Ucrânia esconde dos EUA sua estratégia de guerra por temer espiões russos e vazamento de informações

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, forneceu atualizações quase diárias da invasão da Rússia nas mídias sociais; vídeos virais mostraram a eficácia das forças ucranianas; e o Pentágono tem realizado regularmente briefings sobre o desenrolar da guerra. Mas, apesar de tantas notícias, as agências de inteligência dos EUA têm menos informações do que gostariam sobre as operações da Ucrânia. Segundo especialistas e autoridades americanos, Washington sabe muito mais sobre as operações da Rússia, seus sucessos e fracassos.

Foco da guerra: Zelensky diz que destino de Donbass será definido em Severodonetsk

'Pessoas se acostumam com explosões': Voluntários se arriscam para resgatar pessoas vulneráveis de zona de guerra na Ucrânia

Guerra: Adolescente vira 'herói' após pilotar drone em ataque que destruiu comboio russo

Por segurança, os governos geralmente retêm informações do público. Mas essas lacunas de informação dentro do governo dos EUA podem tornar mais difícil para o governo Biden decidir como direcionar a ajuda militar ao enviar bilhões de dólares em armas para a Ucrânia.

Autoridades dos EUA disseram que o governo ucraniano lhes deu poucas informações confidenciais ou detalhes sobre seus planos operacionais, e autoridades ucranianas reconheceram que não contaram tudo aos americanos.

Vídeo: Saiba como são feitos os ataques de drones kamikazes contra a Rússia

Voluntário: Itamaraty confirma morte de brasileiro que estava na Guerra da Ucrânia

É claro que a comunidade de inteligência dos EUA coleta informações sobre quase todos os países, incluindo a Ucrânia. Mas as agências de espionagem dos EUA, em geral, concentram seus esforços de coleta em governos adversários, como a Rússia, e não em amigos atuais, como a Ucrânia. E enquanto a Rússia tem sido uma prioridade para os espiões americanos há 75 anos, quando se trata dos ucranianos, os EUA trabalharam na construção de seu serviço de inteligência, não espionando seu governo.

Como resultado, disseram ex-funcionários, surgiram alguns pontos cegos:

— Quanto realmente sabemos sobre como a Ucrânia está indo? — disse Beth Sanner, ex-funcionária da inteligência. — Você pode encontrar uma pessoa que lhe diga com confiança quantos soldados a Ucrânia perdeu, quantos equipamentos a Ucrânia perdeu?

Mesmo sem uma imagem completa da estratégia e situação militar da Ucrânia, o governo Biden fortaleceu seu poder de fogo, por exemplo, com os sistemas de artilharia de foguetes que o presidente Joe Biden anunciou semana passada. A Ucrânia está aguardando a chegada de sistemas de armas ocidentais mais poderosos, já que ambos os lados da guerra sofrem pesadas perdas na região Leste do país.

Autoridades do Pentágono dizem que têm um processo complicado para enviar armas, que começa com um pedido dos ucranianos e inclui uma avaliação dos EUA de que tipo de equipamento eles precisam e com que rapidez podem ser usados com a devida habilidade.

Guerra: Britânicos presos por forças pró-Rússia são condenados à morte

Conflito: Ucrânia perde até 100 soldados por dia no Leste, confirma Ministério da Defesa

Entenda: O que acontecerá com os prisioneiros de guerra na Ucrânia?

Prisão perpétua: Primeiro soldado russo acusado de crimes de guerra é condenado à prisão perpétua na Ucrânia

Algumas agências europeias dizem que será difícil para a Ucrânia, se não impossível, recuperar o território que a Rússia tomou desde fevereiro, mas as agências de inteligência dos EUA são menos pessimistas, disseram autoridades. Ainda assim, há rachaduras nas defesas da Ucrânia, e questões sobre o estado das forças militares e estratégia da Ucrânia na região do Donbass criaram uma imagem incompleta para os EUA.

Avril D. Haines, diretora de inteligência nacional, testemunhou em uma audiência no Senado, no mês passado, que “era muito difícil dizer” quanto mais ajuda a Ucrânia poderia absorver. E acrescentou:

— Na verdade, temos mais insights, provavelmente, do lado russo do que do lado ucraniano.

