Um a cada três profissionais de saúde pública defende uso de droga sem comprovação contra Covid-19, diz FGV

Bruno Alfano
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Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Gabriel Monteiro / Agência O Globo

RIO - Um a cada três profissionais de saúde pública defende o uso de medicamento sem comprovação específica para Covid-19. A constatação é da pesquisa “A pandemia de COVID-19 e os(as) profissionais de saúde pública no Brasil”, organizada pelo Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB FGV-EAESP), em parceria com a Fiocruz e com a Rede Covid-19 Humanidades.

A pesquisa, feita com 1.520 profissionais da saúde pública de todo o país, mostra que 33,8% deles consideram que devem ser utilizadas drogas contra a Covid-19 “mesmo que não haja comprovação da eficácia desses medicamentos, já que devemos fazer tudo o que é possível pelo(a) usuário(a)”. A grande maioria, no entanto, 66,2%, defende que os medicamentos só devem ser usaoas "com comprovação de eficácia".

Os profissionais responderam a questionamentos online entre os dias 15 de setembro e 15 de outubro de 2020. As respostas foram todas voluntárias – o que não permite fazer generalizações para todo o universo de profissionais de saúde do país.

Quando os resultados são desagregados por profissão, 70% dos médicos entrevistados defendem medicamentos só com comprovação específica para a doença, taxa que cai para 61% entre profissionais da enfermagem.

O trabalho, antecipado à imprensa pela Agência Bori, inaugura uma nova série de resultados pesquisas de opinião com profissionais envolvidos no enfrentamento da pandemia. No dia 17, serão publicados os dados das entrevistas com assistentes sociais de todo o país.

Outro dado central da pesquisa é o de que 52,2% dos respondentes terem afirmado que não receberam nenhum tipo de capacitação para lidar com a Covid-19. Dentre os agentes comunitários, a taxa de respondentes para aqueles que declaram que não tiveram treinamento sobe para 65,7% de quem participou da pesquisa. A resposta diz respeito à percepção do entrevistado sobre o que seria o treinamento, que pode ser interpretado desde uma orientação ou conversa até um curso formal.

— Esperávamos que, após tantos meses do início da pandemia, a situação dos profissionais de saúde estivesse melhor. Mas o cenário que encontramos é desalentador, fruto do descaso governamental: profissionais amedrontados, que se sentem despreparados e sem treinamento, que não receberam EPI ou testagem de forma permanente — diz Gabriela Lotta, coordenadora do NEB FGV EAESP e responsável pelo trabalho.

Quase todos os entrevistados (94,5%) dizem conhecer algum companheiro de trabalho com suspeita ou diagnóstico de Covid-19. Oito em cada dez revelam sentir medo da doença causada pelo novo coronavírus, mas apenas 28,4% dos respondentes afirmaram ter recebido algum tipo de apoio para cuidar da saúde mental.

O mais recente boletim epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde, divulgado em agosto de 2020, informa que mais de 257 mil profissionais de saúde haviam sido infectados à época, sendo 88,3 mil técnicos e auxiliares de enfermagem, 37,3 mil enfermeiros, 27,4 mil médicos e 12,5 mil agentes comunitários de saúde.