'Um lugar de energização e cura': criadora do Encontro das Pretas fala da primeira edição virtual do evento, que começa hoje

Leda Antunes
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“Sou uma mulher preta, periférica e capixaba. Sou formada em Direito, mas a vida me transformou em uma estrategista para mudar narrativas.” É assim que a empreendedora social e ativista Priscila Gama, 38 anos, CEO do instituto DasPretas.org, se define.

Neste Dia da Consciência Negra, ela comemora os cinco anos de fundação do DasPretas. org, que ela define como uma “startup sem fins lucrativos”, ou um laboratório de inovação social formado exclusivamente por corpos pretos e periféricos, fundado a partir da primeira edição do Encontro das Pretas, em Vitória, capital do Espírito Santo, e que em 2020 chega a sua sétima edição, desta vez totalmente virtual.

O 7º Encontro das Pretas começa hoje (20) e segue até o dia 29 com uma programação intensa, 100% gratuita, transmitida online no Youtube, Instagram e Facebook do instituto. A programação começa com uma fala de abertura de Priscila Gama e contará com performances musicais, artísticas, exposições, além de uma arena com trocas sobre cultura, economia criativa, educação, tecnologia e inovação e a feira online "Fortalece", um marketplace 100% afrocentrado com participação gratuita para empreendedores de todo país.

Em entrevista à CELINA, Priscila Gama, hoje considerada uma das mulheres negras mais influentes do Espírito Santo, falou sobre a sua trajetória, a criação do DePretas.Org e a importância do Encontro das Pretas no cenário nacional.

CELINA: Quem é Priscila Gama e como foi a sua trajetória até criar o instituto DasPretas.org?

PRISCILA GAMA: Estava escrevendo sobre isso outro dia, mas é muito difícil falar da própria trajetória. Ao mesmo tempo, é um registro importante para mulheres e pessoas negras. Eu sou uma mulher preta, periférica, capixaba, com muito orgulho. Sou formada em Direito, mas a vida me transformou numa estrategista de inovação e tecnologia social. Isso aconteceu através das minhas vivências e de um trabalho coletivo, de entender e perceber que o que eu queria da minha vida era transformar o mundo e que isso não ia acontecer de uma forma solitária. Por isso a criação do instituto DasPretas, que é um laboratório de inovação e tecnologia social associativo, formado por pessoas físicas e jurídicas.

Dentro do DasPretas, todas nós, não só eu, somos mulheres que em algum momento passamos por algum projeto social ou tivemos algum fomento. E sempre tivemos um olhar do que nós precisávamos fazer para ir atrás dessa ótica futuro, para pensar uma outra realidade. Geralmente são pessoas não negras que falam para nós o que temos que fazer para conseguir um futuro que nos é permitido. A minha trajetória tem muito a ver com a trajetória do DasPretas no sentido de tomarmos para nós mesmas as nossas narrativas, desde a constituição do que é um sonho, passando pela transformação desse sonho em objetivo, até a realização dele. Minha trajetória me transformou numa “change maker”, numa estrategista para mudar as narrativas e potencializar outras trajetórias.

Hoje o instituto funciona em Vitória? Como ele foi criado?

A sede do escritório fica em Vitória, mas a gente tem atuação em todo o Brasil. A gente faz parte de uma rede muito potente. Então tem projetos no Rio, em São Paulo, em Salvador. Tem uma rede que vai agindo coletivamente e acaba atendendo o território nacional. O instituto foi fundado em 20 de novembro de 2015 e veio do primeiro Encontro das Pretas.

O encontro sempre foi um lugar de cura e de múltiplas potencializações, seja no empreendedorismo, na cultura, na arte, em discussões políticas. O Encontro das Pretas foi o primeiro festival no Brasil que falava de uma maneira tão plural, em todas as frentes, e numa cidade com um dos maiores índices de feminicídio, de vulnerabilidade e violência para negros na região Sudeste. Depois do primeiro encontro, a gente foi cobrada pelas pessoas: “Vamos continuar se encontrando a partir daqui?” “Vamos começar a criar soluções para demandas que a gente não tá vendo que o governo e as empresas estão fazendo?” E aí surge o DasPretas enquanto laboratório de construção de soluções pautadas em protagonismo negro e periférico.

