Um caminho sem volta: vegetarianismo é necessário e tecnologia traz adeptos

Vegetarianismo: Amazonik Mundi é uma foodtech que produz proteínas veganas com a fibra de caju que antes era descartada pelas indústrias de suco e outras matérias-primas. Foto: Divulgação
Vegetarianismo: Amazonik Mundi é uma foodtech que produz proteínas veganas com a fibra de caju que antes era descartada pelas indústrias de suco e outras matérias-primas. Foto: Divulgação
  • Foodtechs se especializam em criar alimentos semelhantes aos com proteína animal utilizando vegetais;

  • Uma pesquisa do Ipec aponta que 46% da população brasileira deixa a carne de lado ao menos uma vez por semana;

  • Embrapa publicou um estudo que indica que a produção agrícola global precisa crescer 70%, até 2050.

Foi escutando uma música em casa que Thiago Roselem teve o insight que guiaria uma grande mudança em sua carreira. O empreendedor, que atuava no ramo de alimentos desde 2012, escutava ‘Tropicana’ de Alceu Valença, que em certo trecho diz “pele macia, é carne de caju”. Bastou essa frase para sua mente pipocar ideias inovadoras. Afinal, se existe uma carne de caju, tem a oportunidade do produto ser explorado.

Seguindo com a ideia, o destino se encarregou de dar vários “empurrõezinhos”. Ao entrar em contato com a Embrapa, Roselem foi conectado à pesquisadora Janice Lima, que já desenvolvia um estudo com a fibra da fruta e estava de mudança para o Rio de Janeiro, onde ele atuava. Depois de muita pesquisa e testes, chega ao mercado, em novembro de 2020, a Amazonik Mundi, uma foodtech (startups que atuam no ramo alimentício) que produz proteínas veganas com a fibra de caju que antes era descartada pelas indústrias de suco e outras matérias-primas, como o tucupi preto e a pimenta indígena assîsî.

Foodtech já produz toneladas de carne vegetal por dia, sendo só de hambúrguer 4.200 por hora. Foto: Divulgação
Foodtech já produz toneladas de carne vegetal por dia, sendo só de hambúrguer 4.200 por hora. Foto: Divulgação

“A ideia sempre foi de trabalhar com a floresta e não se apropriar dela. É um ‘colab’ com as comunidades indígenas e ribeirinhas para que a gente consiga, com eles, promover o trabalho que não precise cortar árvores ou fazer qualquer tipo de trabalho que não seja legal. Fazendo com que eles consigam tirar proveito disso e valorizar o que eles mais têm, que é a cultura”, explica Roselem. Menos de um ano depois, a foodtech já produz toneladas de carne vegetal por dia, sendo só de hambúrguer 4.200 por hora.

O investimento em mais pesquisas nessa área se torna essencial, já que a demanda por alimentos sustentáveis só tende a aumentar, seja pela consciência dos consumidores ou por uma necessidade mundial. A Embrapa publicou um estudo que indica que a produção agrícola global precisa crescer 70%, até 2050, apenas para alimentação da população, que deve chegar a 9,7 bilhões de pessoas, sem contar na necessidade de biocombustíveis e nas mudanças climáticas que podem limitar a produção.

“A preocupação é se vai ter comida e água para todo mundo (...) A capacidade de produção de proteínas de base vegetal é mais eficiente do que a de proteína animal. Esse espaço do vegetarianismo, do veganismo, ele vem a corroborar para que a gente tenha uma estratégia de aporte protéico e que também a gente tenha uma alimentação mais sustentável”, comenta André Dutra, chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

Alguns movimentos, como o Segunda Sem Carne, colaboram para a redução do consumo de proteína animal. Uma pesquisa do Ipec (2021), a pedido da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), aponta que 46% da população brasileira deixa a carne de lado ao menos uma vez por semana e que um terço da nação busca opções veganas em seus cardápios.

“Se você pensar hoje nas terras agrícolas, 77% delas estão sendo usadas para a pecuária, e só são responsáveis por 18% das calorias. Então, você vê aí uma ineficiência. Se a gente tá pensando que a população daqui a pouco vai chegar em 10 bilhões, a gente tá usando ineficiente. Se a gente tirar os animais dessa equação, realmente a gente tem uma área produtiva", indica Mônica Buava, diretora executiva da Sociedade Vegetariana Brasileira.

À frente do projeto Segunda Sem Carne no Brasil, Mônica identifica que a resistência das pessoas ao vegetarianismo está ligada ao estranhamento de ficar sem carne e acredita que a troca de ingredientes realizada pelas foodtechs facilita a adaptação. “Mudança de hábito é muito difícil. Eu acho que o papel da foodtech é fazer o link do coração da pessoa com a cabeça, para ela continuar fazendo os hábitos que ela tinha com esses análogos que ajudam nessa transição”, explica.

Lasanhas, bifes, feijoada e até moqueca vegetal

Enfrentando um dos mercados mais carnívoros do país, entre os gaúchos de Porto Alegre-RS, a Urban Farmacy surgiu da necessidade de incentivar uma dieta rica em plantas e teve que criar produtos que trazem para o paladar a sensação da carne. “Existe um grande desconhecimento por parte das pessoas da culinária à base de plantas. Ficou claro que a narrativa de falar em excluir alimentos de origem animal acabava afastando as pessoas e também há complexidade no preparo, que muitas vezes ia pro lado gourmetizado”, conta Tobias Chanan, fundador e co-CEO da foodtech.

Urban Farmacy produz comida congelada em um cardápio todo à base de plantas. Foto: Divulgação
Urban Farmacy produz comida congelada em um cardápio todo à base de plantas. Foto: Divulgação

Oferecendo lasanhas, bifes, feijoada e até moqueca, a Urban produz comida congelada em um cardápio todo à base de plantas, com receitas cotidianas em versões mais saudáveis e com menos impacto ambiental, sem perder no sabor. Em menos de um ano em operação, já soma mais de 5 mil clientes e 40 itens em portfólio. Chanan ainda aponta um desafio para o avanço do setor. “É preciso tornar essa alimentação mais acessível. A gente precisa ter políticas públicas e incentivos que impulsionem a alimentação à base de plantas, assim como existe na carne, que tragam essa possibilidade de escalar a sua produção para que possa ser competitiva no mercado”, afirma.

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