Um ano após queimadas recordes, Pantanal tem pior seca das últimas 5 décadas

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Rio Cuiabá sem inundações durante a seca de 2020 forma meandros na planície de Barão de Melgaço. Barão de Melgaço/MT, 27.ago.2020 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Rio Cuiabá sem inundações durante a seca de 2020 forma meandros na planície de Barão de Melgaço. Barão de Melgaço/MT, 27.ago.2020 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

O Pantanal brasileiro, bioma brasileiro com a maior densidade de mamíferos do mundo, passa pela pior seca dos últimos 50 anos, um ano após os maiores incêndios florestais registrados na região. 

Na semana passada, o rio Paraguai, principal da região, atingiu o nível de 0,40m pelo registro da Marinha na região de Corumbá, o mais baixo para o período desde 1971. 

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Uma marca que poderia ser superado ainda neste ano: “Diante dessa seca que estamos atravessando em toda a região centro-sul, acredito que podemos superar esse recorde”, afirma Cátia Nunes da Cunha, professora da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) e pesquisadora do Centro de Pesquisas do Pantanal. 

Nascida e crescida em Poconé, na região pantaneira, Nunes é uma das maiores especialistas e vem estudando, entre outros temas, as dinâmicas climáticas do Pantanal, e alerta para o risco deste ser o início de um longo período de secas, fruto de mudanças climáticas globais, que poderá resultar em incêndios ainda maiores.

O levantamento exclusivo feito pela reportagem do Yahoo! Notícias usa como referência a régua de medição da Marinha do Brasil mantida desde 1900 na cidade de Ladário, no Mato Grosso do Sul, um dos mais antigos registros fluviais do Brasil. Naquele distante 1971 a régua atingiu o nível de -0,57m em setembro, após 8 anos sem inundações. 

A pesca recreacional é um dos principais atrativos turísticos da região, e é afetada pela queda do nível do rio Cuiabá, na bacia do rio Paraguai, assim como a pesca de subsistência. Barão de Melgaço/MT, 26.ago.2020 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
A pesca recreacional é um dos principais atrativos turísticos da região, e é afetada pela queda do nível do rio Cuiabá, na bacia do rio Paraguai, assim como a pesca de subsistência. Barão de Melgaço/MT, 26.ago.2020 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

As planícies inundáveis do Pantanal só voltaram a ver água em 1974. Os dez anos de seca causaram um impacto que levou 30 anos para se recuperar no ambiente, enquanto uma transformação social ocorreu: muitos criadores de gado abandonaram as áreas com as cheias. Estas fazendas descuidadas acumularam vegetação combustível que, com a chegada da seca atual no ano passado, estourou nos incêndios registrados.

Nunes explica que esta seca pode ser uma grande seca da região, prevista há muito por especialistas. 

Após quatro décadas de grandes enchentes relativamente constantes, o Pantanal não inundou em 2020, na pior seca em 47 anos, impulsionando os incêndios fora de controle que, ao todo, queimaram 26% de seu território. Apenas no Mato Grosso, quase metade da sua área foi consumida pelo fogo, incluindo a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Sesc Pantanal, que perdeu mais de 80% da sua vegetação.

“Eu era criança na década de 1960 e começo de 1970, último período de grandes secas, e lembro dos meus avós com medo, achando que era o fim do mundo com o fogo, a seca, a sede. Os animais magros, e onde havia um pouco de água, atolavam e morriam no frio de julho”, recorda Nunes. “O pantaneiro tem medo é da seca, não de morrer afogado”.

“Acontece que naquela época não havia a interferência no meio ambiente que existe hoje, sobretudo nas cabeceiras dos rios; hoje temos agricultura irrigada no planalto, captação de água, abuso dos lençóis freáticos, então há uma sinergia de fatores climáticos e humanos afetando o Pantanal e que é muito perigoso”, diz ela.

A maior seca já registrada no centro-sul em 111 anos, e que vem deixando os reservatórios do maior núcleo de geração hidrelétrica do país vazios, além de ameaçar produtores de gado, leite e até milho da região, é fruto de uma soma de fenômenos climáticos.

