UE terá que se acostumar a viver sem a liderança dos EUA

Christian SPILLMANN
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Americana comemora vitória de Joe Biden em Wilmington, Delaware, em 7 de novembro
Americana comemora vitória de Joe Biden em Wilmington, Delaware, em 7 de novembro

A vitória eleitoral de Joe Biden permitirá à União Europeia reconquistar os Estados Unidos como aliado, mas terá que assumir que Washington não será mais o gendarme mundial ou o grande protetor da OTAN, alertam dirigentes e analistas.

Teremos de "reconstruir a nossa aliança", afirmou o chefe da diplomacia europeia Josep Borrell, resumindo a situação em sua mensagem de felicitações a Biden.

Os desentendimentos políticos e militares em várias partes do mundo começaram com Barack Obama e Joe Biden, quando ele era seu vice-presidente. Donald Trump continuou, mas de forma mais brutal, criando fortes tensões com a União Europeia (UE).

Biden poderá recuar? 

Jean-Claude Juncker, ex-presidente da Comissão Europeia, duvida.

"Joe Biden não vai mudar a abordagem de Washington aos problemas internacionais da noite para o dia, porque ele não pode", diz.

No caso de maioria republicana no Senado, o governo Joe Biden seria como o "patinho feio", avalia Nathalie Tocci, diretora do Instituto Affari Internazionali.

Para o cientista político alemão Markus Kaim, "os Estados Unidos vão se concentrar em si". Consequentemente, "os europeus devem aprender a viver sem a liderança global americana", opina Sebastien Maillard, diretor do Instituto Jacques Delors.

- "Despertar difícil" -

As coisas poderão ser mais fáceis, mas "não devemos esperar uma mudança radical", afirmam fontes próximas aos presidentes das instituições europeias. 

"Acreditar num retorno à idade de ouro do vínculo transatlântico é ignorar a evolução dos Estados Unidos e o contexto internacional", alerta o eurodeputado francês Arnaud Danjean, especialista em questões de defesa, que prevê "um difícil despertar" após uma breve euforia.

A UE terá de continuar a reforçar sua "autonomia estratégica" nos domínios da economia e da segurança para defender os seus interesses, insistem diplomatas e cientistas políticos.

No entanto, Mujtaba Rahman, diretor do escritório europeu da empresa de análise de risco Eurasia Group, ressalta que nem tudo será negativo.

"Com Biden como presidente, a relação pode se tornar muito mais previsível e construtiva em questões como comércio, OTAN, Irã, Oriente Médio e, principalmente, sobre mudanças climáticas, se os EUA voltarem a aderir ao Acordo de Paris", afirma. 

Biden já afirmou que quer voltar ao Acordo do Clima de Paris, à Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao acordo nuclear com o Irã. 

O comércio também deve operar com menos atrito do que nos anos Trump.

No entanto, há questões em que Biden provavelmente não fará grandes mudanças, como a demonstração de força dos EUA contra a China e o desejo de reduzir o envolvimento americano em guerras sem fim.

De acordo com Nicole Koenig, especialista em defesa do Instituto Jacques Delors, essas posições são populares nos Estados Unidos.

- Divisão do trabalho -

As decisões unilaterais de Trump e seu péssimo relacionamento com alguns dos líderes dos países da OTAN criaram tensões e divisões dentro da aliança militar.

Seu secretário-geral, Jen Stoltenberg, gastou muita energia "para apaziguá-lo", disse um diplomata.

No sábado, Stoltenberg foi rápido em felicitar a vitória de Biden, "um defensor convicto da Aliança". 

A OTAN pode esperar uma normalização com Biden, mas analistas acreditam que Washington se concentrará em seus próprios interesses. 

"Isso será desconfortável para os europeus", cujos membros da OTAN estão divididos entre um lado 'pró-europeu' e um 'atlantista', ressalta Markus Kaim.

"As ilusões de autonomia estratégica europeia devem acabar: os europeus não serão capazes de substituir o papel crucial dos Estados Unidos como provedor de segurança", advertiu a ministra da Defesa alemã, Annegret Kramp-Karrenbauer (declarada 'atlantista'), em artigo de opinião para o site Politico. 

"Nunca voltaremos ao mundo de antes, com a proteção e a benevolência sistemática dos Estados Unidos", apontou o secretário de Estado francês para Assuntos Europeus, Clement Beaune.

Kaim sugere uma solução intermediária: Biden irá propor "uma divisão simples do trabalho, com mais responsabilidades para os europeus pela segurança e estabilidade de seus vizinhos, para permitir que os Estados Unidos se envolvam mais na Ásia".

csg/fmi/ahg/erl/es/mr