Um a cada três profissionais de saúde pública defendeu uso de droga sem comprovação contra Covid-19, diz pesquisa

Bruno Alfano
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Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo

RIO - Um a cada três profissionais de saúde pública defende uso de medicamento sem comprovação específica para Covid-19. Segundo a pesquisa “A pandemia de COVID-19 e os(as) profissionais de saúde pública no Brasil”, organizado pelo Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB FGV-EAESP), em parceria com a Fiocruz e com a Rede Covid-19 Humanidades, 66,2% defendem que drogas só devem ser usadas “com comprovação de eficácia” e 33,8% consideram que devem ser utilizadas “mesmo que não haja comprovação da eficácia desses medicamentos já que devemos fazer tudo o que é possível pelo(a) usuário(a)”.

— Esperávamos que, após tantos meses do início da pandemia, a situação dos profissionais de saúde estivesse melhor. Mas o cenário que encontramos é desalentador, fruto do descaso governamental: profissionais amedrontados, que se sentem despreparados e sem treinamento, que não receberam EPI ou testagem de forma permanente — diz Gabriela Lotta, coordenadora do NEB FGV EAESP e responsável pelo trabalho.

Quando os resultados são desagregados por profissão, 70% dos médicos entrevistados defendem medicamentos só com comprovação específica para a doença, taxa que cai para 61% entre profissionais da enfermagem.

O trabalho, antecipado à imprensa pela Agência Bori, inaugura uma nova série de resultados pesquisas de opinião com profissionais envolvidos no enfrentamento da pandemia. No dia 17, serão publicados os dados das entrevistas com assistentes sociais de todo o país.

Além disso, 52,2% dos respondentes afirmam que não receberam nenhum tipo de capacitação para lidar com a Covid-19. Dentre os agentes comunitários, a taxa de respondentes para aqueles que declaram que não tiveram treinamento sobe para 65,7% de quem participou da pesquisa. A resposta diz respeito à percepção do entrevistado sobre o que seria treinamento, o que pode ser interpretado como uma orientação ou conversa a um curso formal.

Quase todos os entrevistados (94,5%) dizem conhecer algum companheiro de trabalho com suspeita ou diagnóstico de Covid-19. Oito em cada dez revelam sentir medo da doença causada pelo novo coronavírus, mas apenas 28,4% dos respondentes afirmaram ter recebido algum tipo de apoio para cuidar da saúde mental.

Segundo último boletim epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde, divulgado em agosto de 2020, mais de 257 mil profissionais de saúde haviam sido infectados à época, sendo 88,3 mil técnicos e auxiliares de enfermagem, 37,3 mil enfermeiros, 27,4 mil médicos e 12,5 mil agentes comunitários de saúde.

No trabalho, foram entrevistados 1.520 profissionais da saúde pública no Brasil em survey online, realizado entre os dias 15 de setembro e 15 de outubro de 2020. Os resultados são frutos de uma amostra coletada não probabilística, a partir de respostas voluntárias ao questionário – o que não permite fazer generalizações para todo o universo de profissionais de saúde do país.