Ucrânia anuncia retomada de cidade, Rússia cita reorganização e guerra coroa nova fase

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Numa aparente intensificação da contraofensiva ucraniana no conflito contra a Rússia, Kiev reivindicou neste sábado (10) o que seriam avanços significativos de suas forças nas regiões leste e nordeste do país para recapturar territórios tomados ainda nos primeiros dias da invasão.

O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia classificou as ações de extraordinárias. O prefeito de Izium, Valeri Martchenko, disse ao jornal The New York Times que a cidade estava livre das tropas de Moscou, com as forças de segurança agindo para eliminar possíveis armadilhas antes da reconquista da cidade na região de Kharkiv.

A fala se deu horas depois de a chancelaria afirmar que militares do país entraram em Kupiansk, outro entreposto ferroviário que estava sob controle russo havia meses e pelo qual passavam suprimentos enviados de Moscou para o foco principal de sua ação, os combates no Donbass. "As tropas ucranianas estão avançando no leste, liberando mais cidades e vilarejos. Sua bravura, juntamente com o apoio militar ocidental, está produzindo resultados extraordinários", disse o porta-voz Oleg Nikolenko em comunicado.

Embora as informações ainda não possam ser verificadas de maneira independente, sinais emitidos por Moscou indicam que a nova fase da guerra está mesmo se consolidando. Citando o Ministério da Defesa, a agência estatal russa TASS confirmou o deslocamento de tropas de Izium para outros pontos do Donbass.

Segundo a versão do Kremlin, trata-se de movimento já planejado para reorganizar as forças de defesa no leste. Meios ocidentais, porém, viram a retirada como um aparente colapso das forças russas em um dos principais fronts do conflito, com função logística importante.

Mas o entusiasmo de Kiev também é visto com cautela por analistas militares —além dos combates em si, a guerra de narrativas permeia o conflito. Tão logo divulgou os avanços sobre esses bastiões de Moscou, o governo ucraniano solicitou ao Ocidente o envio de novas armas, afirmando que derrotar os invasores "significa uma vitória para a paz".

A Defesa russa havia anunciado o envio de reforços à região de Kharkiv e divulgado um vídeo com imagens de caminhões militares transportando canhões e veículos blindados. Neste sábado, porém, os sinais foram trocados, com o anúncio de reagrupamento de forças. Já na sexta, em uma rara admissão feita por um dos administradores indicados pelo Kremlin para a área, Vitali Gantchev, Moscou oficializou o avanço ucraniano.

O presidente Volodimir Zelenski, que na sexta (9) anunciou que suas tropas haviam retomado cerca de 30 cidades na região de Kharkiv, neste sábado reforçou a retórica dizendo que os russos estão "exibindo o que sabem fazer de melhor: recuar". Pode até ser, mas depois a Ucrânia relatou um bombardeio russo em Kharkiv, que matou ao menos uma pessoa e destruiu uma série de residências.

Em Izium, o chefe local da administração de Moscou, Vladislav Sokolov, havia afirmado à agência Ria Novosti que a situação era muito difícil. "Nas últimas duas semanas, a cidade foi bombardeada por forças ucranianas, o que está causando séria destruição e muitas mortes." O representante russo em Kharkiv orientou compatriotas a deixarem a província, e testemunhas disseram à Reuters que engarrafamentos foram registrados depois da mensagem.

Se reconquistada, Izium será a principal vitória da contraofensiva ucraniana desde o recuo das tropas do Kremlin de Kiev, nos primeiros dias do conflito. Até aqui, a maior cidade retomada é Balaklia, onde cerca de 30 mil pessoas viviam antes da guerra. Alguns relatórios sugerem que as forças de Zelenski avançaram ainda mais para leste.

A tomada de centros urbanos como Kupiansk —onde militares publicaram fotos nas redes sociais reinstalando a bandeira ucraniana na prefeitura— e Izium pode ser um duro golpe para a capacidade da Rússia de manter suas posições na linha de frente oriental. Representa ainda o risco de perdas materiais, com soldados abandonando armas e munição nas operações de retirada.

Diante de ameaças ucranianas, Moscou passou cerca de um mês se reforçando ao sul, enquanto mantém sua ofensiva, embora com avanços lentos, para completar a tomada da região de Donetsk ainda sob controle ucraniano.

Em Grakove, localidade recapturada por Kiev, foram derrubados postes e cabos de energia. Nas casas abandonadas, cães e gatos de rua tentavam encontrar comida. "Foi aterrorizante, havia bombardeios e explosões em todos os lugares", disse Anatoli Vasiliev, 61, um dos poucos moradores que permaneceram no vilarejo, à agência de notícias AFP.

Tropas ucranianas também teriam avançado na região sul. Agências russas relataram seis explosões em Nova Kakhovka, uma cidade controlada pelas forças russas na região de Kherson.

Em meio ao acirramento da tensão na guerra, a ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock, chegou neste sábado à capital ucraniana em uma visita surpresa. É a segunda vez que ela visita o país desde o início do conflito, em 24 de fevereiro. "Viajei para mostrar que eles podem continuar a contar conosco", disse Baerbock em comunicado, assegurando que Berlim continuará apoiando Kiev "pelo tempo que for necessário, com suprimentos de armas, apoio humanitário e financeiro".

Nas últimas semanas, a Alemanha enviou obuses, lançadores de foguetes e mísseis antiaéreos para a Ucrânia. Os equipamentos reforçam o arsenal fornecido pelo Ocidente que, segundo observadores, pode ter prejudicado as capacidades militares da Rússia.

Desde o começo da semana, surgiram relatos de que Kiev estava pressionando Moscou com a abertura de uma frente no norte do país, enquanto sua contraofensiva em Kherson (sul) enfrentava grande resistência.

Resta saber se os russos, que já tinham desviado forças para conter o ataque em Kherson, têm de onde tirar homens para proteger as áreas ocupadas de Kharkiv, cuja capital não chegaram a tomar, apesar de intensos ataques à cidade, segunda maior da Ucrânia. A falta de recursos humanos, decorrente do fato de não haver uma mobilização geral por motivos políticos, tem afetado toda a campanha russa.