Ucranianos fazem ‘último apelo’ em Mariupol; prazo de ultimato russo acaba

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin, participa de reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin, participa de reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O comandante da 36ª Brigada de Fuzileiros Navais da Ucrânia, Serhiy Volynsky pediu para que militares e civis em Mariupol, cidade ucraniana sitiada pelos russos, sejam retirados da fábrica de Azovtal. Em mensagem em vídeo, divulgada nesta quarta-feira (20) por veículos ucranianos de imprensa, Volynsky disse que "este pode ser o último apelo". "Podemos ter alguns dias ou horas restantes." Ao menos 500 militares estariam feridos no local, que também abriga civis.

O Ministério da Defesa da Rússia renovou o ultimato aos militares ucranianos na siderúrgica de Azovtal, em Mariupol, no sul da Ucrânia. O prazo era até as 8h, horário de Brasília, desta quarta-feira (20), 56º dia da guerra da Rússia em território ucraniano. Passado o horário, não houve rendição ucraniana até o momento nem nova manifestação russa a respeito. A fábrica é o principal bastião de resistência restante em Mariupol.

No mesmo horário, haverá um corredor de evacuação, que o governo da Ucrânia disse que conseguiu negociar. "Dada a catastrófica situação humanitária em Mariupol, é nessa direção que hoje vamos concentrar nossos esforços", disse a vice-primeira-ministra da Ucrânia, Iryna Vereshchuk. "Conseguimos acordar antecipadamente um corredor humanitário para mulheres, crianças e idosos."

O prefeito de Mariupol, Vadym Boychenko, também pediu aos moradores que evacuem a cidade. "Já 200 mil moradores de Mariupol conseguiram deixar a cidade. Hoje essas pessoas estão seguras." Boychenko estima que 6 mil civis serão retirados de Mariupol.

A ofensiva russa para tomar o leste ucraniano continua hoje com centenas de ataques. O Ministério da Defesa da Ucrânia disse que a Rússia "está tentando continuar as operações" de ataque no leste "para estabelecer controle total sobre o território das regiões de Donetsk e Lugansk", que formam o Donbass, área separatista. "O inimigo não para de lançar mísseis e bombardeios contra a infraestrutura militar e civil em toda a Ucrânia".

Sobre negociações para o fim da guerra, a Rússia disse hoje que "a bola está do lado" ucraniano. Também nesta quarta (20), o presidente russo, Vladimir Putin, voltou a dizer que foi "forçado", não teve alternativa a não ser lançar a "operação militar especial" por causa dos grupos pró-Rússia nas áreas separatistas da Ucrânia.

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), mais de 5 milhões de pessoas já deixaram a Ucrânia em razão do conflito promovido pela Rússia.

Apelo

Segundo o comandante da 36ª Brigada, há dez russos para cada militar ucraniano em Mariupol. "Eles têm domínio no ar, na artilharia, em pessoal operando em terra, em equipamentos e tanques", disse Volynsky no vídeo. "Estamos apenas defendendo em um local, a fábrica de Azovstal, onde, além de militares, há também civis que são vítimas da guerra."

O comandante fez um apelo "aos líderes mundiais" por ajuda. "Estamos pedindo para aplicar o procedimento de "extração'", indicando que gostariam de ser levados para um outro país.

Segundo Volynsky, no local, há mais 500 militares feridos, e centenas de civis, incluindo crianças e mulheres.

"Enquanto a Rússia lança cinicamente bombas pesadas na cabeça das pessoas, nossos militares relatam que há 500 soldados feridos e várias centenas de civis no território da usina", disse o Centro de Comunicações Estratégicas e Segurança da Informação da Ucrânia, que alega que os ataques a Azovstal continuam.

O Ministério da Defesa da Rússia disse que, suas Forças Armadas, "guiadas por princípios puramente humanos", deram um novo prazo hoje "para interromper quaisquer hostilidades e depor as armas". "A todos que depuseram as armas foi garantida a preservação da vida." Segundo a agência russa RIA, cinco soldados ucranianos entregaram-se em Mariupol. A informação não pôde ser verificada com fontes independentes.

