Ucrânia quer negociar paz em seus termos com China e Sul Global na mesa

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No dia em que a invasão russa de seu país completou um ano, nesta sexta-feira (24), o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, afirmou que quer discutir um acordo de paz com Moscou envolvendo a China e países da América Latina e da África, além da Índia —em outras palavras, o chamado Sul Global.

Só que ele quer fazer isso em seus termos, segundo o plano de dez pontos apresentado no final de 2022 por Kiev para pôr fim às hostilidades. O governo de Vladimir Putin não aceita a proposta, que exige a retirada das forças russas de todas as áreas ocupadas no vizinho, incluindo a Crimeia, anexada em 2014.

Em em entrevista coletiva, questionado pelo enviado do SBT, Zelenski disse que convidou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para se reunir com ele na Ucrânia. "Estou ansioso para encontrá-lo. Gostaria que ele me ajudasse e me apoiasse com uma plataforma para conversar com a América Latina. Quero o nosso encontro, porque olho no olho, cara a cara, serei compreendido, a Ucrânia será mais compreendida."

Antes, sem citar o Brasil, Zelenski fez com a fala sobre a América Latina, a África e a Índia um aceno à ideia ainda incipiente de formação de um "clube da paz" de países neutros no conflito apresentada por Lula, que já foi rejeitada pelos Estados Unidos, mas vista com simpatia pelo Kremlin. Ao mesmo tempo, ao dizer que quer debater sua proposta, o ucraniano mantém o debate interditado na prática.

A Ucrânia e o Ocidente também comentaram a proposta de negociação de paz feita pela China nesta sexta. O texto chinês, genérico, fala em respeito a fronteiras nacionais sem determiná-las e exige o fim do regime de sanções que o Ocidente impôs a Moscou, o que, tudo indica, não irá acontecer tão cedo.

Pelo contrário. Nesta sexta, os EUA e a União Europeia aprovaram um novo pacote de punições, com medidas que incluem mais restrições comerciais a produtos eletrônicos, inclusive de uso militar, peças e máquinas para caminhões e jatos e também têm como alvo os setores bancários e de construção.

Na proposta chinesa, são, ao todo, 12 pontos, muitos dos quais já pincelados por Pequim, como a oposição ao uso de armas nucleares e a recusa do que chama de "mentalidade de Guerra Fria".

No caso de Kiev, a encarregada da embaixada do país em Pequim, Leschinska Zhanna, afirmou que via como "um bom sinal" a disposição chinesa, mas afirmou que "gostaria de ver a China do seu lado, já que neste momento não está apoiando os esforços ucranianos". Zelenski, por sua vez, afirmou que estava "aberto a alguns dos pontos" do acordo proposto, sem especificar, e disse que gostaria de se encontrar com Xi Jinping, o líder chinês. O Kremlin apenas afirmou "valorizar" o esforço chinês, sem pormenorizar.

Já a Otan, a aliança militar do Ocidente liderada pelos Estados Unidos, desprezou a proposta, como já era esperado. "A China não tem muita credibilidade, porque eles não foram capazes de condenar a invasão ilegal da Ucrânia e também porque eles assinaram, dias antes da invasão, um acordo de amizade ilimitada entre o presidente Xi e o presidente Putin", afirmou o secretário-geral do clube, Jens Stoltenberg.

Ele já havia, assim como os EUA, acusado a China de querer fornecer armas para os russos, o que Pequim nega. Os chineses são o ponto mais sensível de qualquer discussão de paz, dado que mantêm uma forte aliança com a Rússia e, ao mesmo tempo, querem se posicionar como mediadores pelo fim do conflito. O principal diplomata de Pequim, Wang Yi, esteve com Putin na última quarta-feira (22).

A Índia também tem boas relações com o Kremlin, e ambos os países se recusaram a condenar a guerra em votações da ONU em 2022 e nesta quinta (23). O Brasil, que condenou a guerra nas duas ocasiões, coloca-se como mediador por não ter aderido ao sistema de sanções e defender uma saída negociada. Também na quinta, o vice-chanceler russo, Mikhail Gazulin, disse que tinha "tomado nota" da sugestão de negociação feita por Lula e fez elogios ao Brasil por sua neutralidade.

Zelenski falou em uma entrevista coletiva para marcar o primeiro ano da guerra. Antes, ele havia participado de cerimônias na capital ucraniana e sido convidado para participar virtualmente de um encontro do G7, grupo que reúne algumas das maiores economias mundiais.

Diferentemente do que observadores esperavam, o Kremlin adotou discrição no dia do aniversário do conflito. Não houve grandes ondas de ataques com mísseis e drones, e os combates seguiram o padrão usual, feroz, em pontos da linha de frente na porção leste da Ucrânia.

Há um novo ponto de tensão que preocupa analistas: a Transdnístria, encrave separatista pró-russo na Moldova, país ensanduichado entre Ucrânia e Romênia. Lá há cerca de mil soldados russos desde os anos 1990, e o Kremlin afirmou que ataques às suas forças serão vistos como um ataque à Rússia, elevando o temor de que possa intervir na região.

Do lado ucraniano, os quatro primeiros tanques Leopard-2 da Polônia chegaram ao país nesta sexta. A Suécia afirmou que poderá doar dez desses blindados, e a Alemanha elevou de 14 para 18 o número que pretende enviar. Já o Pentágono informou que os 31 tanques M1 Abrams prometidos podem demorar até dois anos para entrarem em ação na Ucrânia.