Ucrânia faz nova tentativa para retirar civis de Mariupol

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Mãe embarca os filhos em um trem de retirada de civis rumo a Lviv, um dia depois de chegar com um comboio humanitário da cidade sitiada de Mariupol, em uma estação ferroviária na cidade de Zaporizhia, no sul, em 22 de abril de 2022 (AFP/Ed JONES) (Ed JONES)

Autoridades ucranianas tentavam, neste sábado (23), retirar civis de Mariupol (sudeste), cidade em grande parte controlada pelo Exército russo, que voltou a bombardear a siderúrgica Azovstal, onde a última resistência se encontra entrincheirada - informaram fontes oficiais ucranianas.

Essa tentativa "impedida" hoje pelas tropas russas, de acordo com o conselheiro da prefeitura local Petro Andryushchenko. Segundo este assessor, cerca de 200 habitantes de Mariupol se dirigiram para o ponto marcado para embarque, mas foram "dispersados" pelos militares russos.

Alguns deles, acrescentou, foram forçados a entrar em ônibus rumo a Dokuchaievsk, uma cidade ocupada pelos russos 80 quilômetros ao norte de Mariupol.

"As pessoas não tinham o direito de sair dos ônibus", relatou, acrescentando que os russos atribuíram a mudança de itinerário "aos disparos de nacionalistas (ucranianos) na área".

"Mais uma vez, os russos impediram uma retirada", criticou Andryushchenko.

Hoje pela manhã, a vice-primeira-ministra ucraniana, Iryna Vereshchuk, havia anunciado que mais uma tentativa seria feita durante o dia para "retirar mulheres, crianças e idosos", transferindo-os de Mariupol para Zaporizhzhya, cerca de 200 km a noroeste.

Ela advertiu, no entanto, que as forças russas poderiam organizar um corredor paralelo de retirada, desta vez para a Rússia.

"Tenham cuidado", enfatizou.

"Não sucumbam ao engano e à provocação", insistiu.

Em sua conta no Facebook, Vereshchuk relatou que os civis começaram a se reunir perto de um shopping da cidade. De lá, partiriam para Zaporizhzhya, por volta das 12h locais (6h em Brasília). Na quinta-feira (21), após vários dias sem retiradas, três ônibus de Mariupol conseguiram chegar a esta cidade.

Segundo Oleksi Arestovych, um assessor da Presidência ucraniana, os russos "retomaram os ataques aéreos" contra a gigantesca siderúrgica Azovstal, onde os últimos combatentes ucranianos se encontram entrincheirados em túneis de quilômetros de extensão.

Os russos "tentam operações de assalto", mas "nossos soldados, apesar de sua difícil situação, realizam contra-operações", declarou o assessor no Telegram.

Esta informação ainda não foi confirmada.

Esta nova tentativa de esvaziar Mariupol se dá um dia depois de um oficial militar russo de alta patente ter anunciado que "a segunda fase da operação especial" - expressão usada por Moscou para classificar sua invasão da Ucrânia - está apenas começando.

A Rússia agora prioriza "estabelecer um controle total sobre o Donbass e o sul da Ucrânia", disse ontem o vice-comandante das Forças do Distrito Militar do centro da Rússia, Rustam Minnekayev.

Desta forma, acrescentou, será estabelecido "um corredor terrestre" entre os territórios separatistas pró-russos de Donetsk e Lugansk, na região oriental do Donbass, com a península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014.

A conquista do sul da Ucrânia também permitirá ajudar os separatistas da região moldava da Transnístria, "onde também observamos casos de opressão da população de língua russa", completou o militar, cuja declaração levantou preocupações na Moldávia.

Nos últimos dias, a Ucrânia recebeu ajuda militar substancial de países ocidentais e mantém que pode repelir o avanço russo. Ao mesmo tempo, reivindica uma trégua durante a Páscoa ortodoxa, pedido rejeitado por Moscou, segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

Em seu discurso habitual de sexta-feira à noite, Zelensky disse que os comentários do general russo são uma articulação clara dos objetivos de Moscou.

"Isso apenas confirma o que eu já disse em várias ocasiões: a invasão russa da Ucrânia é apenas um começo", advertiu.

- Corredores humanitários -

O secretário-geral da ONU, António Guterres, e o papa Francisco pediram o cessar das hostilidades para a Páscoa ortodoxa, após quase dois meses de um conflito que deixou mais de cinco milhões de exilados e sete milhões de deslocados internos. É o maior êxodo na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Este pedido de trégua também foi feito pela Igreja Ortodoxa Ucraniana, que é subordinada ao patriarcado de Moscou, mas se distanciou dele pela guerra. Seu líder, o primaz Onufriy, ofereceu-se para "organizar uma procissão", de modo a "fornecer ajuda emergencial e retirar os civis".

Na mesma linha, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, solicitou na sexta-feira (22), em uma telefonema com o presidente russo, Vladimir Putin, corredores humanitários em Mariupol. A cidade está há quase dois meses sitiada.

O Kremlin responsabilizou Kiev, por não autorizar a rendição dos últimos soldados ucranianos entrincheirados no complexo industrial Azovstal nesta cidade, ainda cercada por tropas russas.

"As vidas de todos os militares ucranianos, combatentes nacionalistas e mercenários estrangeiros serão preservadas se depuserem as armas (...) Mas o regime de Kiev não autoriza esta possibilidade", disse Putin, em um comunicado do Kremlin.

A Ucrânia afirma que centenas de seus soldados, assim como civis, estão entrincheirados na fábrica. Kiev já pediu, repetidamente, um cessar-fogo para permitir a retirada de mulheres, crianças e idosos.

O Ministério russo da Defesa anunciou que está disposto a fazer uma pausa humanitária, se as tropas de Kiev se renderem.

Para o governador da região de Donetsk, Pavlo Kirilenko, "o sucesso da ofensiva russa no sul depende do destino de Mariupol".

Com cerca de 450.000 habitantes antes do início do conflito, em 24 de fevereiro passado, Mariupol se tornou um campo de ruínas com pessoas trancadas em porões e sem comunicação com o mundo exterior.

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