O exército russo e seus partidários separatistas tentam há quase dois meses assumir o controle de Mariupol, uma grande cidade portuária devastada pelos bombardeios e à beira da catástrofe humanitária. Os últimos ucranianos que defendem a cidade estão entrincheirados principalmente no complexo metalúrgico de Azovstal, um conjunto de fábricas e passagens subterrâneas das quais as forças russas tentam expulsá-los.

Sobre Mariupol, a Defesa ucraniana, em seu relatório de hoje, apenas disse que "os principais esforços do inimigo estão focados na captura da cidade, continuando o assalto na área da usina".

Em seu relatório de hoje, a Defesa russa disse que "1.053 objetos da infraestrutura militar ucraniana" foram atacados. "Entre eles, 31 postos de comando, seis depósitos de combustível e lubrificantes, 910 redutos inimigos e áreas de concentração de mão de obra, bem como 106 postos de tiro de artilharia foram destruídos", disse o comunicado.

A Ucrânia, por sua vez, também disse que atingiu alvos militares russos, "usando todas as armas de fogo disponíveis: mísseis antiaéreos, sistemas portáteis de mísseis antiaéreos, incluindo estrangeiros, armas antiaéreas e outros meios de destruição".

Ontem, ao menos nove equipamentos aéreos da Rússia foram destruídos no sul e no leste da Ucrânia. As informações, tanto de russos quanto de ucranianos, não puderam ser verificadas com fontes independentes.

A Defesa ucraniana, porém, reforçou a reclamação de que "não recebeu novas aeronaves de parceiros". Mas indicou que, "com a ajuda do governo dos Estados Unidos, a Força Aérea da Ucrânia recebeu peças de reposição e componentes para a restauração e reparo da frota de aeronaves".

Além de Mariupol, os combates são mais intensos na região leste da Ucrânia. O Ministério da Defesa ucraniano relatou hoje "tentativas de ataque" nas localidades de Sulygivka e Dibrivne, na região de Kharkiv, assim como nas importantes cidades de Rubizhne e Severodonetsk, na região de Lugansk.

O governador de Lugansk, Serguei Gaidai, fez um novo apelo para que os civis fujam da área. "A situação fica mais complicada a cada hora", advertiu. Os bombardeios também se intensificaram sul, outra linha de frente. As localidades de Mala, Tokmak e Orekhov, 70 quilômetros ao sudeste de Zaporizhzhia, sofreram com o aumento da violência.

Autoridades de Mykolaiv, no sul da Ucrânia, estão acusando a Rússia de querer criar uma "nova Mariupol" na cidade, atacando o fornecimento de infraestruturas civis para forçar uma rendição dos militares que defendem o local. "Não temos mais água por causa dos bombardeios nas estruturas vitais para a população e agora estão tentando fazer isso com a eletricidade", disse o assessor de comunicação da prefeitura, Dmytro Pletenchuk, à agência Ansa.

Mykolaiv, capital de uma região homônima, foi muito atacada hoje e o prefeito local, Oleksandr Senkevich, pediu para que os cidadãos se escondam em refúgios contra ataques aéreos, conforme informou o jornal "Kyiv Independent". Já o portal Ukrinform, citando fontes locais, disse que os ataques desta quarta destruíram o principal hospital da cidade. A cidade ucraniana fica próxima ao Mar Negro e é um dos alvos da nova ofensiva russa.

Negociações

A Rússia disse ter entregue à Ucrânia um "projeto de documento" para um acordo, falou o porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, segundo a agência russa Tass. "[O documento] inclui formulações absolutamente claras elaboradas. A bola está do lado deles, estamos esperando uma resposta", disse ele hoje, sem entrar em detalhes sobre os pontos do acordo.

Segundo Peskov, Putin avalia que "o lado ucraniano está constantemente se desviando dos acordos previamente estabelecidos". "Isso tem consequências muito ruins em termos de eficácia das negociações." O porta-voz também disse acreditar que "a dinâmica do trabalho do lado ucraniano deixa muito a desejar", com a Ucrânia não demonstrando "grande inclinação para intensificar o processo de negociação".

"História não esquecerá"

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, esteve em Borodianka, perto de Kiev, cenário de "massacres" de civis, segundo as autoridades ucranianas. "Em Borodianka, como em Bucha e tantas outras cidades da Ucrânia, a História não esquecerá os crimes de guerra que foram cometidos aqui", afirmou o dirigente da UE (União Europeia). "Não pode existir paz sem justiça", acrescentou.

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