Como funciona o instituto?

Nós temos duas frentes de trabalho: os projetos institucionais e o laboratório. Os institucionais a gente cria, capta recursos, propõe editais. Nessa frente hoje a gente tem seis projetos em andamento. E o laboratório, nossa frente que funciona como um escritório de projetos, é onde atendemos governos e empresas nas construções de soluções relacionadas à diversidade e à inclusão. E tem um sentido de inovação mesmo. A gente faz propondo novos olhares para produtos, serviços. Temos uma consultoria especializadas e uma curadoria dedicada para isso.

Pode falar um pouco desses projetos? E quantas pessoas estão envolvidas neste trabalho?

Sem sobra de dúvida o Encontro das Pretas é o mais importante. É o batimento cardíaco dessa organização. A meta de todos os nossos projetos nesse ano foi digitalizar os acessos sem digitalizar as emoções. Porque essa coisa de transformar e impactar as pessoas, de potencializar os movimentos, sejam pessoais ou profissionais, é uma coisa muito holística, tem muito sentimento. E uma dificuldade dos DasPretas esse ano foi encontrar o caminho para não digitalizar essas emoções, para que se mantivesse quente, unido. Temos também o Fortalece, que é uma ferramenta de rearranjo econômico. É um aplicativo que está sendo desenvolvido e que será um marketplace para afroempreendedores periféricos. A ideia é que ele faça entregas de e para a periferia. Temos o Energizze, que é uma plataforma de educação empreendedora digital, para empreendedores periféricos. Construímos a pedido da EDP, que é a concessionária de energia do Espírito Santo. Temos também o Afetiva, que é uma jornada de “eupreendedorismo” para mulheres negras, que adaptamos para o Consulado dos Estados Unidos. Temos 20 pessoas negras diretamente trabalhando e outras 30 terceirizadas.

Como vai ser o Encontro das Pretas neste ano?

A programação começa dia 20. Ele normalmente acontece durante um dia só, em uma praça no centro de Vitória. A gente movimenta muitas mil pessoas como público. Mas nas virtualidades, o encontro começa dia 20 e tem uma programação que se estende até o dia 29. Temos a Arena Futuro, que são pequenas pílulas de educação empreendedora e empreendedorismo cultural e artístico. Tem o espaço Erê, que é quando a gente dialoga com as crianças. Tem o Fortalece, que a gente utiliza no Encontro das Pretas como a nossa feira empreendedora, que temos presencialmente. Temos também uma exposição virtual de fotografia, além de shows, palestras, rodas de conversa.

Quando veio a pandemia, a gente ficou tentando entender como ia performar 100% online num contexto preto, sabe? Não num contexto não negro e que não fosse diverso e não tivesse um caráter de acessibilidade. O encontro é pensado por pessoas negras e é o nosso público prioritário. Pensamos em como ia fazer isso acontecer e garantir que quem quisesse, pudesse participar. Por isso a gente tem muitas frentes. O encontro vai acontecer em plataformas plurais. Tem formato para o Instagram, para o Facebook, para o Whatsapp.

Para você, qual é a importância desse encontro para as mulheres negras? O que tem recebido de retorno delas?

O Encontro das Pretas é a tese do meu mestrado. As mulheres sempre falam para gente que o encontro é um lugar de energização, de cura. Elas esperam esse momento anualmente para se conectar e entender mais uma série de questões que envolvem os processos de empoderamento negro e de autonomia, de independência. É muito interessante isso. A importância é essa. De não deixar que as pessoas percam esse espaço de conexão e cura e potencialização. Queremos dizer que a gente está aqui e vai passar por isso. Agora mais do que nunca.