Um decepcionante triunfo

Ao ganhar as eleições, em 2016, Donald Trump impulsionou a propagação de uma extrema direita grosseira e incrivelmente burlesca, mas muito perigosa, que tem vindo a corromper democracias, um pouco por todo o mundo, através da mais antiga arma de subversão em massa: a mentira.

As eleições de meio de mandato nos EUA, ainda sem resultados definitivos, podem não ter um vencedor claro. Contudo, já têm um derrotado: Donald Trump.

O próprio Trump reconheceu essa derrota, embora recorrendo à lógica retorcida e falaciosa que o celebrizou: “De certa forma, as eleições foram algo decepcionantes”, escreveu na rede social que ele mesmo criou, a Truth Social, acrescentando, logo a seguir: “Do meu ponto de vista tivemos uma grande vitória”. Ou seja: foi um decepcionante triunfo.

Já Biden, que temia a “onda vermelha” prometida por Trump, e anunciada por diversas sondagens, congratulou-se com a “vitória da democracia”, e afirmou-se pronto a trabalhar com a oposição. A questão é: com que oposição?

Não partilho o otimismo do presidente americano porque receio que a derrota de Trump não signifique a derrota do trumpismo. Talvez nem sequer o início dela. Inquieta-me que tantos negacionistas, isto é, tantos mentirosos profissionais, que insistem em não reconhecer a vitória de Joe Biden nas eleições de 2020, tenham sido eleitos para cargos de grande responsabilidade política. Estes filhotes de Trump, com Trump ou sem ele, estão agora em condições de corroer e desmontar, a partir de dentro, as defesas do sistema democrático.

Como comentou por estes dias Joe Biden, antigamente, antes do advento de Donald Trump, democratas e republicanos discutiam uns com os outros, esgrimindo argumentos, e depois iam almoçar juntos, trocando abraços e piadas. Podiam estar em desacordo quanto à forma de gerir o país, mas todos eles defendiam o sistema democrático.

A primeira vítima do trumpismo global foi a direita democrática, que, em muitos países, se mostrou incapaz de resistir às vagas bárbaras, deixando-se submergir por elas. Essa direita civilizada está se afogando. Para salvar as democracias, é imperioso dar-lhe a mão.

Biden sabe disso. Infelizmente, é cada vez mais difícil encontrar verdadeiros democratas — os cavalheiros e as senhoras da direita clássica, respeitável e educada, de antigamente —, no circo de monstros em que se transformou o Partido Republicano. A quem pode Biden estender a mão?

Basta pensar em Ron DeSantis, reeleito governador da Flórida, e que emerge destas eleições como o principal adversário de Donald Trump na liderança pelo partido. Não por acaso, foi o único candidato republicano que Trump atacou durante o período eleitoral, ameaçando revelar terríveis segredos sobre o mesmo caso este decida disputar contra ele as primárias para as presidenciais de 2024. Convém lembrar que DeSantis já foi um feroz defensor de Trump e das suas delirantes teses negacionistas.

A julgar pelo clima, talvez Donald Trump e os seus filhotes se destruam uns aos outros antes de conseguirem destruir totalmente o Partido Republicano e a democracia. Não estou a ser sarcástico, juro. Estou tentando ser otimista.