Escolha estratégica

Uma questão chave é: o que Zelensky pretende de Donbass? A Ucrânia enfrenta uma escolha estratégica lá na região: retirar suas forças ou correr o risco de tê-las cercada pela Rússia.

Nos últimos dias, a Ucrânia forneceu mais informações. No domingo, Zelenskyy visitou as linhas de frente e chamou de “extremamente difíceis” os combates em Sievierodonetsk — uma cidade que é fundamental para controlar Donbass. Ele também reconheceu que cerca de cem soldados ucranianos estão morrendo por dia e descreveu como a Rússia tomou um quinto do país.

Sem treinamento: Soldados ucranianos usam internet para aprender a guerrear com armas enviadas pelo Ocidente

Ucrânia: Invasão da Rússia deixou mais de 40 mil civis ucranianos mortos ou feridos

As declarações públicas mais francas do governo podem ser precursoras de uma conversa com sua população sobre as escolhas estratégicas a serem feitas em Donbass, disseram analistas.

— Provavelmente há um debate em andamento sobre a retirada de todas as defesas que podem acabar presas se ficarem por lá — disse Stephen Biddle, professor de assuntos internacionais da Universidade de Columbia. — Se houver uma retirada deliberada, Zelensky terá que explicar isso de alguma forma que não pareça difamar as armas ucranianas. Ele terá que contar algum tipo de história para o povo ucraniano se eles decidirem retirar essas tropas, e explicar as perdas que eles poderiam sofrer se ficarem por lá é uma maneira lógica de fazer isso.

Sem planos operacionais

Há outra razão para a falta de informação sobre a Ucrânia.

Os EUA fornecem para a Ucrânia atualizações regulares, quase em tempo real, sobre a localização das forças russas, informações que os ucranianos usam para planejar operações e ataques e fortalecer suas defesas. Mas, mesmo em conversas de alto nível com o general Mark A. Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto, ou Lloyd Austin, secretário de Defesa, as autoridades ucranianas compartilham apenas seus objetivos estratégicos, não seus planos operacionais detalhados. O sigilo da Ucrânia forçou as autoridades militares e de inteligência dos EUA a tentar aprender o que puderem de outros países que operam na Ucrânia, sessões de treinamento com ucranianos e comentários públicos de Zelensky, disseram autoridades americanas.

Leia: Putin compara sua missão à de Pedro, o Grande, que 'recuperou' territórios russos

E mais: Putin deve sofrer um fracasso estratégico, diz presidente da Comissão Europeia

A Ucrânia, disseram as autoridades, quer apresentar uma imagem de força, tanto para o público quanto para seus parceiros próximos. O governo não quer compartilhar informações que possam sugerir um enfraquecimento da determinação ou dar a impressão de que eles podem não vencer. Em essência, as autoridades ucranianas não querem apresentar informações que possam encorajar os EUA e seus outros parceiros ocidentais a diminuir o fluxo de armas.

A pedido dos EUA, a Ucrânia passou anos reforçando a proteção de seus serviços militares e de inteligência contra espiões russos. Informar outros países sobre seus planos e situação operacional poderia revelar fraquezas que Moscou poderia explorar se os militares russos soubessem deles.

(É claro que os ucranianos nem sempre são tão cuidadosos com os planos operacionais dos EUA. Zelensky uma vez anunciou publicamente que Austin e Antony Blinken, o secretário de Estado, estavam indo a Kiev para uma visita, fato que as autoridades americanas tentavam manter em segredo.)

Assista: Videográfico explica conflito iniciado com invasão russa em fevereiro

Cem dias: O que pode encerrar o conflito?

Há boas razões para a Ucrânia não falar abertamente sobre suas forças ou sua estratégia militar, disse Biddle.

— Não tenho certeza se é do interesse do público americano ou ucraniano que os ucranianos sejam francos sobre suas perdas se o resultado for fortalecer o esforço de guerra russo — disse Biddle. — Mas isso significa que realmente não conhecemos os dois lados da história.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos