UE quer proclamar unidade em seu 60° aniversário, mesmo com Brexit

Por Philippe AGRET
A notificação oficial pelo Reino Unido de sua decisão de abandonar a União Europeia (UE) representará a primeira etapa na corrida de dois anos de negociações para o Brexit, que pode ser concretizado em 2019

É uma Europa em plena tempestade que irá comemorar neste fim de semana, em Roma, o 60º aniversário de seu tratado fundador, proclamando sua unidade e seu "futuro comum", superando os ventos da discórdia, dúvida e o desafio populista.

A celebração será assombrada pelo Brexit, cujo lançamento será feito pelo Reino Unido quase imediatamente depois, em 29 de março.

Brexit, onda migratória, crise econômica, terrorismo, isolacionismo: Concebida por seis países para reconstruir a Europa após a Segunda Guerra Mundial, a União Europeia a vinte e sete corre o risco de desaparecer?

Todos - dos federalistas aos nacionalistas - concordam em reconhecer que a UE atravessa a pior crise desde o seu nascimento, em 25 de março de 1957, em Roma.

"O momento atual é o de imaginar que todos nós podemos fazer a mesma coisa juntos", admitiu recentemente o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que defende "uma Europa a várias velocidades".

- Declaração de Roma -

Há 60 anos, Alemanha, França, Itália e os países do Benelux se comprometeram em "estabelecer os fundamentos de uma união cada vez mais estreita entre os povos europeus".

Sábado, em Roma, os chefes de Estado e de Governo dos 27 da UE vão se reunir no Salão dos Horácios e Curiatii onde o tratado histórico foi assinado (na verdade, dois tratados: um econômico, outro atômico).

O encontro acontecerá sem a britânica Theresa May, que decidiu ativar o processo de separação do bloco europeu quatro dias depois.

Em uma declaração solene, os 27 vão afirmar sua "determinação em tornar a União mais forte e mais resistente, graças a uma maior unidade e solidariedade entre nós". Uma "união indivisível", em reação ao Brexit.

"Roma deve marcar o início de um novo capítulo" para uma "Europa unida a 27", estima Jean-Claude Juncker.

Mas, além da profissão de fé e "belas palavras", os líderes europeus sabem que a UE, se quiser se salvar, deve "se aproximar de seus cidadãos", conforme solicitado pelo presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, em um artigo na jornal francês Le Monde.

Trata-se de responder aos populistas que, como a francesa Marine Le Pen, presidente do partido Frente Nacional (FN), denunciam em nome do "povo" as "derivas totalitaristas" da UE e defendem a saída do euro.

- União em diferentes velocidades -

Para fazer avançar o projeto europeu, o presidente da Comissão revelou em 1º de março, em um "Livro Branco" sobre o futuro pós-Brexit, cinco pistas de reformas da UE.

Um dos cenários sugere "uma reorientação" para o mercado único, para levar em conta o fato de que os 27 "não são capazes de encontrar um terreno comum em um número crescente de assuntos".

Outro propõe "fazer muito mais juntos", na direção de um Estado federal, por meio da expansão da divisão de poderes entre os 27 e acelerando a tomada de decisões da UE.

Entre as duas opções, faixas intermediárias são desenhadas, como a de uma Europa "a várias velocidades" - apoiada por Paris e Berlim - "onde aqueles que querem mais possam fazer mais juntos", por exemplo em termos de defesa, segurança ou União econômica e monetária (UEM).

Correndo o risco de reforçar a impressão "de um sistema complicado", tornando a UE "ainda mais incompreensível do que hoje" para meio bilhão de cidadãos.

"A Europa diferenciada já é uma realidade - alguns países pertencem a zona do euro, alguns não - sem que isso motive os menos integrados a acelerar o passo", explica à AFP Charles de Marcilly, responsável em Bruxelas da Fundação Schuman.

No entanto, uma União em "velocidades diferentes" choca-se contra a recusa dos países da Europa Oriental e Central, últimos a entrar no bloco, que temem ser excluídos do "clube" em razão de sua hostilidade recorrente aos projetos de Bruxelas, como demonstrado por Varsóvia na última cúpula da UE.

"Na verdade, aqueles que temem este mosaico europeu, temem ser relegados para a segunda divisão", observa Marcilly.

"Além disso, o equilíbrio vai ser sutil para avançar sem excluir, progredir sem estigmatizar", prevê ele, observando que "as eleições de 2017 (na França e na Alemanha) não permitem grandes compromissos: não define-se as táticas sem conhecer seu capitão e a força da sua equipe".