Segundo a professora do curso de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Itajubá, desde 1995 o Oceano Atlântico vem se aquecendo mais com o aquecimento global, e mais ao norte do Equador, o que resulta em menos chuvas sobre a floresta Amazônica, que por sua vez é principal fonte de umidade e chuvas sobre o centro-sul do país. 

“O aquecimento do Oceano já está deslocado; aí o homem vem e afeta a hidrologia local, tanto na Amazônia quanto no Sudeste, o que leva a ter menor umidade nos chamados rios voadores, e menor efeitos deles”, comenta a docente. O pesquisador do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) Manoel Gan ressalta a relação entre o desmatamento e as secas.

Exploração de rios voadores e subterrâneos agravam crise anunciada - Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias
Exploração de rios voadores e subterrâneos agravam crise anunciada - Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias

‘Existem uma relação entre mais queimadas e desmatamento independentemente da ação do homem, mas a interferência humana aumenta ainda mais esse impacto. Se você tira uma área da floresta, perde não só a vegetação que evapotransipra, mas a umidade do solo, e é uma umidade que deixa de ir para outras regiões como o Sudeste”.

Prejuízos além da fronteira

Enquanto o resto do Brasil vive a apreensão de um possível apagão elétrico até o final do ano, moradores ao longo da bacia do alto Rio Paraguai já sentem os impactos de dois anos de pouca água, secura e chamas. 

Agostinho Catella, pesquisador de recursos pesqueiros da Embrapa Pantanal, conta que para se desenvolverem, os peixes do Pantanal necessitam das áreas alagadas, onde passam até dois anos se alimentando para então tomarem os rios. Com o baixo nível, a população de pescados vem diminuindo, o que é sentido por pescadores.

“Temos aproximadamente 8.000 pescadores profissionais que trabalham com 5.000 toneladas de peixes por ano, e uma renda direta dessas vendas de R$ 70 milhões. Muitos vêm relatando a diminuição dos cardumes e a dificuldade de pescar, o que pode afetar diretamente uma população já vulnerável”, conta. “Isso sem mencionar a pesca recreacional, já que este é o maior destino no continente para este tipo de turismo, e a pesca de subsistência; estamos falando de uma ameaça à segurança alimentar de muitas famílias”, realça.

Para os próximos anos, Catella ainda se preocupa com os planos de construção de 133 hidrelétricas de pequeno porte em toda a bacia, afetando diretamente a reprodução dos peixes e que poderia ser o fim do pantanal turístico como é conhecido.

Joaquim Lopes, produtor rural, mostra a vegetação queimada pela seca e geadas deste ano. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Vegetação queimada pela seca e geadas deste ano. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

Outro setor que vem sendo afetado com a seca no rio Paraguai é o de transporte de cargas, uma área que envolve quatro países - Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina. Rafael Riva, gerente técnico da Câmara de Exportadores, Logística y Investimentos de Santa Cruz, no lado boliviano da fronteira, relata que há dois meses as barcas que fazem o transporte rio abaixo vem recebendo somente 60% da carga. 

O restante tem que enfrentar dois gargalos: o transporte rodoviário até portos no oceano Pacífico, já no Chile, e a mais de 1.200 km; e a aduana argentina, que tem capacidade limitada de trânsito. “Ano passado uma fabricante de óleo de soja às margens do rio teve de parar totalmente a produção porque o silo estava lotado e não conseguia escoar; esperamos que isso não volte a acontecer, mas o risco é grande”, afirma Riva.

Do lado brasileiro o cenário é semelhante. Filas de caminhões vêm se formando na BR-262, entre Corumbá e Campo Grande/MS para levar as cargas - sobretudo ferro e manganês - por 1.700 km para exportação pelo porto de Imbituba. 

E com a suspensão do transporte fluvial a partir de setembro, o setor teme o pior. “Ano passado foram seis meses funcionando e seis meses fechados, e isso vai se repetir este ano; dois anos sem o resultado esperado”, lamenta o gerente de logística em Ladário Luiz Dresch. O único lado positivo da questão é que com 95% da produção vendida ao exterior, o consumidor brasileiro pode torcer para não ter mais este custo repassado para seu bolso.

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