'Um aborto clandestino é o pior horror pelo qual uma mulher pode passar', diz Annie Ernaux na Flip

Os aplausos demoraram a cessar quando a Nobel de Literatura Annie Ernaux entrou no palco da 20ª Festa Literária Internacional de Paraty na tarde deste sábado (26). Ela participou da mesa “Diamante rubro” ao lado da escritora gaúcha Veronica Stigger e da mediadora, a editora e crítica literária Rita Palmeira.

— Boa tarde a todos. Estou muito feliz de estar aqui. Espero que possamos ficar uma hora juntos falando de literatura e da vida, porque são a mesma coisa — disse a escritora francesa, novamente aplaudida com entusiasmo pela plateia.

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Ernaux falou sobre literatura, aborto, vergonha social e o conceito de “trânsfuga de classe”, que anima suas obras. Após ressaltar a presença expressiva de mulheres nesta edição da Flip, a mediadora perguntou a Ernaux sobre o Prêmio Nobel. A francesa estava na cozinha de casa, acompanhada dos dois gatos, quando ouviu no rádio que havia sido premiada pela Academia Sueca. Naquele momento, sentiu-se partida ao meio, como se estivesse, ao mesmo tempo, em casa e lançada ao mundo pelo prêmio, que chamou de “esmagador”. Afirmou ainda desejar que o prêmio não a impeça de desfrutar a velhice.

— Tive a sensação de que talvez o Nobel me impedisse de viver intensamente um período da minha vida. Pode ser surpreendente para alguns que eu considere a velhice um período intenso. A velhice não é o inverno da vida, mas uma quinta estação, diferente das outras, com novas sensações, novos pensamentos e novas maneiras de considerar os outros e as coisas — disse. — A velhice é um período rico, não é um fracasso, como dizia o general De Gaulle na minha infância. Vou assumir o peso do prêmio Nobel, mas com certos limites.

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Vários livros de Ernaux foram citados na conversa. Em especial, “O acontecimento”, no qual ela narra um aborto feito nos anos 1960, quando era uma estudante de letras e a interrupção voluntária da gravidez ainda era ilegal na França. A escritora descreve um aborto clandestino como “o pior horror pelo qual uma mulher pode passar”. Ela lembrou que, antes de “O acontecimento”, já havia descrito seu aborto em um romance de ficção, “Les Armoires vides” (Os armários vazios, inédito no Brasil). No entanto, 30 anos depois, quando a prática já era legal na França, decidiu revisitar todo aquele horror.

— Quis retomar tudo minuto a minuto, mostrar o que acontece com uma mulher quando o aborto é proibido, como arrumar dinheiro para o aborto quando você não é rico, como achar alguém que faça o aborto. A questão nunca foi um desejo de interromper a gravidez, mas de ser tão livre quanto os homens — afirmou. Nesse momento, os gritos de celebração do público que assistia à mesa pelo telão na praça foram ouvidos dentro do Auditório da Matriz.

Veronica Stigger tomou a palavra para dizer que “O acontecimento” é o seu favorito de todos os livros de Ernaux.

— Porque ele mostra toda a violência inacreditável que uma mulher sofre por não ter controle total do próprio corpo — afirmou a escritora, também aplaudida pelo público.

Ernaux também foi convidada pela mediadora a refletir sobre o conceito de “trânsfuga de classe”, que ela emprestou da sociologia e que nomeia aquele que superou seu meio social de origem e ascendeu (como a própria escritora, nascida numa família operária da Normandia). A francesa contou que já era uma autora publicada há uma década quando descobriu o termo. Quis, então, encarná-lo na literatura para mostrar como as distinções sociais aparecem, "precisa e concretamente", nos detalhes do cotidiano: nos códigos, na linguagem, na visão de mundo.

— Com frequência, as crianças do meu meio social pensavam que não eram aptas ao estudo. Não parecia normal alguém como eu ir bem na escola. É esse tipo de coisa que acaba gangrenando a sociedade: pensar que existem pessoas que são superiores as outras e por isso merecem viver bem, os herdeiros. Enquanto os outros tentam ascender, não conseguem e pensam ser por conta de algo inato. Quando a verdade é que existem condições de vida e de trabalho que fazem com que as coisas sejam dessa maneira — afirmou.

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A escritora também falou do início de sua carreira ao comentar o filme “Os anos do Super-8”, feito a partir de colagens de vídeos caseiros da família Ernaux gravados entre os anos 1970 e 1980. O filme tem narração da escritora e direção de seu filho, David. Foi exibido no cinema de Paraty na última quinta-feira (24), no horário do jogo do Brasil. O filme mostra o cotidiano da família Ernaux, mas também viagens a países como o Chile de Allende, o Portugal pós-Revolução dos Cravos, a Espanha após o fim da ditadura fascista, a Albânia socialista e a União Soviética. Eram anos de efervescência política em todo mundo, lembrou Ernaux.

Na época em que foram gravados os vídeos, Ernaux escrevia secretamente seu primeiro livro, “Les Armoires vides”, inspirado em sua própria vida, na relação com a mãe (que vivia com ela àquela altura) e com o marido (de quem se separou no início dos anos 1980).

— Trata-se da história de uma mulher que volta a escrever e sobre como isso se torna o elemento mais importante de sua vida. E também sobre sua lenta separação do marido — disse. — No livro, eu revelava coisas fortes e violentas sobre meu marido e minha mãe. Era autobiográfico e perigoso, mas eu o assumi totalmente. Estava certa ao escrevê-lo em segredo. Se não fosse em segredo, me sentiria menos livre para seguir meu desejo de não esconder nada. Com aquele livro, eu rompi com a vida em que me encontrava. Eu estava me preparando para viver outra vida.

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Em seus livros, Ernaux escreve com frequência sobre a vergonha. Tanto que “A vergonha” é o título de um de seus livros, que narra como o pai tentou matar a mãe. Oportunamente, uma pessoa na plateia enviou uma pergunta à escritora: ela conseguiu se livrar da vergonha?

— Escrevo para que a vergonha não seja pessoal, mas um fato social. O que é a vergonha? São as diferenças sociais interiorizadas que nos fazem nos sentir inferiores. A escrita, para mim, foi o que de mais importante ocorreu na minha vida. A vergonha escrita já não é mais a vergonha vivida.

Ao final da mesa, Ernaux comentou os ataques que sofreu após o anúncio do Nobel. Setores da direita francesa afirmaram que ela não tinha legitimidade para receber o prêmio por escrever de maneira tão crua. Mas ela disse se orgulhar de ser a primeira mulher francesa a receber o Nobel de Literatura e afirmou querer que sua escrita seja “uma fonte de liberdade”.