UE e Londres confirmam 'divergências' no início de negociação comercial

Por Toni CERDÀ con Anna CUENCA en Londres
(2 mar) O negociador britânico para o Brexit, David Frost, e o negociador-chefe da União Europeia, Michel Barnier, em Bruxelas

Sem surpresas, a primeira rodada de negociações sobre o futuro relacionamento entre a União Europeia (UE) e o Reino Unido serviu para confirmar suas "divergências", que devem ser resolvidas em tempo recorde antes do final de 2020.

Pesca, governança do acordo ou como evitar concorrência desleal são algumas das divergências, "significativas", segundo Londres, ou "sérias" para o negociador europeu Michel Barnier, algo em que concordam.

Ambas as partes terminaram nesta quinta-feira seus primeiros quatro dias de negociação sobre seu futuro relacionamento, que deve terminar antes de 31 de dezembro pela recusa de Londres de estender as discussões.

"A equipe britânica deixou claro que, em 1º de janeiro de 2021, recuperaremos nossa independência jurídica e econômica e que o relacionamento futuro deve refletir esse fato", afirmou o governo britânico em comunicado.

A tarefa é difícil. Os negociadores devem manter uma estreita relação econômica e humana de quase meio século, que Londres encerrou em janeiro, embora continue a cumprir as regras europeias até o final do ano.

Prova disso são os 318,7 bilhões de euros em 2019 nas exportações dos atuais 27 países do bloco para o Reino Unido, de onde foram importados por 193,8 bilhões, segundo dados da Comissão Europeia.

Cerca de 100 pessoas, em torno de dez mesas temáticas de negociação, participam das discussões que serão retomadas em 18 de março em Londres e ocorrerão alternadamente com Bruxelas a cada duas ou três semanas.

"Esperamos continuar essas conversas no mesmo espírito construtivo", disse o porta-voz do governo britânico. Enquanto isso, Barnier continua "acreditando" em poder fechar um "bom negócio para ambas as partes".

- Múltiplos acordos -

A pesca é o principal obstáculo a ser eliminado. Ambas as partes se comprometeram em novembro a chegar a um acordo sobre o acesso dos pesqueiros europeus às águas britânicas até junho.

O negociador europeu reiterou nesta quinta-feira que o acordo "deve incluir uma solução equilibrada para a pesca", uma questão delicada para os europeus, considerando a posição britânica "impraticável".

Londres quer negociar todos os anos o acesso dos europeus às suas águas, como a UE já faz com a Noruega, embora a negociação com os noruegueses seja de "cinco espécies" e não de "uma centena", diferenciou Barnier.

Outra diferença são as condições para evitar concorrência desleal, chaves para uma UE que teme que o Reino Unido reduza seus padrões trabalhistas, ambientais ou fiscais para prejudicar a economia europeia.

Os britânicos reiteram seu compromisso de aplicar altos padrões nesses campos. "Se concordamos em compartilhar altos padrões, por que não refletir isso formalmente?", questionou o negociador europeu.

O papel reservado ao Tribunal de Justiça da UE (TJUE) como garantidor do cumprimento do futuro acordo, conforme solicitado pela UE, não convence Londres, nem a Convenção Europeia de Direitos Humanos.

O governo britânico se recusa a prometer respeito por essa convenção, explicou Barnier, para quem o tribunal superior europeu deve ser o único capaz de decidir sobre os direitos dos cidadãos europeus.

Embora a UE espere um acordo global, Londres pede que esses aspectos sejam refletidos em "uma infinidade de acordos particulares", segundo o negociador europeu, o único a aparecer em uma coletiva de imprensa nesta quinta-feira.

O Reino Unido quer um "acordo de livre-comércio" como o negociado entre a UE e o Canadá. E, em questões diplomáticas, explicou que não está interessado em outro em questões de cooperação em política externa e defesa.