venda, com cerca de 20 milhões de toneladas da safra do ano passado a serem exportadas. Neste sábado, em uma mensagem no aplicativo Telegram, afirmou que o ataque a Odessa prova que, "não importa o que a Rússia diga e prometa, o país encontrará formas de não implementar o acordo".

A Rússia e a Ucrânia são os principais fornecedores globais de trigo. Uma crise alimentar mundial colocou cerca de 47 milhões de pessoas para a "fome aguda", segundo o Programa Alimentar Mundial.

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