Ucrânia e Rússia assinam acordo com Turquia e ONU para exportação de grãos

Ucrânia e Rússia assinaram, nesta sexta-feira (22), um acordo com a Turquia e as Nações Unidas sobre a exportação de grãos e de produtos agrícolas através do Mar Negro, a fim de aliviar a grave crise alimentar mundial.

Após várias rodadas de negociações, as delegações de Kiev e Moscou assinaram dois textos idênticos, mas separados, conforme solicitado pelo governo ucraniano, que se recusou a assinar qualquer documento diretamente com os russos.

As quatro delegações se reuniram no Palácio Dolmabahçe, às margens do Bósforo, em Istambul, na presença do secretário-geral da ONU, António Guterres; do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan; dos ministros turco e russo da Defesa e do ministro da Ucrânia para a Infraestrutura.

A cerimônia aconteceu sob as bandeiras de Rússia e Ucrânia, separadas pela bandeira azul da ONU e pela bandeira vermelha da Turquia. Ancara se ofereceu para servir de mediador desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro deste ano.

Negociado desde abril sob a liderança de Guterres, que chegou a Istambul na quinta-feira (21), o acordo aliviará a carga sobre os países dependentes dos mercados russo e ucraniano, que respondem por 30% do comércio mundial de trigo.

Sob os termos do acordo, serão criados "corredores seguros" que permitirão o movimento de navios mercantes no Mar Negro, os quais "ambas as partes concordaram em não atacar", relatou um funcionário da ONU que pediu anonimato.

"Hoje há um raio no Mar Negro: um raio de esperança, um raio de possibilidade, um raio de alívio", reagiu o secretário-geral da ONU.

O acordo "aliviará os países em desenvolvimento à beira da falência e as pessoas mais vulneráveis à beira da fome", disse.

Agora, "deve ser aplicado em sua totalidade", pediu.

Este é o primeiro grande pacto selado por ambos os lados desde que a Rússia invadiu a Ucrânia.

- "Caminho para a paz" -

O conflito, que já deslocou milhões de pessoas e deixou milhares de mortos, está sendo travado entre dois dos maiores produtores de grãos do mundo.

Cerca de 25 milhões de toneladas de trigo e de outros cereais estão atualmente bloqueadas nos portos da região de Odessa pela presença de navios de guerra russos e minas colocadas por Kiev para defender sua costa.

Antes de selar o acordo, Kiev alertou que qualquer violação do documento por parte de Moscou e qualquer incursão a portos ucranianos teriam uma "resposta militar" imediata.

"Não vamos aproveitar o fato de que esses portos [ucranianos] ficarão livres de minas e abertos. Assumimos esse compromisso", assegurou o ministro russo da Defesa, Serguei Shoigu, após assinar o pacto.

A Turquia se ofereceu para ajudar na desminagem das águas do Mar Negro para facilitar as exportações de grãos.

"Se necessário, está previsto [no acordo] que a remoção de minas pode ser realizada por um terceiro país. A Turquia está pronta para oferecer sua ajuda", disse o porta-voz presidencial turco, Ibrahim Kalin, ao canal privado NTV.

De sua parte, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, disse esperar que o acordo "reviva o caminho para a paz". O presidente desempenhou um papel fundamental nas negociações e mantém boas relações com Moscou e Kiev.

"O acordo de Istambul é um passo na direção certa. Pedimos que seja aplicado rapidamente", reagiu o chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, no Twitter.

A ministra britânica das Relações Exteriores, Liz Truss, parabenizou a Turquia e as Nações Unidas por intermediarem o acordo, mas advertiu que seu país permanecerá "vigilante" para "garantir que as ações da Rússia correspondam às suas palavras".

Antes que os documentos fossem assinados, o conselheiro presidencial ucraniano, Mikhailo Podoliak, disse que ambos os lados assinariam "acordos-espelho".

"Assinamos um acordo com a Turquia e com a ONU e estamos comprometidos com eles. A Rússia assinará um acordo-espelho" com essas duas partes, tuitou Podoliak.

Diplomatas esperam que os grãos comecem a ser exportados em meados de agosto.

Segundo o ministro russo da Defesa, o acordo poderá ser implementado "nos próximos dias".

- "Rússia é pouco confiável" -

No terreno, porém, ainda há dúvidas entre os agricultores de que o acordo será cumprido.

Para Mykola Zaveruja, um agricultor ucraniano que tem cerca de 13.000 toneladas de grãos para exportar na área de Mykolaiv, o anúncio lhe dá "esperança". Ele diz, porém, que "não dá para acreditar no que os russos dizem".

"A Rússia não é confiável, tem demonstrado isso ano após ano", comentou, em entrevista à AFP.

Apesar do avanço da diplomacia, a guerra continua no terreno, e as forças russas mantêm sua ofensiva na região de Donetsk, no leste.

Pelo menos cinco pessoas morreram, e dez ficaram feridas nesta área nas últimas 24 horas, segundo a Presidência ucraniana.

Os alvos de Moscou não estão mais limitados ao leste da Ucrânia, segundo o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov.

No início da invasão, as tropas russas se aproximaram rapidamente da capital ucraniana, Kiev, sem poder tomá-la. A partir do final de março, redirecionaram a ofensiva para o Donbass, parcialmente controlado por separatistas pró-russos desde 2014.

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